09 de julho de 2026
Polícia

Demora no banheiro pode ter motivado espancamento

Ricardo Santana e Bruna Dias
| Tempo de leitura: 7 min

A Polícia Civil está empenhada em identificar quem e o que motivou a agressão ao estudante de odontologia da USP de Bauru Giovanni Comora Silva, 19 anos, na última quinta-feira, durante uma festa universitária em uma casa noturna na quadra 7 da avenida Getúlio Vargas. No final da tarde de ontem o jovem recebeu alta médica no Hospital Beneficência Portuguesa.

A versão inicial do caso é que a brutalidade contra o estudante foi causada pela demora da vítima para sair do banheiro da casa noturna, o que teria irritado quem aguardava do lado de fora e, na saída de Giovanni, houve o desentendimento.

Uma testemunha que presenciou o ato de violência e acompanhou a vítima até o Pronto-Socorro Central (PSC) destacou esta versão a policiais militares, que apresentaram a ocorrência no Plantão Policial, onde foi elaborado o boletim de ocorrência (BO). O evento foi promovido por uma comissão de formatura que reúne os cursos de engenharia civil, mecânica e elétrica da Unesp de Bauru.

Como a festa em que Giovanni participava atrai basicamente estudantes universitários, muitos são conhecidos de outras "baladas". O delegado titular do 3º DP, Milton Bassoto Júnior, esclareceu na noite de ontem que as pessoas ouvidas até o momento podem reconhecer o principal envolvido. "Uma das testemunhas afirmou que o agressor frequenta esse tipo de festa", adianta.

O delegado cruza as informações e checa as versões para determinar a identidade do principal agressor e que pode ter recebido a ajuda de outra pessoa. A polícia mantém a identidade deste suspeito em sigilo para resguardar o encaminhamento das apurações em um inquérito policial sob responsabilidade do 3º DP.

O delegado seccional de Bauru, Marcos Buarraj Mourão, adiantou ontem que a motivação para a agressão ao estudante universitário pode ter sido banal. "Parece que ele demorou para sair do banheiro e tinha muita gente", diz. Mourão acrescenta que depoimentos da vítima e de testemunhas e os resultados dos laudos médicos poderão agravar a acusação na conclusão do inquérito policial.

"Ou até, em hipótese, configurar uma tentativa de homicídio. No mínimo, pelo que consta, vai ser uma lesão corporal grave, com pena de 2 a 8 anos de reclusão", diz o delegado seccional. Quanto ao reconhecimento da pessoa que seria o principal agressor, ele diz que o próprio Giovanni poderá ajudar na identificação.

O delegado salienta que as imagens do circuito interno de câmeras da casa noturna não cobrem a área onde ocorreu a agressão. Mourão explica que as agressões começaram no banheiro e continuaram na parte externa de acesso aos reservados.

O delegado seccional ressalta, ainda, que foi feita imediata requisição ao Instituto Médico Legal (IML) de Bauru para a realização do exame de corpo de delito na vítima. Segundo ele, não haverá prejuízo para a elaboração do laudo pelo fato de não ter sido feito o exame na quinta-feira. Segundo o seccional, o médico legista poderá emitir sua avaliação com base em informações apresentadas pelo hospital. "Tem como emitir um laudo com base na condição da vítima e no histórico hospitalar", frisa.

Omissão


O desempenho da segurança da festa também será alvo de investigação no inquérito policial. O delegado Marcos Mourão esclarece também que a apuração tentará definir se houve omissão de socorro das pessoas incumbidas pela segurança no local.

"Parece que a vítima ficou caída sem uma intervenção", diz. Ele acrescenta que também será avaliada a responsabilidade civil e administrativa do estabelecimento onde ocorreu a agressão.

O delegado explica que o contrato de locação da casa noturna para os alunos da Unesp poderá ser analisado para se estabelecer de quem seria a responsabilidade pela garantia de segurança. "Temos dúvidas. Eu levo um murro na cara e recorro a quem? Quem tem que dar segurança ao cliente? Tudo isso será apurado no inquérito", comenta Mourão.

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Vítima precisará de cirurgia no rosto


Uma intervenção cirúrgica será necessária para reconstituir a face esquerda do estudante universitário Giovanni Comora Silva, 19 anos, que teve fratura de malar e de nariz, traumas que provocaram a deformação de parte do lado esquerdo de seu rosto. No entanto, como o rosto de Giovanni ainda está muito inchado, o cirurgião bucomaxiliar aguardará a diminuição do edema para definir que procedimento será adotado, segundo comunicado de um dos diretores clínicos do Hospital Beneficência Portuguesa, Raul Gonçalves de Paula.

Conforme a assessoria de imprensa do hospital, o parecer clínico relata que Giovanni chegou à Beneficência com traumatismo crâniofacial, com hematoma na hemiface esquerda e perda de consciência. Ele ficou dois dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em observação e mais dois dias no quarto. De acordo com Gonçalves, o trauma na coluna será superado com fisioterapia, não restando sequelas.


Testemunhas


Giovanni Comora Silva cursa odontologia no campus de Bauru da Universidade de São Paulo. Na última quinta-feira, ele participava de uma festa promovida por estudantes universitários da Unesp em uma casa noturna de Bauru quando foi agredido, por volta das 3h40.

O boletim de ocorrência (BO) destaca a versão apresentada por uma testemunha que acompanhou Giovanni até o Pronto-Socorro, onde esclareceu o que presenciou aos PMs.

"De acordo com a testemunha, o que teria motivado as agressões foi o fato da vítima encontrar-se demorando no interior do banheiro da boate. O que fez com que alguns frequentadores começassem a chutar e bater na porta apressando-a, tendo a vítima saído exaltada do banheiro e daí começado as agressões", consta no BO.

Conforme o JC relatou na edição do último sábado, outra testemunha da agressão na casa noturna relatou cenas de horror na saída do banheiro: "Minha amiga parou na escada e então eu vi uma pessoa saindo do banheiro e outra espancando-a. A vítima caiu e o agressor, que usava uma bota, pisou na cabeça dele. Fez um barulho horrível."

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Organizadores lamentam a ?fatalidade?


No início da noite de ontem, um dos 12 membros da comissão de formatura organizadora da festa em que o estudante Giovanni Comora Silva foi agredido - que abrange os cursos de engenharia civil, mecânica e elétrica do campus da Unesp de Bauru - entrou em contato com a equipe de reportagem do JC para esclarecer alguns pontos.

O jovem teve a identidade mantida em sigilo, já que se pronunciou em nome dos outros 11colegas e afirmou que a comissão foi a responsável por alugar a casa noturna, realizar a festa e contratar seguranças e socorro médico. O contrato de locação, segundo o jovem, está no nome dos organizadores da festa.

Segundo ele, a empresa de segurança contratada pela comissão de formatura está devidamente credenciada pela Polícia Federal, conforme solicitado pela casa noturna alugada. O jovem não soube especificar quantos seguranças foram contratados e nem quantos a casa de eventos exigia de acordo com sua capacidade, para 2.500 pessoas.

A estimativa dele é de que, provavelmente, 30 seguranças trabalharam na festa, sendo que "o número pode ser maior se algum outro membro da comissão tiver solicitado mais efetivo por conta do grande número de público na festa". A logística dos profissionais de segurança é definida pela empresa, segundo o membro da comissão. Não se sabe ao certo quantos haviam no primeiro andar, na pista e na portaria.

"Nós não sabemos quem está errado e estamos à disposição se a família quiser nos procurar. Nós entendemos que não temos culpa, porque o que estava no nosso alcance a gente fez. Realmente foi uma fatalidade", finalizou o membro da comissão de formatura organizadora da festa.

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FOB oferece apoio


A diretoria da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que logo que tomou ciência do problema com Giovanni Comora Silva, o serviço social da USP foi acionado e prestou auxílio à família. O aluno também terá todo o respaldo acadêmico necessário para que concilie o ano letivo junto ao tratamento e recuperação.