09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Cleide Portes

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 7 min

Toda a carreira dedicada à comunicação

São mais de 20 anos lutando, literalmente, pelo bem da Faculdade de Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Aos 51 anos, a jornalista Cleide Portes, diretora do Centro de Rádio e Televisão Cultural e Educativa da Unesp de Bauru, dedicou quase toda sua vida à comunicação.

Irmã de locutor e operador de áudio, desde a infância conviveu com o "mundo do rádio", e já determinou a profissão a seguir: a comunicação. "Se não fosse jornalista, no máximo tentaria a carreira esportiva", conta.

Passando a juventude em um período de transformação política no Brasil, mais do que uma carreira consolidada, Cleide Portes criou uma identidade respeitada.

Em entrevista ao JC ela conta das militâncias políticas e estudantis do que chama de "época de ouro", e que corresponde aos anos 80. O período pós-ditadura proporcionou revoluções estudantis e debate de temas que considera deixados de lado pela juventude de hoje: "É a geração que não tem pelo que lutar, e que ainda busca uma ideologia", aponta.

Mãe de Leonardo, 22 anos, e Lucas, 15, a entrevistada desta semana tenta passar com a própria história de vida, ideais pregados pelo próprio comunismo que destacam igualdade e preocupação com o bem comum.


?Jornal da Cidade: Você tem uma identidade toda ligada à Unesp de Bauru. Mas você é bauruense?

Cleide Portes: Na verdade nasci, e só nasci, em Assis, pois minha família era de Paraguaçu Paulista, onde passei minha infância. Vim para Bauru só quando fui cursar a faculdade.

?JC: E como foi sua escolha pela profissão de jornalista?

Cleide: Sou a quarta em uma família de oito irmãos. Os dois mais velhos trabalhavam na rádio local, em Paraguaçu. O Antônio Dirceu era locutor e o Acrísio era operador de áudio. Então cresci ouvindo rádio, e foi ai que nasceu minha paixão.

?JC: E como foi a vinda para Bauru?

Cleide: Com 18 anos fui para Londrina-PR para fazer cursinho e tentar prestar vestibular de jornalismo lá. Mas não passei, e só consegui ser aprovada na antiga Fundação Educacional de Bauru, em 1981, no curso de Comunicação Social, onde começou minha fase de militância.

?JC: Como assim?

Cleide: Nós lutamos pela vinda do curso de Jornalismo para Bauru. Fiquei dois anos lutando por isso e conseguimos graças a muita mobilização. Por isso, hoje, eu e tantos outros estudantes podem dizer que são formados em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Unesp de Bauru.

?JC: E como eram essas "lutas"?

Cleide: Costumo dizer que a juventude dos anos 80 foi diferente. Passávamos por um período de pós-ditadura e os anos seguintes foram não apenas de libertação, mas de luta por direitos. A maioria das lutas surgia dentro dos campus universitários, com questões internas. Nós conseguimos, por exemplo, trazer a sede do Dadica (Diretório Acadêmico Di Cavalcanti). Me lembro de acamparmos no bosque da Unesp para revindicar e realizarmos até um show com o Arrigo Barnabé para arrecadar dinheiro. Isso em tempos onde havia um motivo pelo que lutar.

?JC: E fora da universidade, chegou a participar de algum movimento?

Cleide: Estive presente no último comício em prol das "Diretas Já", na Praça da Sé em São Paulo com a locução de Osmar Santos. Esse momento foi marcante na minha vida e, claro, na História do Brasil. Na verdade eles se extinguiram. O último grande movimento foi o dos "Caras Pintadas" pedindo a saída do Collor.

?JC: E você chegou a se filiar em algum partido?

Cleide: Sim. A própria luta interna na universidade era pautada na batalha entre partidos. Fui militante do PC do B (Partido Comunista) infiltrada no PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Ainda fui filiada ao Partidão (partido comunista) e tive a primeira ficha do PPS em Bauru (Partido Popular Socialista).

?JC: E você ainda se considera comunista?

Cleide: Carrego muitos aspectos e ideais comunistas, assim como da própria criação religiosa que tive (catolicismo). Acho que a busca pela igualdade e pelo bem comum são princípios do comunismo que ainda carrego e quero levar adiante. Lá aprendi a ter disciplina e posição política. Porém, hoje vivemos em uma sociedade bem diferente e temos que saber conviver com isso. Mas ainda tento passar esses ideias e princípios para meus dois filhos.

?JC: Quem foi ou foram seus heróis à época?

Cleide: É um ponto interessante, pois não vejo a juventude de hoje encontrar heróis para se apoiar ou espelhar. Na nossa época de militante, Ernesto "Che" Guevara e a Revolução Cubana eram exemplos a serem seguidos. Pensávamos que se lá eles conseguiram alguma coisa, aqui também poderíamos. Mas hoje a coisa está bem diferente.

?JC: Você tem muita relação com a política ainda hoje?

Cleide: Não sou filiada a nenhum partido hoje. Mas vivemos num país onde todo mundo gosta de falar mal de políticos. Temos que ter consciência que os políticos sempre são os mais visados, mas em todas as profissões existem os bons e maus exemplos. Aí na hora de ter a arma na mão, que é o voto, as pessoas elegem um palhaço, por exemplo.

?JC: E pior do que tá, fica?

Cleide: Fica (risos). Pode ficar pior como pode ficar melhor.

?JC: Esses princípios e influências comunistas contribuíram até que ponto para você garantir suas conquistas?

Cleide: Hoje posso dizer que sou realizada profissionalmente e pessoalmente. Consegui garantir respeito, e isso é importante. Muitas pessoas que passaram comigo nas militâncias políticas e acadêmicas me ajudaram.

?JC: Depois de se formar, você chegou a trabalhar em empresas de comunicação?

Cleide: Pouco, mas trabalhei no jornal Folha da Região de Araçatuba. Mas vim para a Unesp há 22 anos. Comecei como assessora de comunicação de imprensa aqui pela Unesp, sendo a primeira assessora fora da capital.

?JC: E você nunca pensou em sair de Bauru?

Cleide: Logo em seguida me casei, tive o primeiro filho e resolvi me estabilizar. Criei um vínculo forte com a cidade.

?JC: Mas você sentiu falta de trabalhar fora do meio acadêmico?

Cleide: Já senti muito isso. Eu queria trabalhar em jornais diários, prosseguir carreira em grandes jornais da capital e tudo mais. Porém, consegui me estabilizar por aqui e me adaptei muito bem.

?JC: E quando você se deslocou para a Rádio Unesp?

Cleide: Em 2002, começando como editora. Na verdade só agora estou no meio do mandato da minha primeira disputa e vitória nas urnas (risos). Disputei há dois anos o cargo de diretora do Centro de Rádio e Televisão Cultural e Educativa da Unesp, e venci.

?JC: Com a vida profissional dedicada à universidade, como você enxerga a questão de formação do jornalista hoje?

Cleide: Vejo que o diploma é importante para dar qualidade ao profissional. Mas hoje não vemos mais estudantes lutando por um objetivo na universidade e que é reflexo da vida dos nossos jovens. Mas acho que nossas universidade, de modo geral, poderiam ser mais bem utilizadas aqui em Bauru.

?JC: Como assim?

Cleide: Temos aqui um centro de formação de profissionais. Há problemas que persistem há anos e não são resolvidos. Eu não tenho conhecimento do poder público ter buscado alternativas nas universidades. Existem verbas do Governo Federal e mão de obra para criar projetos sociais. O que falta é iniciativa pública.

?JC: Falta discussão?

Cleide: Exatamente. É dessa importância de discutir assuntos que falo que fazem falta os movimentos estudantis.

?JC: Você sente falta daquela época?

Cleide: Do período e do que nos proporcionava sim. Mas depois de tantas experiências, posso afirmar que hoje estou com 51 anos e vivo a melhor fase da minha vida, com os filhos criados e feliz profissionalmente.

?JC: E ainda há pelo que lutar?

Cleide: Sempre temos que buscar melhorar nosso meio pensando coletivamente. A luta continua, companheiro (risos).


Perfil


Nome: Cleide Moreira Portes

Idade: 51 anos

Local de nascimento: Assis/SP

Signo: Peixes

Filhos: Leonardo, 22 anos, e Lucas, 15

Hobby: Ler e dançar

Livro de cabeceira: "O beijo não vem da boca", de Ignácio de Loyola Brandão

Filme preferido: "Meia Noite em Paris" - (2011-EUA)

Estilo musical predileto: MPB

Time: Corinthians

Para quem dá nota 10: Para pessoas que combatem qualquer tipo de preconceito

Para quem dá nota 0: Aos que querem resolver tudo na base da violência

E-mail: portesmc@hotmail.com