O chocolate pode fazer bem para o coração, mas os cardiologistas não estão liberando geral. Novas pesquisas apresentadas no fim do mês passado no maior congresso médico europeu sugerem que o consumo de chocolate pode estar associado a uma redução de um terço no risco de desenvolvimento de doenças cardíacas.
A razão dessa correlação é desconhecida, segundo o relato feito na reunião da Sociedade Europeia de Cardiologia. Vários estudos científicos nos últimos anos mostraram um possível benefício no consumo do chocolate. O chocolate amargo, em especial, contém compostos chamados flavonoides, supostamente bons para o sistema circulatório.
Numa tentativa de tornar o quadro mais claro, Oscar Franco e seus colegas da Universidade de Cambridge reuniram os resultados de sete estudos, que envolviam 114 mil pessoas, a maioria delas acompanhadas de 8 a 16 anos. Cinco desses estudos mostraram uma correlação benéfica entre o consumo de chocolate e a saúde cardiovascular; dois estudos não comprovaram isso.
No geral, as conclusões foram de que os níveis mais elevados do consumo de chocolate estavam associados a uma redução de 37% nas doenças cardiovasculares, de 31% no risco de diabetes e de 29% na incidência de derrames, em comparação aos níveis mais baixos de consumo.
Franco disse que há limitações na somatória das análises, já que os estudos não faziam diferenças entre o chocolate amargo e o chocolate ao leite, e que seriam necessários mais testes para saber se o chocolate propriamente dito provocou os benefícios, ou se foram outros fatores coincidentes.
"As evidências, de fato, sugerem que o chocolate pode ter alguns benefícios para a saúde cardíaca, mas precisamos descobrir quais seriam", disse Victoria Taylor, da Fundação Cardíaca Britânica, que não participou da pesquisa. "Se você quer reduzir seu risco de doença cardíaca, há lugares muito melhores para começar do que no fundo da caixa de chocolates."
Franco, cujas conclusões também foram publicadas no site da revista British Medical Journal, disse que, embora o chocolate aparentemente seja bom para o coração, outros fatores ligados à sua produção podem contrabalançar os benefícios.
"O alto teor de açúcar e gordura no chocolate disponível comercialmente deveria ser considerado, e iniciativas para reduzi-lo poderiam permitir uma melhor exposição ao efeito benéfico do chocolate", escreveu a equipe da pesquisa.
Sedentarismo limita os benefícios
Essa não deixa de ser uma boa notícia para os chocólatras: quem come mais chocolate tem menos risco de desenvolver doenças cardiovasculares, derrame e até diabetes, segundo afirma o novo estudo da Universidade de Cambridge, publicada no periódico "British Medical Journal". No entanto, tem também a má notícia. Segundo especialistas, o benefício só vale se o chocolate for consumido em pequenas quantidades (20 gramas, ou dois quadradinhos de uma barra), o equivalente a 140 calorias.
Segundo os pesquisadores, os benefícios se devem aos antioxidantes, que evitam a hipertensão e a resistência à insulina, condição que pode levar ao diabetes.
Outros trabalhos já apontavam na mesma direção e relatavam os benefícios do chocolate, principalmente da versão amarga, com mais cacau e antioxidantes. Mas o estudo inglês não fez distinção entre os tipos de chocolate e ainda considerou uma gama maior de produtos, como barras, bebidas à base de chocolate, bolachas e sobremesas.
Esse é ainda o primeiro estudo a agrupar as pesquisas já feitas sobre a associação entre consumo de chocolate e doenças cardiometabólicas. "Mas é preciso tomar cuidado com a qualidade. Alguns chocolates têm mais cacau, e outros, mais gordura", afirma o médico nutrólogo Celso Cukier, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Clinica.
Os benefícios não valem se o chocolate for consumido esporadicamente e em grandes quantidades.
Cautela
O nutrólogo Daniel Magnoni, do Hospital do Coração, afirma que o efeito protetor do chocolate é real e funciona a longo prazo. "Mas não dá para indicá-lo para fins terapêuticos porque ele pode levar ao ganho de peso, até porque poucos se limitam aos 20 gramas recomendados", diz.
Os próprios pesquisadores afirmam que as conclusões da pesquisa devem ser interpretadas com cautela, justamente pela grande quantidade de calorias dos chocolates mais vendidos.
O chocolate branco, por exemplo, é a pior escolha possível, segundo Magnoni, porque ele tem mais leite e gordura e pouco cacau.
Ainda que os pesquisadores tenham ajustado dados como idade, peso, sexo e nível de atividade física dos participantes, é difícil atribuir os benefícios só ao consumo do doce.
"O chocolate é só mais uma ferramenta. Não adianta comer um bombom por dia e continuar sedentário."