08 de julho de 2026
Geral

Bauru defende mudanças no subsídio

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

Na audiência pública com a Comissão de Turismo e Desporto na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), realizada no último dia 24 de agosto, se discutiu a formação de pilotos. O coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas ITE-Centro Universitário de Bauru, Edson Mitsuya, propôs mudança na forma de subsidiar as horas de voo. Para Mitsuya, a formação de piloto na aviação continua elitizada. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) concede bolsas cobrindo 75% dos custos das aulas de voo, enquanto os alunos custeiam os 25% restantes.

Mas Mitsuya entende que o investimento é pouco e que o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) deveria contemplar também as horas de voo, como ocorre para outros cursos, com a residência médica, etapa prática do curso de medicina.

Ele explica que, atualmente, o Fies financia apenas a etapa de ensino teórico nos cursos de formação de pilotos. O coordenador do curso da ITE cita que também é preciso fazer uma avaliação de perfil socioeconômico do candidato à bolsa. "Tenho ido à Faculdade de Medicina de Botucatu e quem entra é quem fez uma boa base estudando em escola privada. Você chega lá e só tem carro de luxo. Depois que o cara se forma, não tem uma retribuição para a sociedade daquilo que nós investimos na formação dele", critica.

Mitsuya entende que a formação do piloto brasileiro ainda está muita elitizada e é preciso aprimorar a maneira de subsidiar quem não tem condição financeira incluindo a parte prática no Fies.

A Anac implementou o projeto de bolsas de estudo com investimento de cerca de R$ 5 milhões. De acordo com dados da Agência, a formação de piloto demanda o investimento de R$ 14 mil para piloto privado e de R$ 35 mil para piloto comercial. A Anac argumenta que as bolsas, em 2008 e 2009, formaram 143 pilotos no prazo de um ano e meio, através de convênios com 11 com aeroclubes do Rio Grande do Sul, absorvidos já pelo mercado de aviação brasileiro.

Em 2010, a Anac lançou dois novos projetos de bolsas, em nível nacional. O de pilotos prevê a formação, neste ano, de 213 profissionais, sendo 73 pilotos comerciais e 139 pilotos privados, em oito Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Ceará, Minas Gerais, Maranhão, Paraná, Tocantins e São Paulo. No projeto de 2010, além das aulas práticas, a acomodação dos alunos também foi custeada pela bolsa de estudos. O edital para o concurso público de 2011 ainda não foi lançado.

Edson Mitsuya representou na audiência pública na Câmara Federal os cursos de Ciências Aeronáuticas do Estado de São Paulo. O debate terá como foco a formação de pilotos civis, análise do mercado de trabalho atual e suas implicações quanto ao turismo e à política nacional de aviação.

É esperada a presença do Secretário Nacional da Aviação Civil, Wagner Bittencourt de Oliveira, o diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Marcelo Guaranys, além dos representantes da Universidade Estácio de Sá (RJ), do Aeroclube do Brasil (RJ), da Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (APPA), do Sindicato Nacional dos Pilotos da Aviação Civil e do Movimento Ética na Aviação.

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Empresas exigem mais da formação


O Brasil possui cerca de 15 cursos universitários de aeronáutica. O coordenador do curso de Ciências Aeronáuticas ITE-Centro Universitário de Bauru, Edson Mitsuya, ressalta que o mercado de trabalho para pilotos de companhias aéreas exige competências muito além da experiência de horas de voo. Mitsuya revela que interessa mais às companhias um piloto iniciante, com apenas 150 horas de voo, mas que conheça as novas tecnologias, como o simulador de voo ? flight simulator.

O coordenador do curso define que a exigência está na qualidade da preparação do profissional, porque é mais difícil ensinar um piloto com 3 mil horas de vôo a pilotar um Boeing, do que alguém menos experiente, porém treinado para operacionalizar cada aeronave. "As pessoas que chegam à universidade já nasceram informatizadas", destaca.

Dia 29, Mitsuya deve se reunir com a direção da Gol para fechar uma parceria em que alunos formados pelo curso da ITE ingressem na Gol. Em junho, ele esteve na Gol para avaliar a necessidade da empresa que opera com aeronaves Boeing 737. Os formandos pela ITE chegariam adaptados teoricamente para operar as aeronaves abreviando o tempo de treinamento fornecido pela companhia aérea em dois a três meses.

Mitsuya projeta que o curso de três anos forma um piloto ao custo mínimo de R$ 50 mil, contemplando 150 horas de voo e confere a carteira básica para piloto comercial. Essa formação permite o ingresso em uma companhia aérea na condição de copiloto e com ganhos salariais estimados na faixa de R$ 4 a R$ 6 mil mensais iniciais.

O coordenador de cursos teóricos do Aeroclube de Bauru, Adilson Ferreira da Silva, explica que houve um aumento de mais de 100% na procura pelos cursos teóricos, com turmas a cada quatro meses. Silva projeta que há muita mão de obra em formação para pilotos privados.

No seu curso teórico de piloto privado, de 20 alunos as turmas subiram para 40 atualmente. A preparação prática com instrução de voo subiu de 160 horas a cada mês para 300 horas/mês. Ele explica que a demanda para aulas práticas não está sendo atendida por falta de instrutores.

Atualmente, a instituição prepara uma turma de 40 alunos no curso de piloto privado inicial e 30 comissários nível 1, e mais 40 alunos no curso de mecânica de aeronaves. "Encerro um curso daqui a duas semanas e inicio outro no final do mês. Teve um crescimento muito grande", comenta.


Culpa do pré-sal


Do ponto de vista dos profissionais é controverso o clamor pela "falta de pilotos". Para a diretora do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), Graziella Baggio, há uma pressão específica no segmento de transporte offshore de uma grande empresa brasileira, que transporta por helicópteros para as plataformas da indústria de exploração e produção de gás e petróleo, em decorrência da demanda do Pré-Sal.

Baggio teme que a pressão seja para que se abra o mercado de trabalho para a contratação de mão de obra estrangeira para atender o filão offshore. Em decorrência, a perspectiva da representação profissional, é de que caiam os salários, o governo e as empresas não invistam em formação de mão de obra e se coloque em risco a segurança de voo.


Reunião para marcar reunião


A questão do mercado de aviação brasileiro tem muito de discurso e nada se faz efetivamente para solucionar os gargalos. De reunião em reunião, pouco acontece e se agenda uma nova reunião para "unir o esforço concentrado de todos os setores envolvidos", o que redunda em nada.

O coordenador de cursos teóricos do Aeroclube de Bauru e instrutor de voo Adilson Ferreira da Silva sugere que, quando chegar a Copa do Mundo no Brasil e as Olimpíadas, o controlador de voo nacional simplesmente passará a restringir o acesso da aviação civil executiva aos principais aeroportos, como Congonhas, Guarulhos e Viracópos (Campinas).

Assim conseguem desafogar para as companhias aéreas. "A gente vai sentir isso na Copa", explica. A direção do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) reuniu-se no mês passado com o ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil (SAC), Wagner Bittencourt, no Rio de Janeiro. Os sindicalistas entregaram um documento de 14 páginas sugerindo cinco temas, como contratação de pilotos estrangeiros e a retomada da publicação de dados no anuário da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre o movimento do segmento de táxi aéreo, um filão comercial específico da aviação civil.

De acordo com os sindicalistas, Bittencourt dispôs-se a receber novamente a direção do SNA para continuar a discussão.