10 de julho de 2026
Cultura

Grafite chileno muda escola de Bauru

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 4 min

Resgatar o ambiente harmonioso e comunitário através da arte e do grafite. Essa será a missão dos alunos da Escola Estadual João Maringoni, que fica no Núcleo Beija-Flor, em Bauru. Com auxílio de artistas chilenos, que ministraram oficinas durante esta semana, os estudantes pretendem transformar a fachada da escola com desenhos e dar adeus às pichações e sujeira, que remetem a um ambiente de depredação.

O grafite entrou em cena na Escola João Maringoni e mexeu com a autoestima dos estudantes e funcionários através dos chilenos Francisco Maltez, grafiteiro e professor de artes, e Tânia Zavala, designer e fotógrafa. Os dois estão em Bauru há algumas semanas e foram convidados pela professora temporária de história Carla Shimokawa para desenvolver um projeto envolvendo oficinas de grafite com alunos de várias séries e idades. Os artistas também estiveram no Brasil para participar do Encontro de Arte Urbana Brasil-Chile, que ocorreu no mês de julho.

A vinda dos dois artistas deu início a um projeto interdisciplinar na escola, envolvendo professores de disciplinas como arte, história e língua portuguesa. Além da apresentação da técnica do grafite, os alunos assistiram a exposições teóricas sobre os movimentos artísticos relacionados ao grafite, arte urbana em que o artista aproveita os espaços públicos, criando uma linguagem intencional para interferir na cidade.

"A ideia é que possamos apresentar o grafite como arte que vai modificar o ambiente, melhorar um espaço, uma comunidade. A arte se apresenta como uma alternativa para sair da situação de pobreza e o grafite possibilita trabalhar na forma de mural coletivo, no qual os alunos atuam como protagonistas", enfatizou Maltez, que, além de realizar trabalhos como grafiteiro em espaços públicos, percorre escolas, bairros periféricos e ONGs disseminando a arte do grafite.

Os trabalhos de pintura no muro externo da escola estão previstos para ter início nos próximos dias. "Esperamos que o grafite e a arte ajudem a fazer com que os alunos se sintam parte da escola", salientou a diretora da instituição, Roseli Alves da Silva.

Para a professora Carla, de história, a ação de pintar o muro externo do estabelecimento vai proporcionar um ambiente mais harmonioso. "Eles passam a respeitar mais o lugar onde estão e dar mais valor quando se deparam com desenhos que eles mesmos fizeram. A ideia é que com o grafite a escola possa ganhar outra cara, se tornar uma ambiente mais harmonioso, pois os muros estão com aspecto feio, pichado", assinala. "O trabalho também se torna importante pois une alunos e professores e também envolve docentes de várias disciplinas", frisa.

____________________

Transformação do espaço


A transformação do ambiente escolar começou na sala de vídeo da Escola Estadual João Maringoni. No início da semana, os alunos do ensino fundamental, na faixa dos 9 e 10 anos, transformaram a sala de vídeo da instituição. Eles fizeram uma bela pintura com o auxílio dos grafiteiros, explorando elementos da natureza e áreas urbanas. "Em dois dias, cinco crianças da escola renovaram a sala de vídeo. Elas fizeram o trabalho com a ajuda dos artistas. O bacana é que a dupla de especialistas, além de mostrar a técnica, conta a história do grafite", salientou a professora de artes, Marta Resende Bachega. "O fato dos próprios alunos estarem pintando a escola valoriza essa ação e evita a pichação", acrescentou.

"Trabalhar com as crianças é gratificante, pois percebemos o envolvimento delas e a alegria ao praticar as atividades. Para nós, isso é muito importante", relatou Francisco Maltez.

Depois das crianças, foi a vez dos alunos do 8.º ano e ensino médio terem contato com os artistas. Cursando o primeiro ano do ensino médio, Douglas Divino Fernandes já conhecia um pouco da técnica do grafite, mas acredita ser bastante oportuno o contato com os grafiteiros chilenos. "É interessante conhecer o trabalho deles e aprender como o grafite pode valorizar o ambiente", comentou.

O mesmo pensam as estudantes Talita Henrique e Grabiele Marion, ambas do 8.º ano da Escola João Maringoni. "A pintura sobre o muro vai ajudar a melhorar a reputação da escola e mostrar que aqui tem estudante interessado em ajudar a comunidade", ressaltou Talita. "Gostei de conhecer a história do grafite e como essa arte pode ser utilizada como meio de expressão", contou Gabriele, que participou das oficinas.

Na visão da educadora Carla Shimokawa, o contato com a arte e com artistas do Chile torna a aprendizagem mais significativa. "A troca cultural é muito positiva e o contato com os artistas é uma possibilidade que os alunos têm de poder vivenciar a arte", indica a professora. "Através das oficinas, mostramos também que é possível se tornar um artista e explorar esse talento como uma profissão a ser seguida", diz.