07 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Carros e caos


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"- O peixe não dorme, mãe?". "-Não.", responde secamente a mulher, detrás da revista no consultório médico. O pobre animal se esconde nos corais artificiais do aquário, com os olhos arregalados, sempre atentos. Às vezes também somos assim. Porém, os peixes permanecem com seus globos oculares abertos porque não têm pálpebras, nós porque temos medo.

Alarme no carro, na casa, na escola, na loja, no supermercado, na farmácia. Se não bastam nossos olhos, entram as câmeras. E ainda por cima lhe pedem para sorrir! Entendo que é tudo uma questão de segurança. Mas são tantas estratégias de defesa que parece que somos todos fugitivos e precisamos correr ao barulho ensurdecedor da sirene. Se bem que podemos fugir em busca de paz, como propunha o arcadismo literário com o lema Fugere Urbem, que significa a fuga da cidade, buscar um lugar mais calmo e simples.

Porém, até para fugir precisamos enfrentar o caos. Refiro-me ao trânsito. Outro dia, por causa de obras de recapeamento, as avenidas Duque de Caxias e as Nações Unidas estavam (mais) congestionadas. Não se engane, ficar pa-rado no tráfego não significa relaxar. É preciso ficar esperto para avançar na hora certa, qualquer brecha pode significar alguns minutos a mais para engolir o almoço. Indo de carona com um amigo, ele atende o telefone enquanto curtimos a espera numa fila interminável de veículos. No celular, a amiga pede para que quando passássemos pelo carro dela déssemos passagem, pois ela havia entrado em uma rua errada ao tentar fugir do congestionamento. Assim estava aguardando para voltar à fila principal. Ao encontrá-la, outros carros que estavam na frente dela aproveitaram a brecha dada por nós. Certamente recebemos agradecimentos pela gentileza... Não muito merecidos, digamos.

Finalmente chegamos em casa para o almoço, na volta deparamo-nos com o trânsito conturbado novamente. Para ajudar, um alarme soa alto, alto até demais. Meu amigo no volante se desculpa, explica que o alarme é de seu próprio carro. Ele dispara pouco depois do carro se movimentar, quando não acionado corretamente. Lembro do peixe no aquário, penso que ele não é o único a viver entre paredes de vidro. E começo a desconfiar que os alarmes podem ser mais eficientes em nos irritar do que em nos proteger.

Lydia Rodrigues - estudante de jornalismo da Unesp