08 de julho de 2026
Articulistas

Bauru é uma parada

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Tivemos a Marcha do Movimento dos Sem Terra, a Marcha para Jesus e, hoje, teremos a que foi anunciada como a maior de todas - a Marcha da Diversidade. Curioso é que não houve, por parte dos manifestantes, intenção de confrontos ou de comparações. Apenas coincidências de agenda. Cada grupamento defende o seu ideário de conquistas, nesta ou em outra vida. A democracia, com todos os seus defeitos ainda nos permite esse pluralismo. A sociedade tem correntes de opinião e modos diferentes de encarar a "arte do bom e do justo". Chegará um momento em que "A justiça e a paz se beijarão" (Salmo 85). Até lá, ainda vamos assistir a muitas manifestações homofóbicas, cruéis e violentas. Tropas de choque batendo com os cassetetes nos escudos, gases e prisões sem sentido. A reforma agrária aguardará que as políticas públicas de distribuição de terras cumpram o seu verdadeiro papel social. Jesus continuará esperando que a humanidade compreenda o seu sacrifício; que homens e mulheres se redimam, independentemente de orientações sexuais. O que deve valer é a pureza da alma.

Na Roma antiga as marchas se realizavam como forma de demonstrar poderio militar. A elite só aceitava o poder das armas. A homofobia nem existia, porque a liberdade sexual dos romanos, herdada dos gregos, era absoluta... Pelo menos entre os homens. Hoje temos marchas para todos os gostos. Marcha da Maconha, das Margaridas, em Defesa da Amazônia, do Código Florestal, das Comunidades Indígenas, a Marcha dos Maristas. Lamente-se que o estado democrático exaustivamente teorizado pelos cientistas políticos, no Brasil, seja uma via à corrupção. Somos um país onde a privatização dos bens públicos é vista como "prática comum" dentro do sistema eleitoral. Talvez, por isso, não tenhamos ainda a Marcha contra os Corruptos e Corrompidos e em defesa da moralidade no trato da coisa pública. Por enquanto, cada grupamento luta pelo seu pedaço. Já é um avanço. Pior seria se fossem bandos de cordeiros. A plataforma política da Marcha das Margaridas apresenta uma visão de mudança global no modelo de desenvolvimento, desde uma perspectiva feminista: denúncia de violência sexista, divisão sexual do trabalho, creche no campo, autonomia sobre o corpo, independência dos maridos, legalização do aborto. Que lutem... Só não entendo é porque não se reúnem todos numa só Grande Marcha, já que se defende a diversidade e o direito a posições políticas, de amor, de orientações sexuais, de ir e vir e de resistir.

Seria interessante, como preconiza um manifesto da Marcha da Liberdade, ver ambientalistas defender a legalização da maconha, maconheiros gritar pelas nossas florestas, vegetarianos fazer churrasco de abobrinha, moradores dos Villagios comparecer em bicicletas, cabras machos de o Nordeste deflagrarem uma bandeira de arco-íris. Que tal se motoristas, motociclistas e pedestres portassem faixas com compromissos de se respeitarem mutuamente? Como induzia o texto, somos todos idosos, pretos, travestis, cadeirantes, nordestinos, bolivianos. Ou, pelo menos, deveríamos nos colocar na pele um do outro.

Por enquanto, a preocupação maior da imprensa com as Paradas tem sido meramente estatística. Em vez de se discutir as temáticas que envolvem a manifestação, capricham em provar quantos participaram: 50 mil, dois milhões, três milhões? Um grande jornal chegou ao requinte de discutir, em três páginas de duas edições, quantas pessoas cabem de pé, por metro quadrado, no trecho da Avenida Paulista, para facilitar a contagem desde o helicóptero. Fica em segundo plano a informação do que querem fazer deste país as pessoas lá reunidas. Podemos julgá-las utópicas, com objetivos irrealizáveis e que não comportam maiores discussões. Mas, são reais, pessoas de carne e osso, que pensam em viver numa sociedade mais justa e igualitária. As utopias é que fazem as sociedades avançar. O Brasil melhor, democrático, laico e digno da sua população depende dos nossos sonhos e quimeras.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC