09 de julho de 2026
Geral

Crise sugere cautela no consumo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

A crise que ronda a Europa e os EUA e que gerou pânico nas bolsas de valores ao redor do mundo, inclusive no Brasil, também pode atingir Bauru. Em tempos de mercados globalizados, é difícil imaginar que a economia local não irá sofrer certa desaceleração nos próximos meses. Em razão deste panorama, embora as expectativas dos especialistas não sejam as pessimistas, a recomendação é de cautela no consumo.

A preocupação é a de que a contenção de gastos já anunciada pelos EUA e países europeus signifique o fechamento de mercados para a indústria bauruense. Com a produção forçadamente reduzida, a tendência é de que, até o início de 2012, o nível de emprego seja ameaçado.

Como reflexo de um eventual aumento no número de trabalhadores sem salário, cai também o poder aquisitivo da população e, por conseqüência, o faturamento do comércio. "A economia interna ainda está aquecida, tanto é que, recentemente, o governo precisou aumentar a taxa de juros para conter a inflação (ocasionada pela maior demanda). Mas com a crise, se não houver nenhuma medida governamental, este cenário poderá ser alterado", avalia o economista Mauro Gallo.

Por este motivo, ele alerta que o consumidor deve evitar contrair dívidas de longo prazo, além de tentar quitar os débitos já existentes. Na medida do possível, a orientação é reservar parte do dinheiro para futuras eventualidades. "Temos de partir do pressuposto de que não será uma ?marolinha?, como foi dito em relação à crise de 2008. Se nada de muito grave ocorrer, na pior das hipóteses o consumidor terá poupado recursos para investir em algo que deseje."

Conforme o economista Reinaldo Cafeo, as melhores opções de aplicação financeira são poupança ou renda fixa que permita o saque dos valores a qualquer momento. "Não é o momento de investir em imóveis ou aplicar na Bolsa para quem não tem domínio do mercado financeiro", completa.

Mas ainda que a turbulência envolva economias importantes da Europa e dos EUA, Cafeo avalia que ela não será tão grave porque o Brasil está melhor preparado, após ficar "vacinado", em 2008, com a crise norte-americana que afetou a economia de países de todo o globo. "O governo fez lição de casa. O Brasil está com as reservas internacionais em níveis confortáveis, nosso endividamento está sob controle e, agora, o governo anunciou um pacote de medidas para melhorar a competitividade da indústria", enumera ele, que também é presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru.

Para o economista, entretanto, os possíveis reflexos da crise só poderão ser melhor avaliados daqui a 30 ou 60 dias, ainda que a cidade não deva sofrer grandes conseqüências ao menos até as festas de final de ano. A partir deste momento, a crise poderá ser sentida pelos bauruenses se houver inibição das exportações da indústria associada à redução no volume de vendas no mercado interno.

"Se o mundo para de consumir, a oferta de produtos aumenta no mercado interno. Se os bancos restringirem acesso ao crédito temendo inadimplência, a economia poderá ficar debilitada. Num segundo momento, a ameaça ao emprego também pode fazer com que o consumidor coloque o pé no freio", diz.

O problema é que, além da redução no volume de exportações, Bauru pode sofrer ainda com uma maior entrada de produtos importados. "Os EUA e a Europa compram muito da China, por exemplo. Como eles irão reduzir seus gastos, a China terá de procurar outros mercados e é bem provável que destine mais produtos para o Brasil, o que seria algo muito nocivo à indústria local", diz o diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) Bauru, Domingos Malandrino.

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Risco antecipado pelo JC


Há um ano, o JC divulgou que havia a possibilidade de uma nova crise mundial se instalar antes do início de 2012. Na ocasião, o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea-USP) Manuel Enriquez Garcia e o economista Reinaldo Cafeo destacaram que eram claros os sinais de que a crise de 2008 não havia sido completamente superada nos Estados Unidos.

Entre os principais motivos apontados pelos especialistas para vislumbrar a volta da turbulência, estava a criação de vagas de trabalho em número insuficiente para que os norte-americanos voltassem a consumir como antes, proporcionando taxas de crescimento satisfatórias à economia. "Como esperávamos, a trajetória da economia fez um movimento em forma de W, que significa uma queda forte, seguida de uma lenta recuperação e de um novo mergulho, bem mais acentuado que o anterior. O problema é que, como a economia não estava plenamente recuperada, este segundo mergulho costuma ser arrasador", relembra Cafeo.

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Indústria busca novos mercados


O diretor do Ciesp de Bauru, Domingos Malandrino, revela que o volume de exportações das empresas locais já havia diminuído desde a crise de 2008. Foi quando o setor industrial passou a diversificar suas remessas e buscar novos mercados, como a Índia, o Leste Europeu e os Tigres Asiáticos (Hong Kong, Coréia do Sul, Singapura e Taiwan), diz Domingos Malandrino.

"Estes mercados emergentes têm forte propensão ao consumo de produtos brasileiros. Mas acredito que a crise poderá prejudicar ainda mais o desempenho da nossa indústria junto ao mercados maduros, que começaram a conter gastos", analisa Malandrino, que aposta também no consumo do mercado interno para que os prejuízos não tomem maiores proporções.

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Turbulência começou em 2008


A turbulência que ameaça os EUA e a Zona do Euro é consequência da crise mal superada de 2008, que afetou principalmente o sistema bancário e companhias de seguro multinacionais. Na época, os governos norte-americano e europeus injetaram recursos públicos para evitar a falência destas empresas.

Além do investimento do setor privado, a ideia de fazer o setor público gastar mais e reduzir juros para estimular o então desacelerado consumo das famílias norte-americanas não funcionou. "As taxas de crescimento permaneceram estagnadas e o dólar enfraqueceu no mundo todo. Como resultado, a dívida que era do setor privado transferiu-se para o setor público", diz o economista Reinaldo Cafeo. A estimativa é que o governo americano tenha investido US$ 9,7 trilhões na economia nos últimos três anos.

Na Europa, a dívida dos países também é o problema. Depois dos pacotes de resgate da Grécia, Irlanda e Portugal, a preocupação se volta à Espanha e à Itália, países que também saíram da turbulência econômica iniciada em 2008 com contas desequilibradas. Como consequência da crise em países importantes da economia mundial, uma onda de desconfiança generalizada se instalou no mercado financeiro.

Para tentar contornar a situação, um duelo político foi travado entre democratas e a ala mais radical do Partido Republicano (de oposição) em torno do aumento do teto da dívida pública norte-americana. O acordo para evitar o calote americano elevou em US$ 2,4 trilhões o limite de endividamento do governo federal, até então estabelecido em US$ 14,3 trilhões. Como contrapartida, o orçamento terá de ser cortado em algumas áreas.

"O problema é que, quando o plano foi aprovado pelo Congresso americano, a desconfiança do mercado em relação a uma possível recessão estava instalada, o que resultou em quedas bruscas nas principais bolsas de valores do mundo", pontua o economista. Para piorar a situação, na última sexta-feira, a agência de avaliação de risco Standard & Poor?s rebaixou a nota da dívida americana de AAA para AA+, considerando que os títulos dos EUA não são mais tão confiáveis.

Assim como fez os EUA, os países da Zona do Euro também anunciaram medidas para tentar reduzir o déficit público e fomentar o crescimento. O temor é que esses países enfrentem dificuldades para pagar suas contas, o que pode resultar em calote. As mesmas medidas de contenção de gastos, no entanto, podem reduzir a capacidade destas economias se recuperarem.

Conforme destaca Cafeo, o socorro aos bancos ? como houve em 2008 - é sempre necessário por estas instituições serem consideradas termômetros do desempenho das economias e importantes para garantir níveis de solidez dos países. "Uma indústria, quando quebra, tem um campo de influência limitado. Já um grande banco falido pode tornar o sistema financeiro debilitado e criar uma crise de confiança generalizada, gerando perda de ativos e redução de liquidez, o que coloca em xeque a credibilidade do País", detalha.

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Medidas


Segundo especialistas consultados pelo JC, as chances de crise nos Estados Unidos e na Zona do Euro afetar o Brasil poderão ser minimizadas se o governo agir a tempo. A boa notícia é que as medidas já tiveram início. Na semana passada, o governo federal anunciou o plano Brasil Maior, para estimular a competitividade da indústria nacional, com desoneração de tributos e da folha de pagamento de alguns setores, bem como ressarcimento de créditos a grandes exportadores.

Segundo avalia Cafeo, poderá ainda haver necessidade de reduzir as taxas de juros ? elevadas recentemente para conter a inflação ? como forma de manter o consumo em patamares estáveis. Na crise de 2008, foi esta a estratégia utilizada para ?blindar? o País. "Por enquanto, como a inflação ainda não foi combatida, os juros precisam permanecer altos. Mas, se houver crise de liquidez, o governo terá de liberar dinheiro para evitar deflação", comenta.