Embora a causa ainda seja desconhecida, 10 pacientes do serviço de hemodiálise do Hospital de Base (HB) de Bauru passaram mal durante o tratamento realizado nesta segunda-feira. Eles apresentaram febre, calafrios e tontura, mas nenhum chegou a ser internado. O desprendimento de resíduos ou a liberação de toxinas por bactérias mortas, ambos durante o processo de desinfecção dos equipamentos que filtram a água usada no tratamento, são as possibilidades avaliadas como a causa do problema.
Segundo a responsável técnica da Unidade de Diálise do hospital, a médica nefrologista Silvia Lílian Andrade Neiva Bettoni, amostras da água foram colhidas e enviadas para análise. O resultado deve ser conhecido até sexta-feira
Como a água utilizada no processo de purificação do sangue é utilizada por todos os pacientes, a possibilidade de contaminação foi a primeira suspeita para o ocorrido. Mas, segundo a médica, uma desinfecção de rotina dos equipamentos havia sido feita no domingo, um dia antes do ocorrido. Mesmo assim, a empresa que faz a manutenção dos equipamentos que tratam a água usada no procedimento foi acionada. Ontem, a empresa realizaria uma nova desinfecção dos aparelhos.
Além da manutenção dos equipamentos, uma outra empresa, de Sorocaba, faz mensalmente a análise da qualidade da água, com a emissão de laudos. Um laudo, cujo material foi colhido no dia 18 de agosto, apresentado pela responsável indicava como positiva a qualidade da água.
Uma equipe do Instituto Adolfo Lutz colheu amostras de água ontem e a Vigilância Sanitária foi acionada. "Diariamente há um registro feito pela enfermagem da qualidade da água e estava tudo normal, sem alteração", garantiu a médica. Ontem não houve problemas e os pacientes fizeram o tratamento normalmente.
Bactérias
Inicialmente descartada a hipótese de contaminação da água, a médica apontou o desprendimento de algum resíduo ou a liberação de toxinas por bactérias mortas, ambos durante o processo de desinfecção feito no domingo, como possíveis causas do mal estar sentido pelos pacientes nesta segunda-feira.
"Na hora que você mata a bactéria ou mexe com ela no encanamento, pode acontecer isso. É uma toxina que tem dentro da bactéria, se ela morreu, libera isso. Essa toxina pode ser liberada na água e ser responsável pelos calafrios. Nós temos a empresa que faz a manutenção mensal programada, que esteve no domingo. E na segunda-feira nós tivemos isso, que a gente já acha que pode estar relacionada com a manutenção", disse Silvia Bettoni.
Tereza Faifer, também nefrologista da unidade, afirmou ontem que foi feita a cultura do sangue dos pacientes. O resultado deve ficar pronto em três semanas. Até lá, os 120 pacientes atendidos na unidade de hemodiálise do HB voltarão a se submeter ao tratamento, três vezes por semana, em três turnos diferentes. A unidade é dividida em três salas, que têm capacidade para atender 17, quatro e dois pacientes cada, por turno de atendimento. Os pacientes que se sentiram mal foram do turno da manhã e noite.
Tratamento
Depois de interrompido o tratamento na segunda-feira, os pacientes foram medicados com antibióticos. O procedimento é padrão em casos de tremores e calafrios. A coleta de sangue para monocultura também é padrão, mas o resultado deve ficar pronto em três semanas. Até lá, os pacientes continuam sendo observados durante o tratamento. Caso o exame de sangue aponte a necessidade, outro tratamento poderá ser aplicado depois desse prazo.
Quatro morreram em 2003
O caso mais grave envolvendo a unidade de hemodiálise do Hospital de Base ocorreu em 2003. Um inquérito policial investigou a morte de quatro pacientes que eram submetidos ao tratamento. A unidade foi fechada no dia 3 de outubro do mesmo ano, quando foi verificada a contaminação da água usada no procedimento.
O serviço foi normalizado 41 dias depois, e voltou a receber os 103 pacientes que passaram a ser atendidos em cidades da região durante a interdição da unidade do HB. Na época, o hospital questionou a relação entre as mortes e o serviço oferecido.
Depois disso, as médicas nefrologistas do HB confirmaram que no início de 2011 pacientes apresentaram os mesmos sintomas da última segunda-feira. Também nessa ocasião, não foi identificada contaminação da água, de acordo com elas. Os outros casos foram considerados como episódios pontuais, que não se repetiram.
Métodos de tratamento
Os pacientes que perdem a função renal têm três métodos de tratamento, que substituem as funções do rim: a diálise peritoneal, a hemodiálise e o transplante renal.
A diálise é um processo artificial que serve para retirar, por filtração, todas as substâncias indesejáveis acumuladas pela insuficiência renal crônica. Isto pode ser feito usando a membrana filtrante do rim artificial ou da membrana peritoneal. Existem, portanto, dois tipos de diálise: a peritoneal e a hemodiálise.