O desprendimento e a generosidade de alunos de uma escola de Bauru serve de exemplo de como a solidariedade ainda é forte e pode mudar a vida em sociedade. Neste caso, ajudou a transformar um sentimento de profunda tristeza em pura alegria e agradecimento. Entre o fim da semana passada e início desta semana, o porteiro da escola, Nildo Pinho Nogueira, 49 anos, viveu as maiores emoções de sua vida. No último dia 9, perdeu o irmão Adenir Pinho Nogueira, 37 anos, morto em um incêndio que destruiu sua casa, na Vila Seabra, e deixou sua mãe Ernesta de Souza Nogueira, 82 anos, ferida.
Nesta segunda-feira, ele foi amparado pelo carinho e generosidade dos alunos da escola Alfa Beta, onde trabalha, no Jardim Estoril. Até ontem, Nildo já tinha um imóvel alugado e todo mobiliado para morar com sua mãe, além de uma quantia em dinheiro também doada pelos alunos para recomeçar a vida. Entre outras fontes, parte do dinheiro doado veio da festa de formatura dos alunos do nono ano do ensino fundamental.
Ainda sensibilizado por tantas demonstrações de carinho, Nildo lembrou como foi a recepção dos alunos na segunda-feira, após a tragédia. Todos correram e abraçaram o amigo. "Eu fiquei emocionado, eles falavam que iam me ajudar e que já estavam me ajudando. As crianças falavam que estavam vendendo doces para me ajudar. Aquilo me emocionou muito", contou.
Nildo estava trabalhando na escola quando soube do que havia acontecido com sua família (leia mais abaixo). A iniciativa de ajudar o porteiro, que trabalha na escola há três anos, começou ainda no sábado, um dia depois da tragédia. Assim que souberam do ocorrido, os alunos se mobilizaram através de sites de relacionamento e decidiram que iriam que ajudá-lo.
A escola atende alunos do primeiro ao nono ano do ensino fundamental e segundo a diretora, Doni Pagan, a iniciativa foi dos próprios alunos, sensibilizados com a gravidade da situação. Os alunos do nono ano haviam feito uma festa para arrecadar recursos para a formatura e doaram o dinheiro conseguido. A entrega foi realizada ontem. Do oitavo ano, os alunos reuniram CDs que não ouvem mais e estão vendendo também para ajudar o amigo. Parte do dinheiro arrecadado já foi entregue.
Mas não foram apenas os adolescentes que se mobilizaram. Do quinto ano, crianças de 8 e 9 anos passaram a vender doces e artesanato, como enfeites para cabelo, durante o recreio e entre amigos para aumentar o valor que será entregue para Nildo e sua família.
"As menores, quando ficaram sabendo, passaram uma caixinha pela classe e arrecadaram R$ 70,00 só em moedas, que seria para comprar lanche, doce ou balas, e entregaram para ele", contou Luiz Henrique Cavalhieri, coordenador pedagógico da escola.
Envolvimento
A iniciativa dos alunos, além de envolver os funcionários da escola, também sensibilizou familiares, que se envolveram na campanha. A escola se propôs a custear um imóvel para a família de Nildo durante alguns meses e através de doações a casa foi totalmente mobiliada, com móveis e eletroeletrônicos, que vão muito além do que a família possuía anteriormente.
Até ontem, uma caminhonete disponibilizada pela escola Jardim das Letras, unidade da escola que atende alunos da educação infantil, havia recolhido e ainda deveria buscar quatro televisores, máquina de lavar, dois sofás, dois guarda-roupas, forno de micro-ondas, geladeira, dois armários, quatro camas, aparelho de som e mesa, entre outras coisas.
Na nova casa do bairro Bela Vista, Nildo, a mãe e um outro irmão terão ainda, além do conforto que não possuíam na casa destruída pelo fogo, muita roupa de cama, mesa e banho, além de peças de vestuário que também foram arrecadadas.
A primeira faxina do imóvel ficou por conta das funcionárias que fazem a limpeza na escola, que se dispuseram a ajudar o amigo de trabalho com seu serviço.
Idosa tentou salvar o filho
Um incêndio ocorrido na última sexta-feira destruiu o imóvel localizado na rua José Bonifácio, 15-68, Vila Seabra, onde estavam Adenir Pinho Nogueira, 37 anos, que morreu carbonizado, e sua mãe Ernesta de Souza Nogueira, 82 anos, que teve ferimentos leves. Segundo moradores vizinhos, foram apenas dois minutos para que o fogo consumisse inteiramente o imóvel de madeira. Nildo Pinho Nogueira, que está recebendo a ajuda dos alunos da escola onde trabalha, estava em horário de serviço no momento da tragédia.
Ainda não se sabe como as chamas começaram. De acordo com Roberval Cervantes Doro, 45 anos, vizinho da residência, quando ele percebeu, o fogo já tinha consumido grande parte dos fundos da casa.
"Quando eu vi que as labaredas estavam saindo pela janela, peguei a mangueira de casa e comecei a jogar água. Mas o fogo estava muito intenso. Como a senhora (Ernesta) estava tentando salvar o filho, eu a retirei de lá e chamei o Corpo de Bombeiros, que veio rapidamente e começou a apagar o fogo", contou a testemunha, que iniciou os primeiros socorros à vítima. O corpo de Adenir foi localizado próximo à cozinha.
Os vizinhos contaram que escutaram o barulho de explosão quando o fogo começou. O tenente do Corpo de Bombeiros Edson Winckler Filho, comandante da operação, disse que foram retirados três botijões de gás do local.
Além do delegado plantonista Ronaldo Divino, a Polícia Científica esteve no local no dia do incêndio e realizou a perícia no que sobrou da casa de madeira. O laudo que apontará as causas do fogo deve ficar pronto dentro de 30 dias a contar da data do ocorrido.
Acalento
Nildo Pinho Nogueira contou ontem, à reportagem do JC, que sua mãe continua internada no Hospital Estadual e recebeu nesta terça-feira a notícia de que o filho Adenir havia morrido no incêndio. Ernesta de Souza Nogueira, 82 anos, teve queimaduras leves, mas ainda não tem previsão de alta, segundo Nildo.
"Ela chorou, mas se conformou. Eu falei que ela deveria pensar daqui para frente e em se recuperar logo", disse o porteiro, que concordou em doar o que não for usar em sua nova casa e, assim, ampliar a corrente de solidariedade iniciada pelos alunos da escola onde trabalha.
Segundo a diretora, Doni Pagan, a escola Alfa Beta mantém o Projeto Solidariedade, que tem objetivo de desenvolver nos alunos o sentimento de ajuda ao próximo.
"O projeto ajuda entidades que atendem pessoas carentes da cidade. Então, quando uma creche ou outra instituição precisa de algo, levamos os alunos até o local, eles avaliam a necessidade e decidem como vão ajudar. Essa é uma iniciativa permanente da escola. Isso desenvolveu o sentimento de ajuda e agora que eles sentiram isso de alguém tão próximo, estão totalmente voltados a ajudar", contou a diretora.