08 de julho de 2026
Bairros

Retrô: Lembranças que reconfortam

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Rua Saint Martin, 17-48. Hoje, o endereço de um antiquário. Na década de 50, um dos pontos mais glamourosos de Bauru: a residência do doutor Luiz Carlos Almeida e sua esposa Semiramis.

De lá para cá, a estrutura do prédio pouco mudou. Apenas uma mão de tinta e uma ou outra reforma de urgência. A diferença é que, no passado, o casarão fez parte da construção da história do município. Atualmente, tem a função de abrigar dezenas de objetos que, um dia, também construíram a história de cidades, famílias e indivíduos de diversas partes do mundo, mas que, atualmente, fecham em si lembranças de um espaço e tempo que não existem mais.

Luiz Carlos de Almeida era um homem de poder. Sua esposa Semiramis, uma mulher culta, elegante e de bom gosto. Nas noites quentes de verão a casa do casal se transformava em um verdadeiro espaço cultural. Gente de toda parte da cidade aparecia para formar um grande sarau. Certa noite, até mesmo o então futuro presidente Juscelino Kubitschek dormiu nos aposentos do casarão.

Com o fim daquela época, foi-se o glamour. Depois de ter outros proprietários e inquilinos, o casarão passou alguns anos fechado. Somente em 2005 assumiu sua atual função de abrigo para um extenso antiquário e foi batizado de Casarão Antiguidades.

Atualmente, os cômodos internos do casarão abrigam, além da história vivida no passado, muitas outras histórias e lembranças que sobrevivem, silenciosas, apoiadas no luxo de poltronas do fim do século 18, no requinte de taças de cristal veneziano com detalhes entalhados em ouro, na sofisticação de luminárias de bronze, e em centenas de outros objetos raros e antigos.

É verdade que, para alguns, o conjunto não passa de um casarão cheio de velharias. Mas, para outros, é o paraíso das relíquias, um verdadeiro museu à venda.

E não é pouca gente que pensa assim. Na verdade, o número de pessoas que buscam lembranças de décadas passadas, muitas que nem ao menos viveram para ver, é maior a cada dia que passa. O motivo? A necessidade de resgatar a identidade, de viver a sensação de pertencimento. Nem que para isso seja necessário desembolsar R$ 16 mil em um lustre de cristais e bronze.

"O homem é um animal simbolizador. Ele se apropria de objetos e vê neles símbolos que o ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos. A relação com esses objetos remetem à origem do ser humano, ajudam a encontrar uma identidade, criam o sentimento de pertencimento", explica Silvio Motta Maximino, antropólogo e professor da Universidade Sagrado Coração (USC).

Por ter este poder de aproximação, objetos antigos se tornam charmosos e sedutores para os que o apreciam. São, inclusive, capazes de valorizar o velho a ponto de anular a força de um modelo consumista cada vez mais ativo.

"A sociedade contemporânea tende a anular a identidade dos indivíduos e empurrá-los ao consumismo. Objetos antigos, por sua vez, são acolhedores, carregam em si uma ancestralidade. Muitas vezes, até, não possuem valor econômico, somente cultural e sentimental", destaca Silvio.