Rio de Janeiro - Moradores da região de Santa Teresa, no Centro do Rio, realizaram um protesto na tarde de ontem, no local em que um bonde descarrilou na tarde de ontem, provocando a morte de cinco pessoas e ferindo outras 57.
Após o descarrilamento, o bondinho continuou andando por cerca de 50 metros, mesmo tombado, até se chocar com um poste, na esquina da rua Joaquim Murtinho. O bonde ficou totalmente destruído. Entre os feridos estavam cinco turistas estrangeiros, sendo três franceses, um português e um inglês. Cerca de 300 pessoas se concentraram na Rua Joaquim Murtinho, local da tragédia, em frente ao caminhão que transportou o que restou do bonde para a oficina da empresa responsável, a Central Logística, no Largo dos Guimarães.
Com megafones e gritos por Justiça e de críticas ao governo, os manifestantes caminharam até a porta da oficina. Policiais militares acompanharam o ato.
"É uma omissão de muito tempo que deixou chegar a este estado lamentável. Temos denunciado a má conservação do bonde e lutado por sua recuperação e nada fazem o governo de Sérgio Cabral e o secretário (de Transportes) Júlio Lopes", diz Elzbieta Mitkiewicz, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa.
"É uma tragédia anunciada o que vem acontecendo aqui em Santa Teresa e mesmo sob protestos o governo não faz nada", reclama Anderson dos Santos, 33 anos, morador do bairro há dez anos.
Ontem, o coordenador da Comissão de Análise e Prevenção de Acidentes do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) do Rio, Luís Antônio Cosenza, afirmou que uma falha no sistema dos freios pode ter causado o acidente de anteontem.
A avaliação contradiz a informação da Secretaria de Estado de Transportes, de que a perícia feita indicava que o sistema de frenagem estava funcionando. Cosenza disse, no entanto, que é preciso uma análise mais detalhada para saber as causas exatas do acidente. Segundo a secretaria, o freio do bondinho estava funcionando. O carro tinha quatro dispositivos para ser parado, de acordo com a assessoria do órgão, e a perícia inicial do acidente mostra que as rodas e o sistema de direção estavam travados, indicando que eles estavam em ordem.
O coordenador do Crea-RJ disse que a possibilidade de problema nos freios é indicada pela falta de marcas nos trilhos que indiquem que o freio tivesse funcionado.
Cosenza acrescentou que a superlotação, outra hipótese para a causa do acidente, pode ter contribuído.
A Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro informou que dez vítimas do acidente com o bonde continuam internados em hospitais municipais. Oito estão no Hospital Souza Aguiar, no centro, e dois no Miguel Couto, na Gávea. Todas foram submetidos a cirurgias e estão estáveis. O caso mais grave é o de um menino de 3 anos, internado no CTI pediátrico do Souza Aguiar, que está em observação. No Hospital Geral do Andaraí, das cinco pessoas que deram entrada anteontem logo após o acidente, três foram transferidas para hospitais particulares e duas tiveram alta.
Cerca de 150 pessoas, muitas delas moradoras de Santa Teresa, compareceram ontem ao enterro do motorneiro Nelson Correia da Silva, 57 anos, condutor do bonde. O sepultamento foi no cemitério de Inhaúma, onde antes foi sepultado um casal que morreu no acidente.
O filho do motorneiro, Nelson Correia da Silva Jr., 31 anos, disse que seu pai foi "um herói" no momento do acidente. "Ele fez de tudo para salvar a vida das pessoas, mas a vida dele, ele não salvou", disse Correia. Um dos moradores de Santa Teresa que foi ao sepultamento, o guia turístico Raphael Santana, 25 anos, afirmou que o motorneiro era "muito zeloso" na condução do veículo. "O apelido dele era tartaruga, porque ele andava devagar", disse Santana. "Ele gritou para quem pudesse, pular. Ele só não pulou para salvar a vida destas pessoas", contou Bianca Mello Costa, 27 anos, comerciante e moradora de Santa Teresa. "Ele foi instrutor de condução e sempre ensinou aos alunos para não pularem em caso de acidente. As pessoas que estão vivas devem a ele. Ele é um herói."