Numa garoenta madrugada paulistana, um ladrão arromba um carro e foge dirigindo. Segundos depois, eis que do banco traseiro surge o cantor Byafra, microfone em punho, entoando a música que o consagrou em 1984 e até hoje é obrigatória em seus shows: "Sonho de Ícaro" (da dupla Piska e Cláudio Rabello). Ele capricha no falsete. Quanto mais o tom sobe, mais o meliante se irrita, até que abandona o veículo no meio da rua. Nesse momento, o locutor anuncia: "Vai que seu carro não vem com um Byafra cantando."
Em menos de duas semanas de veiculação na TV, os resultados dessa propaganda sobre a cobertura contra roubo de veículos do Bradesco Seguros já são palpáveis: os jovens que nunca tinham ouvido falar de Byafra curtiram o sujeito que canta ?voar, voar, subir, subir?; a agenda de shows do artista lotou até outubro; e casas noturnas voltaram a tocar suas músicas. Em meio à ótima receptividade da campanha publicitária, houve chiadeira de alguns fãs, que foram ao site do cantor se queixar da "falta de respeito" com seu público.
Bem-humorado, o niteroiense Byafra, de 53 anos, não vê problema em viver esse autodeboche na telinha. "Achei tudo muito divertido. Encarei pelo lado chapliniano, do bom humor. Não imaginei que fosse dar tanta repercussão", garante o cantor e compositor. Para quem não gostou de ver o ídolo rebaixado à categoria de espanta-ladrão, ele pondera: "É preciso separar a ficção da realidade."
De acordo com o publicitário Pernil, de 37 anos, da Almap BBDO, agência responsável pela campanha "Vai Que", o nome de Byafra foi o primeiro que ocorreu a ele e aos outros três criadores do anúncio. "A graça está na situação surreal de um cara que funciona como um alarme de carro. Nosso escolhido tinha de ser famoso e ter um hit. Então, surgiu o nome do Byafra, que é carismático e tem esse lance de autodeboche", explica.
O fato de o cantor ter reagido às gargalhadas ao ser atingido por um parapente durante gravação, em 2009, para o documentário "Alô, Alô Terezinha!", homenagem a Chacrinha (1917-1988), reforçou a certeza de que ele era o cara certo. "Essa história do parapente desgovernado virou hit na Internet", relembra Pernil. No exato momento do choque, Byafra interpretava "Sonho de Ícaro", claro. "Eu estava cantando quando veio um Ícaro barbeiro e me atropelou (risos)", diverte-se o cantor.
Pernil acredita que chegou o momento de o politicamente correto ceder espaço à ousadia e, por que não, à autoironia. Ainda na campanha "Vai Que", ele cita a propaganda estrelada pelo ex-goleiro Taffarel, de 45 anos, para o seguro de casa da mesma empresa.
Na primeira cena, ele impede que a bola chutada por um garoto atinja o vidro da sala. No momento seguinte, o som do estilhaço é autoexplicativo. "O comercial foi superbem, mas o do Byafra é mais inusitado."
Outra campanha que conquistou o público mostra o sujeito disposto a "queimar o filme num churrasco": ele chega e logo se põe muito à vontade numa inacreditável sunga de crochê, blazer verde com ombreiras e óculos anos 1980.
Em segundos, a figura começa a rebolar e a pochete fica aos solavancos a cada movimento lascivo, ao som de "Adocica", grande sucesso do paraense Beto Barbosa, amigo famoso que o esquisitão leva à festa.
"Achei essa propaganda a cara do Brasil", diz o rei da lambada, feliz com esta autorreferência. "Em todo churrasco tem um cara gaiato, que se gaba de ter amigos importantes e ninguém acredita. No caso, quem se dá bem é o cara da sunga." Para Barbosa, de 56 anos e 26 de carreira, o anúncio da Skol deu uma boa alavancada na imagem. "Voltei a fazer mais shows no Sul e Sudeste", celebra.
Chocado
Sidney Magal, de 58 anos e 35 de carreira, já foi estrela de comerciais várias vezes. Numa campanha de produto para cabelos, em 2006, brincou com a própria imagem de conquistador latino e até apareceu careca. Mas no caso de Byafra, o cantor faz ressalvas. "O anúncio me chocou, achei depreciativo." Ele diz que jamais se perdoaria caso topasse fazer um comercial em que o público o visse de forma pejorativa.
Já o jogador Túlio Humberto Pereira Costa, o Túlio Maravilha, de 42 anos, atual vereador em Goiânia (PMDB), acredita na máxima "pagando bem, que mal tem?". Em propaganda da Volkswagen estrelada por ele, o locutor informa: "A Volks vai ajudar Túlio a realizar seu sonho de fazer mil gols."
Então, surge o próprio, avental de funcionário no lugar do uniforme da Seleção, dando uma polida final em mais um Gol. O colega pergunta quantos gols faltam. "42", ele responde. "Os fãs gostaram e aumentou a torcida pelo milésimo gol", diz Túlio. Na realidade, ainda faltam 34. "Teoricamente está fácil. Na prática, é mais difícil", admite Túlio, que no momento está sem time.