09 de julho de 2026
Geral

Tumulto marca votação de enfermeiros

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

Profissionais de enfermagem precisaram de muita persistência e paciência para depositar seu voto em uma das urnas do processo eleitoral que elegerá a nova diretoria do Conselho Regional de Enfermagem (Coren). A eleição agendada para ontem, das 8h às 18h na Escola Técnica Estadual (Etec) de Bauru, foi marcada pela desorganização, tumulto, discussões e revolta da categoria, que se sentia obrigada a votar por conta de uma multa.

A confusão já era percebida nas proximidades da avenida Duque de Caxias com a rua Virgílio Malta, onde o trânsito estava congestionado e a calçada tomada por longas filas. Cálculo da Polícia Militar apontava para cerca de 5 mil pessoas no local. Segundo o Coren, o total de votantes chegaria a 15 mil.

Sob o calor da manhã deste domingo, sem água e sem poder deixar o local por força de uma prometida multa para quem não votasse, os profissionais reclamavam muito da falta de organização.

Dentro do prédio a situação não era diferente. Longas filas, consultas em listas e apenas três urnas de votação para um total, segundo a PM, de 15 mil. Para completar o cenário revoltante, apenas uma pessoa representava o Coren e alegava não poder dar informações, uma vez que não estava autorizada. Por pouco, a representante não foi agredida, tal a revolta dos profissionais.


Gritaria


Em determinado momento, a porta da Etec foi fechada e um empurra-empurra seguido de gritaria tomou conta do local. A Polícia Militar foi acionada, mas não entrou, permaneceu do lado de fora mantendo a ordem, trabalho nada fácil naquele momento. Gestantes, mulheres e crianças foram arrastadas no tumulto, que por pouco não terminou em quebra-quebra.

Muitos profissionais haviam saído do plantão de 12 horas de trabalho e ido direto para o local de votação, sem dormir. Tudo para evitar a tal multa de uma anuidade, de cerca de R$ 200,00 para enfermeiras e R$ 180,00 para técnicos e auxiliares de enfermagem.

"A técnica de enfermagem Ana Cláudia estava revoltada com a situação. "Estamos sendo obrigados a votar, não acho isso correto. Saí do plantão de 12 horas e vim para cá, às 7h e pouco. Só votei por volta das 10 horas. Está tudo desorganizado. Eu estava em uma fila gigante e só depois de muito tempo fiquei sabendo que estava na fila errada, porque não tinha ninguém do Coren para orientar."

Segundo ela, no interior da Etec havia um princípio de motim, porque ninguém orientava onde cada um deveria votar. "A fila não andava porque havia três enormes listas a serem consultadas. Tinha gente passando mal por conta do calor e da falta de água. Se alguém se arriscava a sair da fila perdia o lugar. A demora era grande."

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PM manteve ordem no local


Policiais militares foram acionados para resolver o tumulto gerado pela eleição e permaneceram no local mantendo a ordem, preventivamente. Pouco antes do meio-dia, o sargento Antonio Carlos Granha Júnior esteve na Etec e, após conversar com a representante do Coren, informou que seria lavrado um boletim de ocorrência para salvaguardar os direitos dos profissionais.

"Ela conversou com os responsáveis pelo Coren/SP e informou que a obrigatoriedade de voto teria sido retirada. Vamos constar isso em BO para que os profissionais que não conseguiram votar tenham seus direitos respeitados. Há, inclusive, muita gente da região. Eles prometeram não cobrar a multa."

A PM orientou os profissionais a entrar no site do Coren para saber como será feita a justificativa. "A cópia do BO poderá ser feita pela instituição à qual o profissional está ligado. O hospital solicita, por exemplo, e distribui para aqueles que deveriam votar. Eu calculo que cerca de cinco mil pessoas estavam aqui, mas pelas contas da representante do Coren, eram 15 mil votantes que deveriam depositar o voto até as 18h, quando as urnas seriam lacradas."

Na opinião do sargento havia organização, porém, o número de votantes era muito além da capacidade de atendimento. "Antes de votar, o profissional tinha que ser localizado em uma das listas, o que atrasava ainda mais a votação."

O diretor da Etec, Sérgio Antunes, informou ontem que apenas cedeu o espaço para a eleição.

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Vai ou não vai ?


Informações desencontras não faltaram. Por volta das 11h circulou um boato de que o Coren iria anular a eleição porque o tumulto estava acontecendo em todo o Estado de São Paulo. Logo em seguida, outra informação dava conta de que o local seria fechado para almoço, o que revoltava ainda mais quem estava na fila.

A auxiliar de enfermagem Neide Aparecida de Souza considerou humilhante a situação à qual foi submetida. "Estou sendo obrigada a votar, caso contrário terei que pagar multa. Se eles querem assim, deveriam organizar a eleição. Estou até passando mal e não consigo votar. Nas eleições anteriores a gente votava pelo correio e não tinha essa dor de cabeça. Agora tem três chapas concorrendo, nós do Interior não conhecemos nenhuma."

A enfermeira Gina Gali viajou de Macatuba (46 quilômetros de Bauru) para depositar o seu voto, mas ficou decepcionada com a organização. "Eu fui agredida na fila interna. Precisou um enfermeiro me tirar de lá de dentro. Teve empurra-empurra, gente pisando na gente, um verdadeiro horror. É uma falta de vergonha. O pessoal do Coren não aparece nem para dar satisfação. É um absurdo."

A técnica de enfermagem Cristina Aguiar não se conformava com o que estava vivenciando para votar. "Não estou aqui porque eu quero, mas estou sendo obrigada. Não conheço nem as chapas que estão concorrendo. Eu não quero é pagar a multa, cerca de R$ 180,00. Vou votar nulo", prometeu.

Ela disse que chegou por volta das 8h de Pederneiras (26 quilômetros de Bauru), onde mora e trabalha. "Pensei que iria conseguir votar, voltar a tempo de almoçar e entrar em serviço às 12 horas. São 11h15 e eu ainda estou na fila. Vou ter que trabalhar sem almoço. Isso é um circo."

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Diretoria atribui confusão a chapa concorrente


Ontem à noite, a assessoria de imprensa do Conselho Regional de Enfermagem (Coren/SP) enviou nota atribuindo o tumulto ocorrido na votação de ontem, em Bauru, a uma das chapas concorrentes às eleições.

"Começamos o processo de votação com atraso em razão da agitação que foi promovida nas seções eleitorais por representantes das chapas de oposição à gestão atual, causando reações de pavor nos profissionais convocados para atuar no processo eleitoral", cita a nota.

Este atraso, segundo Edmilson Viveiros, presidente em exercício do Coren/SP, despertou o sentimento de descontentamento entre os eleitores, que chegaram cedo às seções eleitorais.

Outra questão também exposta pelos profissionais foi o fato de as eleições não terem sido realizadas pelos Correios, a exemplo de anos anteriores. "Muitos profissionais ignoraram nosso esclarecimento de que o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), sediado em Brasília, vetou a realização da votação por correspondência".

Segundo ele, o Cofen alegou que o depósito de voto em urna pelo próprio profissional tornaria inquestionável a lisura do processo eleitoral. Em processos eleitorais anteriores, apenas uma chapa se habilitava para o pleito.

Segundo Viveiros, tumultos provocados por ativistas atingiram, em todo o Estado, 12 seções eleitorais - incluindo Bauru. "Nas demais 43 seções, apesar do grande fluxo de profissionais eleitores, as eleições transcorreram de forma pacífica", encerra a nota.


Justificativa x multa


Sobre a multa, o Conselho informou à reportagem, ontem à tarde, que só será aplicada ao profissional que não apresentar justificativa para a abstenção.

"O profissional pode justificar o voto no prazo de 120 dias a contar da próxima segunda-feira (hoje), quando as inscrições para o processo de justificativa vão estar disponíveis no site. A justificativa vai ser avaliada, não é automática. Todos os profissionais foram informados por carta desse processo e de como funcionam as eleições do Coren. Não é novidade para o profissional de enfermagem."

Para a votação foram distribuídos 55 locais em todo o Estado de São Paulo, informou a assessoria. "Bauru, Marília e Assis, dentre outros. Havia opção do profissional alterar o local de votação para ficar mais próximo de sua residência."