Algumas décadas atrás, em "tempos de chumbo", conquistar um canal para se expressar, no ar ou no papel, era o sonho dourado de quem realmente tinha algo para dizer. Hoje, em tempos digitais, quando uma criança com menos de dez anos pode tranquilamente postar textos e imagens através um potente celular com acesso a mil e uma formas de conexão com o mundo digital, parecemos viver uma inversão de valores.
Quanto mais vias de comunicação temos, em alguns casos, parece que menos se diz. A facilidade para dizer, ou melhor, teclar, o que vem a mente na instantaneidade "da luz" propiciada pelo advento das mídias sociais na Internet, parece provocar efeito contrário, com muita gente falando mas pouco se dizendo.
E o que há de abobrinhas e tudo o que há de diminutivo, muitas vezes em proporção superlativa, que se possa imaginar não está escrito...ou melhor, está cravado na rede. "As pessoas muitas vezes escrevem na internet sem se dar conta de que a rede é um imenso banco de dados", adverte Ricardo Nicola, professor de Jornalismo Digital da Unesp/Bauru.
Segundo ele, a palavra escrita, que sempre teve um peso muito maior do que prosa e verso jogados ao vento, no caso da Internet, ganha algumas toneladas a mais de importância. O que é expresso na rede, considera Nicola, não pode simplesmente sumir com uma borracha em cima ou rasgado, cai numa grande teia universal com multiplicação praticamente inevitável. "Aí percebe-se que as redes não são tão sociais assim", conceitua.
A preocupação em não só escrever, mas adotar uma postura que não "queime" relações ou reputações na Internet, acrescenta o professor da Unesp, gerou o termo "Netiqueta", desenvolvido pelo filósofo Pierre Levy, estudioso das relações, e reações, entre a rede mundial e sociedade.
Tudo o que é postado, observa Nicola, não fica restrito apenas aos seguidores ou membros de um mesmo grupo. "O internauta tem uma vida social toda exposta. São segundos para digitar algo, mas é algo que se eterniza. Essa dicotomia da rede é algo que a diferencia da mídia clássica, onde há a figura do editor antes da veiculação", compara.
Clica em mim
Outro fator que tem colaborado para o desequilíbrio da relação qualidade x quantidade nas mídias sociais é a necessidade sentida por alguns usuários em se tornarem "subcelebridades" virtuais. Em busca de "ibope" a qualquer custo, membros seja do serviço de microblog Twitter ou do Facebook, não pensam duas vezes antes de tascar o dedo no botão enter para postar caracteres e mais caracteres de puro vazio.
"Acordei de ressaca", "esse hotel me deixou com taanto (sic) tédio", ou outras pérolas do gênero, seja por quem, por impulso, resolveu publicar um levante virtual contra o chefe ou tomar coragem para protestar algo referente ao trabalho somente após se desligar do emprego completam a lista do conteúdo a ser deletado nas redes sociais. "São os cinco minutos de fama que elas (mídias de relacionamento) proporcionam. É mais uma diferença em relação às mídias clássicas", diferencia Nicola.
Essa "fama" instantânea pode gerar até mesmo dependência. É o que indica um estudo divulgado recentemente pela universidade de Oxford, na Inglaterra. Conforme a pesquisa, mídias como Facebook ou Twitter ajudariam a desencadear uma geração de pessoas obcecadas por si mesmas, com um desejo quase que infantil por holofotes o tempo todo.
Com a concentração reduzida ? um dos efeitos da superexposição diz a pesquisa ? essas "subcelebridades" teriam necessidade de gratificação instantânea aliada à pobreza verbal. "É quase como se as pessoas estivesse num mundo que não é o real, mas sim num mundo onde o que conta é o que as outras pessoas pensam de você, se podem ?clicar em você?", observa Barnoness Greenfield, professora de farmacologia da universidade britânica.
Para antropólogo, vivemos a contradição da liberdade
Para o antropólogo Cláudio Bertolli, também professor da Unesp/Bauru, a facilidade e amplitude dessas ferramentas virtuais evidencia uma faceta contraditória de nosso mundo contemporâneo. "Nas redes o indivíduo pode ter opinião sobre tudo. As ideias, antes restritas ao grupo de amigos, ganham um alcance muito maior, mas a pessoa, na verdade, não sabe o tamanho da repercussão. Vivemos a contradição de nosso tempo, um momento em que não sabemos dosar a nossa participação", observa.
No entanto, essa falta de noção sobre o tamanho do alcance de um simples apertar de botão é algo relativo à própria popularização das mídias sociais, a partir do meio da década passada. "Muitos erros são cometidos de forma relativa à inexperiência para novas tecnologias", acentua.
Desta forma, utilizar as ferramentas de comunicação de forma madura, requer nada mais que tempo. E esse despertar pode ocorrer de forma individualizada. É o que observa a estudante de psicologia Flávia Trindade, que desenvolve estudo relacionado à velocidade com que as informações, impulsionadas pelas emoções, são postadas na rede.
Para ela, o ponto crucial é a reflexão antes de pressionar o "enter". "Muita gente vê o Facebook ou Twitter como um divã", compara. "Informações ou comentários são postados como se apenas amigos ou pessoas próximas observassem", acentua.
Além do vazio ocupando caracteres ou intimidade exposta, outro ponto negativo para quem dá razão apenas ao impulso em frente ao computador, acentua ela, o simples repassar de mensagens no mais grosso modo "copiar e colar" também pode causar repercussão negativa.
Contudo, em tempos digitais, o "filme queima", mesmo, acentua Flávia, quando a rede se torna válvula de escape para críticas inoportunas, seja com reclamações e críticas sobre pessoas próximas ou no campo corporativo, contra o antigo ou atual trabalho. "As redes não são um meio de desabafo", conceitua ela, que admite ter aprendido a usar as ferramentas tanto nas observações que fez quanto, até mesmo, com os próprios equívocos cometidos nos primeiros cliques.
Quem também diz se policiar para continuar usando a Internet de forma positiva é o músico Vitor Hernandez Bellote. Baixista da banda Valetes, que, semana passada, estava em estúdio para a gravação de CD, em São Paulo, ele considera as mídias sociais ferramentas valiosas para estar em contato com admiradores de seu trabalho.
Portanto, esses canais não podem ser desperdiçados, acredita: "mantemos contatos com agendas, fotos, vídeos. As mídias sociais aproximam nossos fãs da gente, isso é muito importante", destaca o músico, que já trabalhou no ramo de Internet e testemunhou algumas gafes.
"Vi problemas causados para empresas e pessoas por falarem o que não deviam. Procuro me policiar e orientar quem está comigo. Assim, sempre teremos retornos positivos desta mídia", diz, taxando como, "queima filme", posts com propagandas e até mesmo vírus, os chamados spans, ou comentários improdutivos. "Siga realmente quem lhe interessa", aconselha.