09 de julho de 2026
Geral

Tráfico de pessoas atende encomendas,diz titular da Sebes

Tânia Morbi
| Tempo de leitura: 3 min

A mudança do perfil das vítimas e o novo apelo usado pelos aliciadores foram os dois principais pontos debatidos na Conferência Livre Sobre o Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, realizada ontem, na subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A oferta de melhor emprego é o principal atrativo para o assédio das vítimas, que hoje podem ser jovens ou adultos, homens e mulheres indistintamente, mas com maior formação cultural e profissional. A "encomenda" por tipos específicos de vítimas também é uma realidade entre os aliciadores.

A conferência definiu dez propostas, em três eixos, para combater o tráfico de pessoas. As indicações serão encaminhadas para o Núcleo São Paulo do Comitê Interinstitucional de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e depois para a Conferência Nacional, que definirá o II Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Participaram representantes de Borebi, Agudos, Arealva e Lins.

A secretária municipal do Bem-Estar Social e presidente do Comitê Interinstitucional de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas Darlene Martins Tendolo não concorda que o tráfico de pessoas esteja restrito a grupos específicos de vítimas, como mulheres e homossexuais. "A questão do homossexualismo não está diretamente ligada, porque os traficantes transformam tudo. O tráfico de pessoas tem inclusive modificado pessoas. Por exemplo, duas crianças que foram raptadas, que tinham dislexia, foram modificadas através de hormônios e cirurgias plásticas, foram exploradas, mortas e depois tiveram os órgãos retirados. Então, para o sexo, basta um ser humano que na concepção global seja bonito, exótico ou diferente", avalia.

O exemplo citado pela presidente do Comitê expõe outro aspecto terrível da prática desse tipo de crime, a "encomenda" de vítimas que "satisfaçam" pedidos específicos. Existem inclusive, de acordo com Darlene, preferências por países de origem e na destinação dessas vítimas, que podem permanecer presas à exploração sexual, serem "encaminhas" ao mercado das drogas ou ao tráfico de órgãos. "Hoje é como carro, é encomendado. Eles dizem: quero esse estilo de pessoa e pronto. Tem endereço certo, de acordo com o tipo de pessoas que aquele país consome, seja pelo consumo de drogas ou sexo", garante.

Embora as mulheres continuem sendo as principais vítimas do tráfico de seres humanos, a secretária discorda que exista um público alvo restrito à ação dos traficantes e generaliza o risco que jovens profissionais correm, independentemente de sexo ou idade.

"Todo mundo é suscetível quando se trata de um salário compensador, de uma perspectiva de emprego diferenciada. Isso é atrativo. Essas pessoas falam muito bem, estão muito bem vestidas e em locais importantes", descreve.

Ao contrário do que historicamente possa parecer, a secretária diz que não é mais a precarização ou falta do trabalho as únicas condições que expõem as vítimas aos traficantes de seres humanos, mas o desejo de crescimento profissional e maiores salários.

"Não acho que o apelo pelo emprego seja reflexo da precarização do mercado de trabalho. Pelo contrário, o maior e mais rápido preparo profissional dos jovens é que tem atraído os aliciadores desse tipo de crime. O jovem tem aprendizado rápido. Então, hoje ele vai cedo para o trabalho. Enquanto há pouco tempo começava primeiro a faculdade, hoje inicia o primeiro emprego ou na condição de aprendiz, que o coloca no mercado de trabalho, o que faz com que ele queira ser independente e ter o seu próprio dinheiro. Isso acaba motivando a expectativa profissional e os salários oferecidos por esses aliciadores são muito acima do mercado e muito atrativos", conclui Darlene.