09 de julho de 2026
Regional

Assentados iniciam corte de madeira

Lilian Grasiela com Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Iaras – Cansados de esperar por uma solução do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e enfrentando sérias necessidades, ontem, cerca de 45 famílias do assentamento Zumbi dos Palmares, em Iaras (90 quilômetros de Bauru), iniciaram o corte de parte dos pinus existentes nos lotes. Eles cobram a retirada das árvores para que possam produzir no local. Além disso, as famílias querem que a renda obtida com a venda da madeira seja revertida para o assentamento.

O ato, iniciado ontem, deve continuar hoje. Segundo um dos assentados, Sérgio Ribeiro Novaes, 54 anos, cada um dos lotes tem cerca de seis alqueires de plantação de pinus. “O Incra assentou o povo onde existem pinus. Eles não tiram e não deixam o povo tirar. A madeira está apodrecendo e o povo não pode fazer nada para ganhar sua comida”, reclama.

Ontem, eles retiraram de cada um dos lotes um caminhão carregado com madeira. “Nós estamos cortando e empilhando”, conta. “A gente quer que o Incra tome uma posição. O que ele vai fazer com a madeira? Cortar e dar para o povo? Cortar e vender para arrancar os tocos e deixar o povo trabalhar na terra?”.

Novaes diz que o problema é antigo é que as famílias cansaram de esperar por uma solução do Incra. “Não tem como plantar, não tem sobrevivência. Tem gente aqui passando fome”, revela. “Muitos que pegaram lote aqui trabalham como empregados colhendo laranja para a Cutrale para poder defender o pão”.

De acordo com o assentado, em alguns lotes, há aproximadamente dois anos, o Incra fez a retirada das árvores, mas deixou os tocos no local. “O povo está em cima dos tocos, não pode trabalhar. Se for trabalhar fora, eles não aceitam. E nós vamos passar fome?”, questiona. “Eles falaram que iam tirar o toco para a gente trabalhar e até hoje não tiraram”.

Em nota, a assessoria de comunicação da Superintendência Regional do Incra em São Paulo informou que “estranha” os fatos ocorridos ontem. Segundo o órgão, no próximo dia 23, representantes do Incra vão se reunir com os assentados. “Estamos cientes do problema da madeira no assentamento Zumbi dos Palmares e tomando providências para que ele seja resolvido com a maior brevidade possível”, declara.

 


Problema antigo


Em matéria recente, o jornal O Estado de São Paulo denunciou que milhares de metros cúbicos de madeira, avaliados em R$ 10 milhões, estavam apodrecendo ou sendo consumidos pelo fogo no assentamento Zumbi dos Palmares, em Iaras.

A floresta, adquirida do Instituto Florestal, órgão da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, custou R$ 13 milhões aos cofres da União e deveria estar sendo revertida em recursos para os assentados.

Por meio de um convênio assinado em 2008, o Incra contratou a Cooperativa de Comercialização e Prestação de Serviços dos Assentados da Reforma Agrária de Iaras e Região (Cocafi), mantida pelo pelo Movimento dos Sem Terra (MST), para extrair e vender a madeira.

À medida em que as toras eram retiradas, os sem-terra cadastrados pelo Incra eram assentados sobre os restos da floresta. Parte do dinheiro obtido com a venda da madeira sumiu. A infraestrutura nos lotes não foi feita e eles procuraram o Ministério Público Federal (MPF). A Justiça Federal embargou o corte das árvores restantes, mas autorizou o leilão das toras derrubadas.

O Incra proibiu os assentados de usar a madeira cortada, mas até agora não realizou a venda.

O assentado que retirar madeira do local pode perder o lote. Enquanto isso, as famílias sofrem com a falta de água, energia elétrica e recursos para tornar os lotes produtivos. Algumas delas sobrevivem da coleta de casca de pinus, vendida como adubo a R$ 2,00 a saca.