10 de julho de 2026
Geral

Mercado de luxo descobre ?brechó? da construção civil

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

O que é antigo, usado e desgastado está caindo no gosto dos consumidores de alto poder aquisitivo. O que, inicialmente, pode parecer um disparate, na verdade é uma tendência que vem se consolidando no setor da construção civil: o uso de materiais de demolição para trazer requinte a ambientes domésticos e comerciais.

Embora não haja estatísticas oficiais, especialistas do ramo são unânimes em afirmar que, nos últimos cinco anos, a demanda por este tipo de produto cresceu significativamente em Bauru. E quem procura, geralmente, são médicos, advogados, empresários e profissionais liberais preocupados com a preservação do meio ambiente, mas capazes de pagar mais caro pelos serviços de arquitetos, decoradores e restauradores entusiastas desta nova vertente.

Dona de uma marcenaria que há dois anos desenvolve móveis exclusivos a partir do restauro de madeira de demolição, a empresária Rosana Conversani conta que a demanda é tão grande que o tempo de espera para adquirir um produto seu é de aproximadamente 90 dias. "A maioria dos móveis é feita de peroba-rosa, uma madeira rara e muito resistente, que é garimpada em demolições de imóveis construídos até 100 anos atrás. Fazemos aparadores, cadeiras de balanço, bancadas, mesas, balcões e adegas artesanais de acordo com o gosto do cliente", comenta.

E esta exclusividade tem um preço. Um aparador, por exemplo, pode custar até R$ 3 mil. Já uma cadeira de balanço, cerca de R$ 2 mil. O custo, assim como o tempo de espera ? já que a madeira precisa ser preparada antes de virar móvel ou piso de um ambiente ? são dois dos entraves que ainda afastam a clientela. "Mas não tenho do que reclamar. Atendo aos pedidos com minha capacidade máxima de trabalho", comenta ela, que também restaura portas e janelas, bem como pias e banheiras antigas.

Todo este material é adquirido por Rosana de gente como o também empresário Francisco Belizário Cordeiro, o Chiquinho, que trabalha há 20 anos demolindo e comercializando restos de construção agora tão valorizados. De acordo com ele, o grande aumento da demanda é evidente em seu depósito, que está quase sempre vazio.

"Tudo que é demolido tem saída rápida, geralmente vai direto para o cliente", resume ele, que garante: só não está com a vida ganha porque a concorrência aumentou muito. "Antigamente, pouca gente trabalhava neste ramo. Agora, tem gente até demais", comenta.


Diferencial


Segundo Chiquinho, além do madeiramento e das ferragens, aproveita-se ainda os tijolos das demolições. "Os de construções muito antigas, que tinham uma qualidade superior, são reutilizados em paredes de tijolo à vista. A procura maior é para casas de alto padrão, mas uma porcentagem pequena também vai para reformas de estabelecimentos comerciais", detalha.

Proprietária de loja que comercializa materiais de demolição, Nilma Ferreira conta que vende madeira, portas e janelas usados até 40% mais baratos do que itens novos de mesmo padrão. O problema, segundo ela, é que é difícil encontrar no mercado objetos de tão boa qualidade quanto os fabricados antigamente.

"É esse diferencial que os fregueses procuram. Além da qualidade superior, querem algo exclusivo, fora dos padrões. Por isso, às vezes, o usado é mais caro que o novo", esclarece ela, que possui muitos decoradores e arquitetos entre seus clientes. "A idéia da reciclagem ganhou status nas classes sociais mais elevadas e tudo que chega na loja, vende muito rápido", acrescenta, comprovando a realidade também vivida por Chiquinho.

Outro empresário que também diversificou seu foco de atuação por conta da nova demanda foi o proprietário do Asilo dos Azulejos, Roberto Garcia Rodrigues. Embora ainda tenha como principais clientes aqueles que procuram azulejos antigos para reposição de unidades danificadas, há quem já compre materiais de décadas passadas simplesmente para conferir algum charme a ambientes modernos.

"O pessoal compra, por exemplo, para construir painéis ou fontes de água", comenta ele, que possui em seu depósito mais de 30 mil metros quadrados de azulejos e louças sanitárias produzidos nos últimos 50 anos.

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Demolição concentrada


Segundo Renato Parreira, diretor do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) em Bauru, as demolições estão concentradas nas regiões Centro e Sul de Bauru. E não se trata apenas de imóveis construídos muitas décadas atrás.

"Há uma série de construções nem tão antigas que estão dando lugar a prédios residenciais ou comerciais", aponta, citando as imediações das avenidas Getúlio Vargas e Duque de Caxias, além dos Altos da Cidade, como pontos preferenciais dos empreendedores.

Antônio Aversa Neto, presidente da Associação dos Transportadores de Entulho e Agregados de Bauru (Asten), acrescenta ainda ruas como a Araújo Leite, Antônio Alves, Octávio Pinheiro Brisolla e avenida Nossa Senhora de Fátima. "A gente observa casas construídas há 10, 15 anos, já sendo demolidas para ceder espaço principalmente a empreendimentos comerciais. É uma tendência na cidade", corrobora.

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Casa demolida rende até R$ 30 mil em materiais


Quem observa o amontoado de entulhos em que se transforma um imóvel demolido mal pode imaginar que ali se esconde uma pequena fortuna. De acordo com o empresário Francisco Belizário Cordeiro, uma casa antiga, se derrubada por profissionais competentes, pode render um faturamento bruto de até R$ 30 mil em objetos e materiais recuperados.

"Rende mais quando a casa é antiga, que dá para aproveitar até 80% do que é demolido. Se a casa tiver uns 15 anos, aproveita-se mais o madeiramento e o telhado, mas não passa de 30% do total", comenta.

De acordo com ele, quem executa o serviço de demolição geralmente são serventes de pedreiro, que recebem cerca de R$ 900,00 para derrubar uma média de dois imóveis por mês. "Eles geralmente trabalham em cinco ou seis. Como a mão de obra não fica barata, a gente cobra um pequeno valor do proprietário para fazer o serviço. O resto do pagamento é o próprio material demolido", comenta.

Mas, embora seja um nicho em franca expansão, o mercado de demolição ainda é pouco explorado, conforme avaliação do presidente da Associação dos Transportadores de Entulho e Agregados de Bauru (Asten), Antônio Aversa Neto. Conforme matéria publicada em junho deste ano pelo JC, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) estima que todos os dias são recolhidas mil toneladas de entulho em Bauru, que equivalem a 20 residências.

A esmagadora maioria deste material é direcionada para cobrir erosões, como a existente na altura da quadra 1 da rua Reginaldo Anderson Rosão, na Pousada da Esperança. "Quanto mais nova a construção, menos se reaproveita, principalmente pela grande quantidade de argamassa utilizada atualmente, o que dificulta a limpeza dos tijolos ou outros materiais que tiverem sido concretados", comenta Aversa Neto.

Na avaliação de Renato Parreira, diretor do Sindicato da Indústria da Construção Civil (SindusCon) em Bauru, a tendência é de que este material comece a ser melhor aproveitado. Em parceria com a entidade, a prefeitura, por exemplo, já disponibiliza restos de construção para doação nos chamados bolsões do entulho, depósitos para onde as empresas do ramo destinam o que não foi utilizado em seus empreendimentos, mas que ainda pode ser reaproveitado.

"A demolição é uma consequência da evolução da construção civil como um todo. É reflexo da necessidade de espaço para novas construções, principalmente no Centro da cidade. Mas o aproveitamento deste material ainda é mínimo", considera.