08 de julho de 2026
Cultura

Preta Gil mostra a cara da diversidade

Marcele Tonelli especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Muitos a idolatram e outros desconhecem seus trabalhos. Apesar de possuir uma personalidade forte, ser cantora e filha de um dos grandes nomes da música popular brasileira (MPB), Preta Gil mostra ser uma artista pouco preocupada com rótulos, padrões e envolvida com as causas da diversidade.

Dentre as últimas polêmicas envolvendo o nome da cantora, esteve a declaração do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que, segundo ela, foi considerada uma agressão contra sua família, contra os negros e os homossexuais. As afirmações despertaram em Preta um sentimento de revolta e o fortalecimento da mobilização a favor da causa gay.

Escolhida por internautas por meio de uma votação no site da Associação Bauru pela Diversidade (ABD), a cantora esteve presente como a "Rainha da Diversidade", na 4.º Parada da Diversidade, realizada em Bauru, no último dia 28. A equipe do JC esteve nos bastidores do show e conversou Preta Gil.


Pergunta - Qual a sensação de se tornar a "Rainha da diversidade"?

Preta Gil - Fico feliz com essa identificação do público gay. Eu tenho uma personalidade extrovertida, livre e defendo a causa, sou militante. Eu sempre fui uma pessoa muito transparente e, quando eu comecei a cantar, o público GLS foi se aproximando. Eu sou uma pessoa contra a exclusão e o gueto. Nos meus shows, o público gay é sempre muito bem-vindo e respeitado.

Pergunta - Você já cantou diversos estilos musicais, mas qual é o estilo oficial da Preta Gil?

Preta - Eu sou uma cantora de música popular brasileira (MPB). Eu não sei nem cantar em inglês, pra te dizer a verdade!

Pergunta - Qual o sentido presente na diversidade de suas músicas?

Preta - Eu sou diversa, eu sou múltipla e pretendo mostrar isso através da música. Acredito no Brasil, gosto da música na sua diversidade, do sertanejo, do forró, do aché, do funk, do pop e do rock. Eu procuro mostrar que a cultura e a MPB também estão no mundo gay. Eu acho que a música não pode ser limitadora nesse sentido. No meu show, eu canto de tudo. Mostro a minha diversidade, não apenas em relação a minha vida e orientação sexual (sou bissexual), mas procuro desmistificar a idéia de que o público gay gosta apenas de música eletrônica. Me considero porta-voz da causa que defende qualquer público discriminado pela sociedade.

Pergunta - Você busca viver o Brasil assim como o seu pai viveu e vive ?

Preta - Eu acho que vivo até mais que ele. Meu pai tem uma limitação. Ele se encaixa dentro de um perfil de música. Eu não, canto o que eu quiser. Mas confesso que aprendi com ele a enxergar a vida e a musicalidade de uma maneira diversa.

Pergunta - Na sua opinião, como o preconceito é encarado pela sociedade?

Preta - Eu não sou melhor e nem pior do que ninguém, mas acredito que eventos como esse (a parada gay) e até as ações promovidas pelos próprios artistas possam reverter essa realidade de discriminação. Eu venho a eventos como esse para fazer a diferença. Nós vemos casos e mais casos de pessoas que morrem vítimas da homofobia e essa é a minha maior causa. É natural que as famílias ainda tenham preconceito com seus filhos, mas é por meio de diálogo e insistência na exposição do assunto que tudo irá evoluir. As pessoas não podem ter vergonha de se assumir.

Pergunta - A mídia tem tratado o assunto sobre a discriminação dos homossexuais de forma correta?

Preta - Eu acredito que a mídia tem sido uma grande aliada da causa LGBT. Eu vejo espaço aberto em várias emissoras. Acabamos de ver uma novela onde o Gilberto Braga abordou insistentemente o assunto da homofobia. E isso alerta a população, ajuda. Ele mostrou a naturalidade das coisas, como, por exemplo, o momento de choque no qual a mãe soube da homossexualidade do filho e, depois, mostrou o entendimento da situação.

Pergunta - Você é a favor do beijo gay nas novelas?

Preta - Eu acho que isso não precisa. Mostrar o beijo gay na televisão é demais. É uma polêmica que vem há anos e é absolutamente desnecessária. Precisamos entender que vivemos em uma sociedade e que temos crianças em casa assistindo novela, sobretudo idosos, que ainda não estão preparados para isso. Não é com a demonstração de um beijo gay em horário nacional que iremos conscientizar e fazer com que as pessoas aceitem a homossexualidade do próximo.