09 de julho de 2026
Articulistas

Meia-noite em Paris

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Gore Vidal, um escritor entre cujas virtudes não se incluem a humildade e nem a generosidade para com os seus contemporâneos, afirmou uma vez que Woody Allen é o maior criador dos nossos tempos. Ele compete com Ford, Hitchcock, Fellini, Bergman, com a vantagem de estar vivo. Fui assistir "Meia-Noite em Paris", numa sala lotada do Cine´n Fun (é assim que se escreve?), sem ar condicionado, cheirando a mofo. Vi uma cópia riscada com a dos filmes velhos. No começo achei até que seria mais um meio de expressão do autor. Depois me conscientizei que era mesmo decadência precoce da casa. O filme é divertido, tem um roteiro original competente, de acordo com o talento natural do diretor. Ele nos transmite uma paixão fulgurante pela capital francesa, filmada com tanto zelo quanto sua amada Nova York. Para a abertura cheia de cartões postais, Woody Allen passeia pela Cidade Luz ao som do clarinetista Sidney Bechet. Quem já viajou por lá se abre em sorrisos ao identificar com nostalgia os pontos inesquecíveis. Os personagens são introduzidos com a mesma naturalidade, talvez por seguirem os moldes clássicos do cineasta. Owen Wilson (aquele de Marley, e Eu) interpreta Gil, um roteirista de sucesso em Hollywood, responsável por "filmes adoráveis, mas esquecíveis". Passeando com a noiva e os pais dela por Paris, ele só pensa em se mudar para lá, escrever seu primeiro romance e fazer algo relevante.

Enquanto fantasia nas ruas molhadas ("Paris é mais bela sob chuva") sonha com a Era de Ouro cultural, na década de 1920, e se interessa em conhecer o restaurante onde James Joyce comia salsichas. A noiva de Gil nem se interessa por esse roteiro nostálgico-cultural e prefere outros programas com os pais e amigos. Reconheci, no passeio da câmera, as escadarias do Sacré Coeur, em Montmartre, onde reencontrei o meu amor (perdi minha mulher durante um passeio e fiquei angustiado porque sabia que ela estava sem dinheiro e nem sabia o endereço do hotel). Justamente ali, aos pés da Basílica, o personagem embarca num Peugeot antigo indo parar numa festa ao cineasta e poeta Jean Cocteau. Lá encontra Cole Porter tocando piano e cantando. Conversa com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, T.S. Elliot e outros heróis. Como se bebia naquela época! "Bêbado aos vinte, arruinado aos trinta, morto aos quarenta" ? escreveu Scott em seu caderno de anotação. Errou por pouco. Morreu aos quarenta e quatro. A esposa Zelda também não ficava atrás. Juntos abriram uma trilha de porres pela era do jazz norte-americano. Durante a festa, o personagem Gil se apaixona por Adriana (Marion Coutillard, de "Piaf"), amante de Picasso, ex de Braque e de Modigliani (isto é que é amar a arte!) Conhece Gertrude Stein, que lê seus manuscritos e elogia sua gana pela profundidade artística, indiferente ao sucesso financeiro. Esse túnel do tempo percorre toda Paris da belle époque na qual viveram gênios de verdade - Gauguin, Degas, Tolouse-Lautrec. Até beijos acontecem na ponte dos jardins de Monet. Woody enche o filme de referências que nos leva a refletir sobre as ilusões que temos sobre a existência - o diretor continua fatalista e sempre sob a máscara da comédia. O roteiro brinca com Salvador Dali, Man Ray, Luis Buñuel (o que rende uma ótima piada com os surrealistas e "O Anjo Exterminador").

No Brasil, também tivemos nosso modernismo profundamente articulado na Paris dos anos 1920. Poderíamos trocar os artistas envolvidos na trama por Osvald e Tarsila, Villa-Lobos, Mario de Andrade e tantos outros que cruzaram o Atlântico em busca da Meca das artes modernas. De Paris se espraiou a renovação das artes plásticas, da literatura e da música que continuam fazendo sentido nos tempos atuais. Para nós, aqui em terras tapuias só restava deglutir todo esse acepipe cultural e tentar regurgitar algo diferente, como propunha o Movimento Antropófago de Osvald de Andrade. Exatamente como em toda a sua filmografia, Woody Allen equaciona o difícil equilíbrio entre comunicação e profundidade, significância artística e penetração comercial, classicismo e modernidade. A grande e singela lição que nos deixa é que a idade de ouro é um mito. Poderia também ser a do Renascimento, com Michellangelo e Tiziano. A única idade de ouro possível é o presente, o único que há.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC