Inverno: tempo de frio, de tirar casacos e peças de lã do guarda-roupa, de sopas e bebidas quentes, de dias com tons acinzentados, de preguiça e de ipês. Sim, de ipês. Impossível não notá-los. É nesta época do ano que as árvores dessa espécie assumem seus tons e formas mais exuberantes, desafiam as baixas temperaturas, cortam o céu com imponência e, por fim, tingem as calçadas com suas flores e cores.
Por serem extremamente belos e terem escolhido o inverno em detrimento da primavera para desabrocharem, os ipês chamam a atenção de todos. Compositores como José Fortuna dedicaram partituras inteiras à espécie, como na música "O Ipê e o Prisioneiro", mais conhecida como "Ipê Florido", eternizada na voz da dupla Abel e Caim e muita outras. Escritores e poetas também se deleitam ao observá-lo.
"Gosto dos ipês de forma especial. Questão de afinidade. Alegram-se em fazer as coisas ao contrário. As outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está pra chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio", escreveu, certa vez, Rubem Alves, em sua crônica "Os ipês estão floridos".
E o escritor estava certo. Os ipês são tudo isso mesmo. Contudo, não são os únicos a colorir o inverno com suas flores. Pode reparar: nessa época do ano, patas de vaca, bananeirinhas, flores-de-são-joão, azaléias, escovas de garrafa, manacás de cheiro e mais dezenas de outras espécies também preferem a contramão, escolhem o inverno para florescer.
Osmar Cavassan, doutor em ecologia pelo Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, explica que, normalmente, a ideia de que a primavera é a estação das flores se aplica às regiões temperadas, como no interior dos Estados Unidos, por exemplo. Em Bauru, o clima é diferente, o que faz com que as estações sazonais não sejam tão bem definidas, possibilitando a florada o ano todo.
Segundo ele, existe uma grande variedade de espécies típicas do inverno brasileiro, mais até do que típicas do verão e do outono.
"Está no DNA das plantas. Elas são naturais do inverno, por isso, todo o ecossistema trabalha para garantir sua sobrevivência. As flores destas espécies costumam ser vivas, exuberantes e perfumadas para atrair os insetos e garantir a reprodução", explica Osmar.
Para a bióloga Teresa Cristina Aragão Domingos Mastrangeli, professora de jardinagem, a escolha por parte dessas espécies de florescer inverno pode representar também uma adaptação para sobrevivência.
"Na primavera, a concorrência por insetos e espaço é muito grande, já que a maioria das espécies floresce nesta época. Penso que, percebendo isso, muitas plantas transferiram sua florada para o inverno. É uma forma de sobreviverem", considera Teresa.
Longe do fim do mundo
Flores em pleno inverno. Isso é sinal que o ecossistema está desequilibrado por conta das ações do homem, a camada de ozônio está irreversivelmente deteriorada e o fim dos tempos está próximo.
Para Osmar Cavassan, doutor em ecologia pelo Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a afirmação acima é, no mínimo, absurda.
"Todo ano é a mesma coisa. As pessoas veem as plantas florindo no inverno e acham que elas estão fora de época. Com isso, associam imediatamente aos debates ecológicos a respeito da camada de ozônio e dos níveis de poluição. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. As plantas que florescem no inverno são as da época. É natural", reforça.