10 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Saudade de um amigo pescador


| Tempo de leitura: 3 min

Quem mora lá pelos lados de Piratininga, a pacata cidade vizinha de Bauru, e é pescador, se não o conheceu deve ter, pelo menos, ouvido falar dele. Quando o conheci, há uns 20 e tantos anos, ele já era um professor aposentado, que trabalhou por anos ensinando crianças a ler e escrever.

Era bem disposto e de um vigor impressionante, principalmente quando se tratava de pescaria. Ah! aí não havia quem o superasse no manejo de uma vara de pescar. Era imbatível com sua varinha telescópica quando, à vista dos que o acompanhavam durante a pescaria, pegava um peixe atrás do outro.

Dava "nervoso" na gente ver que na nossa isca peixe nenhum mexia enquanto ele ia enchendo o "bornal" com os peixes. Falador, não deixava ninguém sossegado com as suas tiradas humorísticas. Muitas vezes, era gozação pura, sem, no entanto, ofender os companheiros.

Com seu vozeirão característico, ia emendando uma piada atrás de outra e salve-se quem puder. Se fosse depois de um dia inteiro com a varinha na mão, uma cervejinha para molhar o gogó e... dá-lhe piada, dá-lhe gozação.

Acredito que até os peixes deixavam um pouco sua tarefa de procurar comida e vinham escutar um pouco as suas palavras ou então ouvir os velhos versos preferidos que ele recitava. Desde que não houvesse criança por perto, é claro, pois alguns dos versos eram impublicáveis.

Numa daquelas pescarias que fizemos juntos, lá pras bandas de Piraputanga, às margens do rio Aquidauana, aconteceu o auge das brincadeiras que eu já o vira fazer. Depois de quase 12 horas de viagem, numa velha veraneio adaptada a diesel, chegamos ao local da pescaria, ele, seus dois sobrinhos, eu, Dalton e Osny.

Era um rancho à beira do rio que seus dois sobrinhos "descolaram" de um dentista que morava em Campo Grande. Autorização do dono por escrito às mãos, apresentaram-na ao caseiro que cuidava do rancho, "seo" Abdo.

"Seo Abdo, aqui está a autorização que o doutor deu para ficarmos no rancho." Seo Abdo, uma pessoa simples, olhou para o papel e emendou: "Não sei ler!" No dia seguinte, após passarmos o dia inteiro pescando, chegou a hora de nos recolhermos ao rancho, tomarmos uma cervejinha, comermos uma comidinha feita pelo Osny e, então, veio a pérola das pérolas.

Seo Abdo estava por perto observando-nos quando, de repente, com aquele vozeirão, ele agachou-se e, com o rosto rente ao chão, gritava: "Olany, Olany, eu te amo", dizia ele à sua amada que estava em Piratininga. E repetia várias vezes a frase sob o olhar espantado do seo Abdo.

Em seguida virou-se para ele e disse: "Seo Abdo, como aqui não tem telefone, eu grito bem rente ao chão e minha voz, transportada pelas ondas do ar, chega até Piratininga. O senhor já conhecia esse jeito de telefonar?" Meio assustado com aquilo e ao mesmo tempo com um sorriso de descrédito no canto da boca, seo Abdo ficou mudo e foi saindo de lado enquanto ouvia mais uma vez: "Olany, Olany, eu te amo".

Não faz muito tempo que Nelson Braga nos deixou, mas sei que lá em cima ele deve estar contando suas piadinhas fazendo rir muitos pescadores que por lá estão. Não duvido que São Pedro, um grande pescador, esteja pedindo-lhe umas dicas de como se faz para pescar.

Enquanto isso, nós ficamos por aqui ouvindo seu vozeirão: "Olany, Olany, eu te amo". Ele deve estar agachado, rente ao chão, e São Pedro, um humilde pescador, deve estar à maneira de seo Abdo, com um sorrisinho no canto da boca.