Entre versos de Geraldo Vandré a Gabriel O Pensador, cerca de 250 jovens - alguns nem tão jovens assim - tomaram as ruas de Bauru na tarde de ontem para protestar contra a corrupção no País. O movimento organizado exclusivamente por redes sociais da Internet usou e abusou de palavras de ordem, frases de efeito, faixas, cartazes, buzinas e instrumentos de percussão para chamar a atenção da população, e conseguiu ganhar a simpatia e até adesão de pedestres e motoristas. Diversas manifestações como essa aconteceram simultaneamente no Brasil, no dia em que o País comemorou sua independência.
A maioria dos participantes do movimento não se conhecia pessoalmente até ontem, pois fazem parte de um perfil do facebook chamado de ?Anonymous?, que se espalhou pelo mundo defendendo a Wikileaks, organização transnacional, sem fins lucrativos, que divulga documentos confidenciais vazadas de governos e grandes empresas.
Em Bauru, a página do ?Anonymous? reúne aproximadamente 3 mil pessoas. Um dos organizadores, o estudante de direito, Marinno Arthur, 19 anos, explica que não é fácil transpor a mobilização dos internautas do mundo virtual para o real. universitário, porém, se mostrou satisfeito com a quantidade de manifestantes. "Pelo fato de ser feriado e do sol quente, podemos dizer que veio bastante gente". Na capital do Estado, por exemplo, 500 pessoas participaram da ?Marcha Contra a Corrupção?.
A manifestação foi iniciada no Parque Vitória Régia e subiu até a avenida Getúlio Vargas. A previsão é de que a quadra 7 fosse o ponto final do movimento. No entanto, os marchantes prolongaram o percurso até a academia ao ar livre localizada na via, onde entoaram o Hino Nacional.
Contra a impunidade
Com muito barulho, o percurso foi marcado pelos versos de "Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer", imortalizados por Geraldo Vandré, no auge da Ditadura Militar. "Hoje é feriado! Eu ?tô? na rua ?pra? protestar" e "Fora, fora, fora político ladrão! Contra a impunidade! Contra a corrupção" também foram gritos entoados pelos manifestantes.
Do início até o final do percurso, os estudantes mostraram muita animação e entregaram folhetos a pedestres. Alguns, inclusive, aderiram ao protesto. Além disso, veículos também participaram do movimento. Um deles, dirigido por Nei Ribeiro, levava uma vassoura e trazia cartazes com referências ao jingle da campanha da campanha presidencial de Jânio Quadros, em 1960. "Varre, varre vassourinha, varre a corrupção".
O grupo também ganhou a simpatia de motoristas que cruzavam com a passeata, buzinando e saudando a causa defendida pelo movimento.
Webcidadania
Os jovens que participaram da ?Marcha Contra a Corrupção? destacaram a importância da internet e dos movimentos sociais para a realização do evento. "Agora que as pessoas estão tomando ciência do poder que essas ferramentas podem ter. Não tivemos qualquer tipo de apoio externo e estamos aqui", ressaltou a estudante Letícia de Souza Ribeiro.
Os jovens também utilizaram a máscara que caracteriza o personagem do filme ?V de Vingança?, um carismático defensor da liberdade. "É o símbolo do grupo anônimo para que a gente não crie bandeiras, ídolos ou qualquer vinculação partidária. A escolha foi justamente para mostrar que qualquer um pode fazer a sua parte", explicou.
Para estudante, indignação motivou a marcha
Escolhido para fazer o discurso que deu início à marcha, o bauruense que estuda História na Universidade de São Paulo (USP), Rodrigo Nagen, 19 anos, acredita que a mobilização foi provocada pela indignação da sociedade perante às mazelas da política nacional. "Talvez a gente não tenha as soluções para os problemas, mas sabemos que as coisas não podem permanecer do jeito que estão", afirmou.
O jovem, que se diz marxista, explica, inclusive, a participação maciça de jovens da classe média alta na marcha. "Só quem está na situação de dominância é capaz de identificar situações como essa".
Estudante do ensino médio, Laura Caliman, 17 anos, conta que a mobilização já estava sendo organizada desde o mês de maio, mas a recente absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN) do processo que pedia a cassação do seu mandato por denúncias de corrupção foi um estopim para a causa. "No dia da Independência, queremos que o Brasil se torne independente dos corruptos", enfatizou.
O movimento em Bauru não abordou qualquer assunto envolvendo questões locais. No entanto, a mobilização foi encerrada com o comprometimento de que a atuação do grupo não deve terminar. Para o próximo dia 17, inclusive, está marcada a Conferência Municipal da Juventude, que deve ser realizada na sede bauruense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Encontro de gerações
Apesar de estarem em maioria, não foram apenas os estudantes que participaram da ?Marcha Contra a Corrupção?. A presença de aposentados também se destacou. Manoel Luís Diegoli, 60 anos, chamou atenção pelo figurino que representava, justamente os políticos corruptos.
Com o terno coberto por notas antigas de dinheiro, principalmente com cruzeiros e cruzados, Manoel conta que fez questão de se engajar ao movimento quando tomou conhecimento a partir do Jornal da Cidade. "Enquanto todo mundo fica quieto, os corruptos aproveitam. É a primeira vez, em muito tempo, que vejo algo assim partir da juventude. Isso é fundamental e a gente tem mais é que dar apoio", disse entusiasmado.