10 de julho de 2026
Internacional

Abbas rejeita pressão contra voto na ONU

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Jerusalém - O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, disse ontem que está sob "tremenda pressão" internacional, mas não desistirá do pedido de reconhecimento do país na Assembleia Geral da ONU.

Nas últimas semanas, o Quarteto para o Oriente Médio (EUA, ONU, União Europeia e a Rússia) tenta convencer os palestinos a retomarem as negociações de paz diretas com governo israelense -interrompidas no ano passado depois que Israel retomou a construção nos assentamentos.

Fontes palestinas citadas pela imprensa israelense dizem que o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, chegou a fazer concessões, incluindo mais flexibilidade na troca de terras para a formação da Palestina.

Mas os palestinos rejeitaram a proposta diante da pré-condição de reconhecimento de Israel como um Estado judeu e por não incluir garantias de que as terras trocadas sejam idênticas em tamanho e qualidade -essencial em um país majoritariamente desértico.

Ao chegar a Nova York para a Assembleia Geral, Abbas admitiu ontem ter ficado sob "tremenda pressão" internacional, mas disse que rejeitou as propostas de negociação diante de termos inaceitáveis.

Questionado sobre ameaças das autoridades americanas, Abbas disse ter ouvido, sem maiores detalhes, que "as coisas serão muito difíceis depois de setembro".

Há meses, membros do Congresso americano ameaçam cortar parte dos US$ 500 milhões em assistência econômica e de segurança se os palestinos insistirem com o voto na ONU.

Abbas confirmou ontem ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que na próxima sexta-feira apresentará o pedido de adesão de seu país à organização.

Ele comunicou a Ban "sua intenção de entregar a ele na sexta-feira sua solicitação para (que a Palestina se torne) membro de pleno direito das Nações Unidas", informou o porta-voz da ONU, Martin Nesirky, que ressaltou o desejo do secretário-geral de que "sejam retomadas as negociações" entre palestinos e israelenses.

Após a recepção da solicitação de admissão da Palestina como integrante número 194 das Nações Unidas, Ban terá que enviá-la ao Conselho de Segurança que, por sua vez, estudará o pedido e se pronunciará a respeito.

Para que o pedido de Abbas possa tramitar, é necessário que tenha o apoio propício de nove dos 15 integrantes do Conselho, e nenhum veto dos cinco permanentes (EUA, França, Reino Unido, China e Rússia), o que não deverá ocorrer, já que Washington diz que vetará a proposta.

O secretário-geral da ONU reiterou ao presidente da ANP seu apoio à solução do conflito que israelenses e palestinos enfrentam há mais de meio século mediante a criação de dois Estados que possam coexistir em paz.

O plano inicial dos palestinos era o reconhecimento como Estado-membro pleno da ONU, o que só é possível com a aprovação do Conselho de Segurança. Os EUA, aliado histórico de Israel e um dos cinco países com poder de veto, já declarou que não deixará a proposta passar.

A segunda opção, mais provável, é que Abbas peça o reconhecimento como um Estado observador não membro - como o Vaticano. Para isso, os palestinos precisam da aprovação de metade da Assembleia Geral, na qual afirmam ter cerca de 120 dos 193 votos.

Este reconhecimento permite aos palestinos fazer parte de agências e assinar estatutos da ONU. Na prática, eles poderiam levar Israel para o Tribunal Penal Internacional por suas ações nos territórios palestinos.


Negociações


Israel condena o voto palestino como abandono das negociações, que defende ser o único caminho para a criação de um Estado. "Os palestinos podem argumentar que é necessário tentar de outra forma após 20 anos de fracasso, mas nós também estamos frustrados. Queremos que eles aceitem que somos um Estado judeu e voltem às negociações", defende Paul Hirschson, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores de Israel, em entrevista a jornalistas brasileiros em Jerusalém.

Xavier Abu Eid, negociador da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), afirma que a questão é ganhar mais força na mesa de diálogo.

O reconhecimento na ONU permite ainda, segundo Abu Eid, que os palestinos troquem a mediação dos EUA por uma conferência internacional e multilateral.

Independentemente do resultado na ONU, Israel teme que o esforço seja visto como incentivo para uma onda de manifestações populares palestinas - o que poderia acabar em um novo momento de violência.