Damasco - O Itamaraty discorda de que a retirada do ditador Bashar Assad do poder na Síria seja a melhor solução para a reforma política do país. A Casa Branca afirmou ontem que a Síria - onde, segundo ativistas, 2 mil manifestantes pró-democracia foram mortos desde o início dos protestos, há três meses - estaria melhor sem Assad.
"Tem que ter um pouco de prudência na aplicação do remédio, para que ele não mate o paciente. Tem que ser um remédio na dose certa", disse ontem o chanceler brasileiro, Antonio Patriota. "Alternativas ao governo atual podem ser até mais problemáticas", avalia Patriota. "O que você faz? Tira o Assad e quem assume? O Exército? Outras forças que podem ser mais radicais, mais progressistas? Como (elas) conseguem implementar um plano de reforma?", perguntou.
Ontem, representantes do Ibas (Brasil, Índia e África do Sul) tiveram um encontro em Damasco com Assad e o chanceler sírio, Walid Muallem. "Procuramos dizer que o uso da violência indiscriminada contra populações civis é inaceitável", disse o subsecretário-geral para Oriente Médio do Itamaraty, Paulo Cordeiro. Segundo declaração do Ibas, Assad garantiu apoio ao processo de reforma política, a partir de uma "democracia multipartidária", e reconheceu "alguns erros".
Cordeiro disse que Assad se queixou de sofrer oposição de três grupos: os que não se beneficiaram da abertura da economia, os intelectuais que não aceitam o regime de partido único e fundamentalistas islâmicos. Patriota acredita que Ibas e Turquia podem trabalhar juntos em relação à Síria.
Para ele, que conversou com o chanceler turco depois da reunião que Ahmet Davutoglu teve com Assad, apesar das declarações do ditador de que manterá a repressão, só a duração do encontro que ele teve com o chanceler turco anteontem (mais de seis horas) "reflete uma disposição de assumir responsabilidade no fim à violência e na aceleração às reformas políticas".
Em Nova York, a secretaria-geral da ONU apresentou um relatório que mostrou não ter havido evolução na Síria desde a aprovação da declaração presidencial do organismo condenando a violência do regime. Integrantes europeus do Conselhode Segurança e os EUA afirmaram que a declaração não surtiu o efeito esperado e pediram um novo relatório para o início da próxima semana.
Mortes e sanções
Forças sírias mataram ontem 15 civis na cidade de Homs, disse um grupo de ativistas, enquanto os Estados Unidos impuseram sanções a um banco e a uma empresa de telefonia celular da Síria.