Que o mundo nunca mais foi o mesmo depois do dia 11 de setembro de 2001 - quando quase três mil pessoas morreram na queda das torres gêmeas do World Trade Center, no Pentágono, e nos aviões utilizados para os atentados em Nova York, nos EUA - o planeta inteiro sabe.
Dez anos depois, a tragédia segue cravada na memória não apenas dos norte-americanos que sentiram e sentem até hoje na pele os efeitos do terror, mas também de brasileiros e, é claro, bauruenses que acompanharam os choques dos dois aviões no centro nervoso do capitalismo ocidental naquela manhã de quarta-feira.
A poucos quilômetros do epicentro do atentado terrorista, enquanto as imponentes torres gêmeas viravam pó, Reynaldo Grillo é um dos bauruenses que, uma década após Osama Bin Laden e o Al Qaeda protagonizarem uma guerra sem soldados debaixo do nariz dos norte-americanos, lembra daquela fatídica manhã como se fosse hoje.
Morador de Nova Jersey, separada da ?big apple? Nova York apenas pelo rio Hudson, a nuvem de fumaça que saía das torres, vista por ele da margem oposta, jamais virará poeira na memória. Morador naquele país desde 1986, ele conta que, no dia, cumpria normalmente sua rotina de trabalho a serviço de uma companhia instaladoras de portas e janelas, num subúrbio com visão "privilegiada" para o terror.
"Eu instalava janelas num dos quartos de uma casa quando entrou desesperado o meu chefe, dizendo que o país estava em guerra. Ele chorava. Fiquei sem saber o que fazer, mas percebi que falava sério", recorda o bauruense. "Entrei em parafuso. Meu chefe falou sobre o ataque às torres e que outros aviões tinham caído na Pennsylvania e em Washington", completa.
Após concluir parte do serviço, ele conta que a firma dispensou os funcionários, tamanho o estarrecimento e medo que tomaram conta de todo o país. "Ninguém tinha mais clima para trabalhar. Por um certo período vivemos numa tensão sem tamanho, o ambiente era desolador. Com o tempo nos acostumamos e Nova York voltou à normalidade. Mas quem teve os familiares atingidos diretamente continuam a sofrer."
Reynaldo, que já visitou tanto o topo das antes imponentes torres gêmeas quanto o que restou delas, testemunha que os Estados Unidos permanecem num estado de alerta à beira da "paranóia" após 11 de setembro de 2001, principalmente sobre a população de origem islâmica. "A apreensão é total, há muita desconfiança em relação às pessoas dos países de onde eram os terroristas", completa.
O legado da tragédia
Os 343 bombeiros que morreram no resgate às vítimas em Manhattan, mais do que o exemplo na dedicação ao trabalho de salvar vidas, também deixaram um legado de aprendizado para colegas, inclusive de outros países.
Em Bauru, o major Rogério Gago, o cabo Ernesto Villares e o tenente Divino Oscar Marques, além de Evandro Cavarsan, da Defesa Civil em Cabrália Paulista, participam, há dois anos, de cursos e palestras com os bombeiros que trabalharam nos escombros deixados pelo terror nos Estados Unidos.
A preparação, homologada pela Universidade do Texas - mantenedora da maior escola de bombeiros do mundo - em 2010, abordou as buscas e resgates em estruturas sob colapso e abrangeu visita ao memorial do World Trade Center, em Nova York.
Na ocasião, os bombeiros da cidade estiveram com Tom McDonald, um dos comandantes dos trabalhos de resgates nos escombros. Tanto os erros quanto acertos foram abordados no curso, lembra Rogério Gago. "Ele (McDonald) foi muito sincero ao falar das dificuldades, entre elas a de comunicação no interior das torres", observa.
O acerto, enfatiza Villares, foi justamente numa tecla exaustivamente batida pelo Corpo de Bombeiros, a prevenção. "As medidas preventivas adotadas após o primeiro atentado nas torres, em 1993, ajudaram muito. Pouco ou quase nada se fala dos sobreviventes", comenta o cabo, citando cuidados redobrados ao abandono das edificações, que tiveram sistema de iluminação de emergência trocados, depois das explosões ainda nos anos 1990.
De acordo com os bombeiros bauruenses, outro erro admitido pela equipe de resgate norte-americana foi na montagem do posto central em meio ao caos estabelecido com o choque das aeronaves.
Segundo ouvido por eles, o centro de comando, mal localizado, atrapalhou o deslocamento das equipes. Com as torres prestes a serem implodidas devido ao calor do combustível dos aviões na estrutura metálica, no entanto, o trabalho das equipes nova-iorquinas deve ser vangloriado pelas vidas que foram salvas. Contudo, até para visitantes, o sentimento de perda permanece em Nova York. "Vimos nas pessoas que os Estados Unidos não são mais os mesmos", testemunha o major Rogério.
O terror da cobertura
Quem estava, literalmente, atrás dos holofotes que evidenciaram o 11 de setembro para o mundo todo também foi vítima. Bill Biggart, repórter fotográfrico nova-iorquino de 54 anos, fez o último clique da vida na cobertura em meio ao que restou do World Trade Center.
Ao saber, por meio de um taxista, que a torre norte havia sido atingida por um avião, ele correu para o local, onde foi atingido por destroços do prédio de 110 andares. Pouco antes, ele havia registrado cerca de 300 imagens.