11 de julho de 2026
Articulistas

Cerrado: uma questão de responsabilidade social mútua

Marta Vieira Caputo
| Tempo de leitura: 3 min

No momento em que a discussão sobre o relaxamento da Lei do Cerrado para a acomodação de novas indústrias em nosso município repercute pelos meios de comunicação locais, vemos os debates dividirem os interesses de ambientalistas de um lado, de alguns políticos e empresários, de outro. Creio ser esta uma oca-sião adequada para atualizar os conceitos de Responsabilidade Social Empresarial, Sustentabilidade, Economia e Ecologia. A economia tem sido definida como a atividade que trata das leis que regem a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços, conformando um corpo teórico que auxilia na administração dos sistemas econômicos. Verifica-se, todavia, que a natureza é um elemento que não foi considerado pela atividade econômica ou, antes, foi considerada apenas como fonte inesgotável de recursos. A ideia predominante, em âmbito econômico, e que continua regendo os destinos de todas as atividades produtivas do Planeta se assenta na premissa de que a salvação social só pode se dar por meio do crescimento a qualquer custo. Portanto, acredita-se que a economia domina as leis da natureza e que o crescimento é o único meio de trazer bem-estar à humanidade. Um raciocínio falacioso e, a este ponto da história da humanidade, as evidências em contrário já deveriam bastar para deter essa tendência suicida.

Das causas antropogênicas para o aquecimento global aos problemas com o acondicionamento do lixo causados pela exorbitância da produção e do consumo ou ainda a poluição da água, do ar e do solo, as alternativas para os problemas decorrentes do modus operandi que se debruça apenas na lógica da produção e do consumo como alternativa única para nossas questões sociais, me parece, são absolutamente incongruentes para com os conhecimentos que uma ciência, a Ecologia, acumulou até hoje. Assim, pergunto: será que a economia tem se dedicado a absorver os conhecimentos que a ecologia tem acumulado e as evidências que essa ciência demonstra?  Será que conhecemos a Terra ao ponto de apontarmos suas fragilidades, por meio do conhecimento e então, evitarmos os danos que podem nos afligir, em decorrência de nossa própria falta de cautela e ignorância?

Em âmbito empresarial, muito se tem falado em "crescimento sustentável" e tal conceito tem fundamentado inúmeras campanhas pró sustentabilidade e responsabilidade social, com material publicitário muito bem cuidado e que invocam o respeito à natureza de uma forma quase que messiânica, mas que não explica nada além do óbvio: "A natureza é importante para nós". Assim sendo, por que é que não conseguimos preservá-la? Talvez porque enquanto a economia precisa desesperadamente crescer, a ecologia, para observar e entender seus organismos, precisa se sincronizar com o tempo de um organismo (a própria Terra) que é muito mais complexo e que não considera, nessa sua imensa complexidade, o imediatismo com que se produz e se joga fora, sob o pretexto de "crescer".

Se sustentabilidade é elemento fundamental do discurso conformado pelas políticas de responsabilidade social empresarial, a questão local da preservação de nossa porção de Cerrado demanda, agora, uma postura que priorize o conhecimento profundo do mesmo, inclusive para promover sua regeneração. As colaborações dos estudiosos que se debruçam sobre as múltiplas demandas que implicam na preservação da porção remanescente de Cerrado em nossa região merecem ampla difusão e análise. Educação ambiental séria, comprometida, intensiva e extensiva são fundamentais. Mas, não trato aqui apenas da educação ambiental  nas séries regulares do ensino fundamental e médio. Da mesma forma que as empresas exigem educação continuada e aperfeiçoamento profissional de seus colaboradores, a sociedade cobra que empresários, representantes políticos e toda a sociedade atualizem e questionem constantemente seus conhecimentos sobre as demandas ambientais, sociais e econômicas que são inseparáveis das ações do desenvolvimento.

É chegada a era, portanto, da Responsabilidade Social Mútua e a audiência pública do último dia 6 de setembro, na Câmara Municipal de Bauru, foi um claro exemplo de que nossa comunidade tem disposição para se engajar no cuidado de seus interesses, buscando os conhecimentos necessários para que as melhores escolhas sejam feitas. E esse deve ser um exercício contínuo, de todos os segmentos sociais.


A autora, Marta Vieira Caputo, é coordenadora acadêmica do Fórum Empresarial de Responsabilidade Social e Sustentabilidade de Bauru