08 de julho de 2026
Geral

Só 2% sabem identificar o infarto

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Mesmo sendo a principal causa de óbitos entre bauruenses, o infarto agudo do miocárdio ainda permanece como um desconhecido para a imensa maioria da população. A doença mata mais do que as demais cardiopatias, os cânceres, a aids, os acidentes de trânsito e os homicídios. Mesmo assim, são poucos os que sabem identificar os sintomas que precedem o problema, causado pelo entupimento de uma das artérias do coração.

Entre janeiro e agosto deste ano, 158 pessoas morreram vítimas de infarto na cidade, uma média de dois óbitos a cada três dias. A proporção representa uma pequena elevação em relação a 2010 e 2009, e preocupa diante da falta de informação que permeia a doença.

Segundo pesquisa recente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, realizada a pedido do Instituto Datafolha, apenas 2% das pessoas que sofreram infarto sabem reconhecer os indícios do problema. Os demais 98%, quando não buscam ajuda rápida, correm o sério risco de morrer antes mesmo de obter um diagnóstico.

A doença é provocada pelo depósito excessivo de gordura em uma das artérias coronarianas. Com o fluxo sanguíneo prejudicado, o coração deixa de receber oxigênio e nutrientes, o que ocasiona a morte de parte dos tecidos do músculo. Se o órgão não conseguir bombear sangue de volta ao organismo em quantidade suficiente, o resultado pode ser até mesmo uma parada cardiorrespiratória.

De acordo com o cirurgião cardiovascular Antonio Estéfano Germano, o sintoma clássico do infarto é a angina, caracterizada por uma sensação de aperto no peito que pode irradiar para o braço esquerdo, queixo e parte alta das costas. Também pode ser acompanhada de dor no estômago, muitas vezes confundida com uma gastrite comum, bem como náuseas e suor frio. "Mas, em 40% dos casos, o infarto ocorre sem a presença de nenhum sintoma", alerta o médico.

Já em grupos específicos - como o de mulheres, idosos e diabéticos - os indícios do problema podem ser bastante variados, conforme explica o cardiologista Júlio César Vidotto, presidente regional da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Pessoas na terceira idade, por exemplo, podem apresentar somente um quadro de confusão mental, sem nenhuma manifestação de dor.

"Pela falta de oxigenação no cérebro, a pessoa começa a dizer frases desconexas e dificilmente um familiar que estiver por perto vai desconfiar que se trata de um infarto. Ela também pode sofrer um desmaio, caso esteja submetida a um nível de ansiedade mais intenso", enumera. Estão listados ainda como possíveis sintomas a tontura, taquicardia e queda de pressão arterial.


Doença progressiva

Embora as dores nem sempre estejam presentes nos episódios de infarto, Germano ressalta que pessoas acima de 35 anos devem ficar alertas para o surgimento momentâneo de "apertos" no peito durante a realização de atividades físicas. Mesmo que a sensação desapareça momentos depois, pode ser um sinal de que o fluxo sanguíneo já esteja sendo comprometido pelo acúmulo de gordura em uma das artérias coronarianas, o que pode desencadear o infarto a longo prazo.

"A doença é progressiva. Quanto mais tempo passa, menos esforço a pessoa conseguirá fazer sem sentir aquele aperto ou algum dos outros sintomas. São sinais que podem surgir meses antes do entupimento total da artéria", esclarece.

Por outro lado, Vidotto explica que é possível sofrer um infarto e nem mesmo tomar conhecimento do ocorrido, já que, em grande parte dos casos, a necrose de parte dos tecidos do músculo do coração não chega a provocar parada cardiorrespiratória. "Às vezes, o paciente vai fazer um checkup e se surpreende com o resultado dos exames, que apontam que ele já teve um infarto", cita.

Foi o que ocorreu com a autônoma Romilda Ubeda Cavicioni, 56 anos. Por ser asmática, ela acreditou que tivera, há 10 anos, somente uma crise respiratória. Na verdade, tratava-se de um infarto, descoberto somente um ano depois, quando ela foi submetida a um eletrocardiograma.

"Acredito que aconteceu em um dia que tive uma forte falta de ar. Só no começo da noite, quando a sensação piorou, é que resolvi procurar um médico no pronto-socorro", lembra. Segundo ela, nem mesmo o profissional plantonista conseguiu diagnosticar o problema.

"Recebi umas injeções, fiz inalação, mas ninguém falou nada a respeito de infarto e eu voltei para casa. Por sorte, não tive mais nada", comemora a autônoma, que diz ter aprendido a lição. "Se acontecesse de novo, faria tudo diferente. Hoje sei direitinho como identificar o problema", conta.


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Tendência: aumento do número de mortes

Em Bauru, o infarto agudo do miocárdio matou 186 pessoas em 2009, 219 pessoas em 2010 e deve ser responsável por um número estimado de 237 óbitos até o final de 2011. E, como a população vêm se tornando cada vez mais obesa por conta da industrialização e dos maus hábitos da vida pós-moderna, a tendência é que os números se elevem ainda mais nos próximos anos.

"Neste sentido, o crescimento econômico do Brasil trouxe consigo uma realidade negativa, porque as pessoas, com mais dinheiro para gastar, passaram a consumir mais alimentos com baixo valor nutricional, como produtos semi-prontos congelados e bolachas recheadas", enumera o cardiologista Júlio César Vidotto, presidente regional da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Ele salienta que este tipo de alimentação, rica em gorduras, favorece o surgimento de problemas como hipertensão arterial, colesterol alto e diabetes, que são considerados fatores de risco para o infarto ao lado do sedentarismo, tabagismo e estresse permanente. Pessoas do sexo masculino ou com mais de 50 anos também são mais suscetíveis à doença.

Para as mulheres, outro fator agravante é a chegada da menopausa, momento em que elas passam a ter as mesmas chances de sofrer com doenças cardiovasculares do que os homens, o que comprova o efeito protetor exercido pelo estrógeno, hormônio feminino que reduz progressivamente a partir dos 45 anos.

Contrariando o senso comum, o Vidotto explica que os pacientes jovens que sofrem infarto não correm mais risco de morrer do que pessoas com mais de 50 anos. Segundo ele, tratam-se apenas de casos mais incomuns, mas não raros entre moças e rapazes fumantes, hipertensos e diabéticos graves. "A mortalidade é maior nas pessoas mais velhas porque elas já têm o coração mais debilitado, além de apresentarem com maior frequência comorbidades como o próprio diabetes e a hipertensão", analisa.

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Hereditariedade


O componente hereditário, segundo o cardiologista Júlio César Vidotto, também pode ser definitivo para a doença. Pessoas que possuem pais ou irmãos que apresentaram problemas cardiovasculares antes dos 55 anos, para homens, e antes dos 65, se mulheres, precisam iniciar acompanhamento preventivo o mais cedo possível.

"Procedimentos como aferição dos índices de colesterol e pressão arterial são importantes. De qualquer maneira, quem quer envelhecer bem precisa adotar, desde cedo, uma alimentação saudável, com pouco teor de sal, açúcar refinado e gordura, sem cigarro, mantendo o controle de peso e atividades físicas", enumera.

A prática da grande maioria das pessoas, reconhece Vidotto, ainda é bem diferente da recomendada pela medicina preventiva. "Grande parte dos pacientes que já tem diagnóstico de hipertensão, por exemplo, não costuma realizar o controle adequado da doença. O brasileiro ainda só procura o médico quando sente dor", lamenta.