Nem todo mundo sabe, mas quando a hanseníase atingiu o ápice de contaminação no Brasil, nas décadas de 30, 40 e 50, quem sofria da doença (conhecida na época como lepra) padeceu com a internação compulsória em asilos e, consequentemente, com sua separação da própria família. A aflição e a dor, inclusive, seguiram a trajetória de seus descendentes. Grande parte deles foi encaminhada a abrigos e orfanatos, sem direito a ter contato com os pais até 12 anos de idade. Muitas dessas crianças enfrentaram experiências traumatizantes no ?novo lar?, como o fato de apanharem sem saber o porquê de funcionários das instituições para onde foram levadas.
Os relatos foram contados na manhã de ontem, em Bauru, que sediou o 2.º Encontro dos Filhos Separados Pelo Isolamento Compulsório, promovido pelo Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan). A sede do Serviço Social do Transporte (Sest) e do Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat) acolheu cerca de 150 pessoas com histórias parecidas. Vieram de diversas cidades como Itu, São Paulo, Barueri, Mogi das Cruzes, Lins, Andradina, Araçatuba, entre outras cidades. Muitas delas conseguiram reencontrar seus pais ou parentes.
Mas a aproximação não apagou as marcas da infância. Pudera. Todos os seis entrevistados pela equipe de reportagem afirmaram ter sido torturados nos orfanatos. Contam que eram obrigados a ingerir medicamentos sem saber o porquê. Por essa razão, informam, grande parte destes "órfãos" enfrentam alguma deficiência mental.
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"Eu sou Joris Divino Lupi, tenho 53 anos e sou nascido em Cocais. Meu pai e minha mãe tinham hanseníase e me tiraram deles assim que nasci", contou. Joris cresceu e viveu até os 12 anos num colégio em Carapicuíba, local com quatro pavilhões destinados exclusivamente para crianças separadas de pais com hanseníase.
Soube de tudo o que tinha acontecido com ele ainda bebê, por meio de um prontuário. Viveu no local até os 12 anos. Relata ter sofrido, apanhado, torturado, assim como muitos dos que ali também viveram. "Eu me lembro que eles nos batiam e nós apanhávamos sem saber o porquê. É claro que tinham alguns meninos mais peraltas, mas quando algo acontecia, todos apanhavam", contou com revolta.
"Por que nos tratar assim? Nos tiraram de nossa família para nos torturar? Era melhor ficar com os pais doentes. Até hoje não sabemos, mas tomávamos remédios para dormir. Minha cabeça não parava de se mexer e então eu levava tapas na cara. Assim fomos tratados por anos", acrescentou Joris.
Quando tinha aproximadamente 7 anos, ele chegou a ser torturado. "Me lembro que o monitor que olhava os meninos me virou de ponta cabeça, colocou minha cabeça dentro da privada com resíduos e deu descarga", disse. Tudo foi presenciado por Luiz Rosa de Jesus, hoje com 54 anos. Luiz e Joris não se conheceram dentro do colégio, mas com ajuda do Morhan. "Eu me lembro que eu abri uma fresta da porta e vi a cena. O monitor disse: não conte a ninguém, caso contrário acabo com você", relatou.
Hanseníase
Hoje, a hanseníase é uma doença que tem tratamento e cura. Em Bauru, pode ser diagnosticada e tratada no Instituto Lauro de Souza Lima, especializado em patologias de pele. Funcionários do instituto, como Jaime Prado, são voluntários da Morhan e auxiliam na promoção de eventos como este. "Nós queremos que as pessoas saibam que hanseníase tem cura hoje e que o preconceito também. Queremos que os filhos que ainda não encontraram os pais façam essa reaproximação".