08 de julho de 2026
Geral

Histórias de amor à vida e de doação

Tânia Morbi
| Tempo de leitura: 5 min

Glauco Rodrigues e suas duas irmãs sofreram no período de um ano a perda de seus pais. Em junho, pela morte da mãe Lusia Leal Rodrigues e, quatro meses depois, pelo falecimento do pai Luiz Carlos Rodrigues. Apesar de toda dor provocada pela partida dos entes queridos, a família não pensou duas vezes na hora de doar os órgãos dos pais. A decisão, tomada no ano passado, até hoje acalenta a dor com um sentimento de felicidade, segundo Glauco.

Sua história é uma entre as muitas que fazem parte do Programa de Captação de Órgãos e Tecidos, do Hospital Estadual de Bauru. Um encontro, na manhã de ontem, marcou o Dia Nacional do Doador de Órgãos, comemorado na próxima terça-feira, 27, e homenageou cerca de 120 familiares de doadores e receptores.

Os pais de Glauco foram doadores de córneas. Ele conta que o assunto de doação nunca foi muito constante na família, mas ele e as irmãs tinham consciência da importância do gesto para dar continuidade à vida de outras pessoas. "A decisão não é fácil, mas no momento o que tomou nosso coração foi a possibilidade de fazer o bem, e eles nos ensinaram a fazer o bem sem olhar para quem. Então, decidimos doar os órgãos do meu pai e da minha mãe para acabar com a expectativa de outras pessoas", explicou.

Apesar da perda, Glauco garante que o sentimento por ter doado os órgãos dos pais é de alegria. "Por saber que outra pessoa ia enxergar melhor e ter uma outra condição de vida. Esse sentimento ajuda a diminuir a dor. Tenho certeza de que meus pais também ficariam felizes e, se acontecesse com um de nós, também doariam os órgãos pela oportunidade de ajudar outras pessoas", afirmou.

O gesto da família de Glauco Rodrigues contribuiu para que pessoas como Danilo da Silva, 17 anos, e Wellington Rios Bueno, 23 anos, pudessem voltar a ter uma vida normal. Os dois foram vítimas da doença Ceratocone, que ocorre na córnea e faz com que ela fique com formato de cone.

Seu aparecimento ocorre geralmente entre os 13 e 18 anos de idade e progride por aproximadamente 8 anos. Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, o tratamento cirúrgico, com transplante de córnea, é indicado para os casos mais avançados que não melhoram com lentes de contato.

A visão

Foi isso que aconteceu com Danilo. Aos 12 anos, ele perdeu totalmente a visão dos dois olhos, depois de usar durante alguns meses uma lente especialmente indicada para seu problema.

Sem resultados, a solução foi se submeter à cirurgia. Os três anos entre 2006 e 2009 foram de sombras, para o jovem que tinha na época 15 anos e não conseguia mais distinguir formas nas imagens.

"Eu passei um ano na escola só ouvindo, não conseguia enxergar nada". Hoje, Danilo está no segundo ano do ensino médio e sem a necessidade de usar lentes ou óculos e comemora o resultado que trouxe de volta a normalidade para sua vida. "Hoje enxergo quase tudo e digo para quem tem a oportunidade que faça a doação, porque o bem para quem recebe é enorme", concluiu.

Wellington fez a cirurgia no olho direito há um mês e ainda está com os pontos, fruto do transplante. Ele lembra que foram sete meses de espera, desde que descobriu que precisava de uma córnea. Com visão muito prejudicada, disse que o medo foi grande quando soube que precisava se submeter à cirurgia. "Fiquei com medo de ficar cego, com medo de não encontrar a córnea. Na época fiquei muito assustado, porque imaginava que iria demorar muito a cirurgia", diz.

Ao saber que tinha à disposição a córnea para transplante, os sentimentos foram confusos, segundo ele. "É uma coisa difícil de explicar. Fiquei feliz por mim, mas triste por quem havia falecido", conta.


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HE vai ampliar captação de múltiplos órgãos


Esse é o sexto ano em que o Hospital Estadual de Bauru promove o encontro entre famílias de doadores e transplantados. O encontro reuniu familiares e doadores que nos últimos 15 anos participaram do Programa de Captação de Órgãos e Tecidos. Além deles, foi homenageada a Polícia Militar Rodoviária, responsável pelo transporte dos órgãos.

O diretor executivo do HE, Antero Frederico de Miranda, ressaltou a importância do gesto para as pessoas que estão à espera de um órgão. "Isso mostra a grandiosidade do ser humano em, apesar de todo seu sofrimento, lembrar que tem outras pessoas sofrendo na esperança de conseguir uma solução para sua condição. Essas pessoas conseguem resgatar uma nova forma de vida ou de esperança para essas pessoas que precisam dessas doações", afirmou

O diretor de Assistência à Saúde, Carlos Alberto Macharelli, lembrou o trabalho da equipe na captação. "Com isso a gente consegue devolver alento às pessoas que precisam desses órgãos e essa equipe está sempre de prontidão, em sábados, domingos e feriados", ressaltou.

Desde 2004 o HE trabalha na captação de córneas, já que o perfil do paciente atendido pelo hospital facilita esse tipo de captação. A maioria tem como causa da morte a parada cardiorespiratória. Por isso, a equipe trabalha para ampliar o atendimento e estender a captação também para múltiplos órgãos.

O último procedimento desse tipo foi feito no dia 16 desse mês, depois de quatro anos. "São duas possibilidades de doação, a morte encefálica, quando é possível doar todos os órgãos, e a parada cardiorespiratória, quando só podem ser destinadas as córneas. Mas, estamos capacitando médicos, em parceria com o Serviço de Procura de Órgãos e Tecidos (SPOT), da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, que administra o HEB, para fazer essa reciclagem e eles terem a segurança para o diagnóstico de morte encefálica", explicou a coordenadora do Programa de Captação de Órgãos e Tecidos, e supervisora do Serviço de Psicologia do hospital, Bruna Meira.