09 de julho de 2026
Articulistas

Carregando pedras

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

O século XXI seguramente será marcado como a era da inversão de valores. O homem moderno, sempre perdendo hora para os compromissos, sequer diz bom dia antes de sair para o enforcamento social. Não podemos dizer que tão importante saudação aconteceria no café da manhã, ou durante outras refeições, pois tais encontros familiares foram abolidos e ficaram fora de moda. Tudo restou sob a responsabilidade da terceirização: educar, instruir, acalentar, ninar e alimentar a infância. Se a instituição não o fizer fica o feito pelo não feito e ninguém tem nada a ver com isso.

Afinal, quem ficou responsável pela educação dos filhos? Qual é o papel dos pais que se dizem modernos? Adquirir coisas, valorizar marcas, comprar o que a modernidade e o consumismo proclamam e satisfazer o ego esfaimado para enfim, adormecer sobre os parcelamentos das dívidas. A alienação com a infância é tanta que se tornou comum o lanche viajor, aquele que embarca na lancheira e ali permanece por vários dias a ponto de deteriorar e ninguém perceber. Sem falar no grande número de crianças esquecidas nas escolas até ao anoitecer, quando não nos bancos dos carros até o derradeiro suspiro. Acorrentados pelo peso do individualismo exasperado, pais e mães entram na guerra da competição sedentos por carreira, sucesso e dinheiro, o que arrazoam de suma importância e assim ensandecidos se desprendem dos filhos, estilhaçam a família e correm em círculos a procura do pódio das ilusões efêmeras.

Escancarado está o escambo na educação de berço. A criança cresce aprendendo a superestimar modismos e objetos de consumo largamente oferecidos em contrapeso à ausência dos genitores que se endividam para adquirir leviandades e demonstrar status, valorado pelas grifes e etiquetas, nada mais que amontoados de quinquilharias prosaicas. Então, a infância desaprende a importância da família, do respeito e da solidariedade. Valorizar o consumismo significa desviar a rota da verdadeira educação, transformando a vida do homem num grande comércio, onde as mercadorias são os sentimentos. O lucro certamente será a violência desde a mais tenra idade. Vejamos nossa juventude: agressiva, alienada, sobrevivendo em conflitante e diuturno combate, ou em degradante estado depressivo. O importante é saber discernir com sabedoria quais são as verdadeiras prioridades.

O fato é que a infância navega à deriva na grande nau da vida, cujo leme há muito resta abandonado, pois, os adultos, absorvidos que estão em carregar pedras, ignoram os diamantes.

A autora, Valderez de Mello, é psicopedagoga, pedagoga e advogada - autora do livro "Quintal de Sonhos" - valdemello@gmail.com