O plantio da soja no Brasil começará mais tarde que o normal neste ano, praticamente repetindo situação vivida em 2010, em meio à previsão de ocorrência do fenômeno La Niña, que atrasa a chegada das chuvas, avaliou Agroconsult ontem.
"A sinalização de La Niña deve provocar atraso sim e pode afetar, principalmente, algumas regiões onde se planejava cultivar a soja precoce", afirmou o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, durante evento realizado em São Paulo nesta quinta-feira.
No ano passado, o cultivo da oleaginosa em Mato Grosso, tradicionalmente o primeiro Estado a cultivar a soja, começou em meados outubro, com um mês de atraso, pela falta de chuvas decorrente do fenômeno climático.
Neste ano, a meteorologia aponta a chegada de chuvas mais volumosas já a partir do início de outubro, o que deve permitir a intensificação dos trabalhos. Atualmente, são poucos os produtores que se arriscam a plantar ainda com precipitações irregulares e de baixa intensidade.
Contudo, o analista observou que esse atraso não deve trazer problemas à safra do Estado, que conta com grande capacidade operacional para realizar a semeadura dentro do período ideal.
A consultoria mantém sua estimativa de aumento de 800 mil hectares na área plantada do Brasil, para 25 milhões de hectares.
A previsão, entretanto, é de uma safra de 74 milhões de toneladas de soja em 2011/12, ante as 75,3 milhões de toneladas em 2010/11.
"A sinalização é de produção menor, mesmo com o aumento de área e os investimentos em insumos. O que vai determinar a safra é o clima", disse Pessôa, reforçando que não espera uma repetição das condições climáticas excepcionalmente favoráveis de 10/11, quando o clima começou preocupando os produtores, mas os temores não se confirmaram.
Cenários
Os produtores trabalham com um cenário favorável de rentabilidade para a temporada 2011/12, após produtores registrarem bons resultados no ciclo anterior, segundo a Agroconsult.
Segundo Pessôa, muitos produtores aproveitaram a alta recente, entre o final de agosto e início de setembro, quando a soja passou de 14-14,50 dólares por bushel, na bolsa de Chicago, para fazer a venda antecipada.
"Foram quase 10 dias de alta, foi um momento de venda. Depois a preocupação com a macroeconomia impactou as commodities e a soja caiu na esteira das commodities... mesmo assim a soja passou muito bem", assinalou.
Nos últimos cinco anos, a soja não ficou abaixo dos 10 dólares por bushel nesta época do ano, observou o executivo. Nesta quinta-feira, mesmo com queda acentuada, o primeiro vencimento operava acima de 12 dólares por bushel.
Na avaliação do executivo, do ponto de vista dos fundamentos a soja, com uma oferta menor dos Estados Unidos e a situação dos estoques, a soja deveria ficar acima de 13 dólares.
"Tudo vai depender do grau de estrago que o cenário macroeconômico vier a provocar na demanda", disse Pessôa.
Câmbio e custos
Sobre a valorização recente do dólar, o executivo ponderou que a situação foi favorável para muitos produtores que conseguiram comprar os insumos antes do movimento de alta. "Até o final de julho, mas de 80 por cento dos fertilizantes (necessários para a safra de verão) já estavam comprados no Centro-Oeste", observou.
Após uma safra 10/11 com a maior produtividade já registrada no país (51,5 sacas de soja por hectare) e preços firmes, os produtores mais capitalizados aproveitaram para antecipar os insumos.
O movimento de antecipação foi feito a despeito da alta de 8 por cento no preço médio do pacote de insumos, com base nos valores registrados em Mato Grosso e Paraná, os dois maiores produtores do país.
"A relação de troca segue muito favorável aos produtores nesta temporada", acrescentou.
Levantamento da Agroconsult aponta que nos últimos dois anos eram necessárias 30 sacas de 60 kg de soja para comprar um pacote médio de insumos. Neste ano, está variando entre 23 a 25 sacas de soja.
"É um bom sinal para a rentabilidade do produtor no ano que vem", ressaltou Pessôa.
Ele acrescentou que o cenário só não é melhor para a soja nesta temporada, porque a cultura vem enfrentando firme disputa com o milho, que tem apresentando "rentabilidade excepcional".
Segundo ele, nos Estados em que o produtor não tem opção de safrinha, a disputa é grande. Isto tende a acontecer no Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo e Goiás.
"Não fosse o bom momento do milho, a (área de) soja subiria mais", afirmou.