Em Botucatu (100 quilômetros de Bauru), 100 pessoas tentaram se matar no ano passado. As motivações foram as mais variáveis possíveis e computaram moradores de faixas etárias e classe social diferentes. Para descobrir uma “fórmula” preventiva que mantenha a vida, a equipe matricial de saúde mental da Secretaria Municipal da Saúde fez parceria com uma faculdade local e iniciou projeto para traçar o perfil daqueles que fizeram parte da lista dos 100.
A pesquisa, propriamente dita, começou este ano e, segundo o coordenador da equipe, o psicólogo Márcio Pinheiro Machado, esse item deve ser concluído ainda este ano. “Em 2009, quando tivemos uma alta taxa de suicídios no município começamos a estruturar o trabalho, a buscar as possibilidades. Em 2010, formatamos o projeto e este ano iniciamos a pesquisa para traçar o perfil. Esperamos, até o final do ano, implantar a busca ativa mais sistemática. Hoje, quando a unidade ou algum serviço especializado encaminha o paciente ele é atendido de uma maneira mais ágil.”
A intenção do grupo é buscar o “paciente”. “Vamos ligar oferecendo suporte na área de saúde mental. Temos uma equipe multidisciplinar. Semanalmente, a equipe dá um apoio matricial nas unidades. As pessoas que têm esse quadro estão sendo orientadas a nos procurar e têm prioridade no atendimento.”
O “start” foi o desenvolvimento do protocolo com o professor José Manoel Bertolote. “Começamos as abordagens com os pacientes que têm problemas com transtornos mentais. A abordagem é direta: perguntamos se ele tem a ideia suicida ou alguma questão relacionada a esse tema. Os profissionais da rede pública são orientados a fazer essa investigação na hora da consulta.”
Se o paciente tem o desejo de se matar, está idealizando, mas quando ele tem o desejo somado ao planejamento, o caso ganha mais atenção, explica o psicólogo. “Quando ele planeja o suicídio, a gente investiga rápido e vamos adotando condutas. Aciona a família, encaminha para um atendimento de emergência psiquiátrica, que é onde será feita a avaliação do grau de risco. A ideação sem planejamento exige um acompanhamento mais próximo, que pode ser feito pela equipe de saúde da unidade, juntamente com o grupo de saúde mental.”
A forma mais usada pelas mulheres para tentar pôr fim à vida é através da intoxicação exógena. “Elas ingerem algum tipo de medicação. Elas têm menos acesso a armas e evitam o sofrimento. Os homens, por seres mais práticos, adotam o enforcamento, até porque têm menos acesso à medicação. As táticas da ala masculina são classificadas como mais violentas.”
Embora o trabalho de pesquisa esteja em andamento, dá para perceber que os jovens querem acabar com a vida quando têm de enfrentar as desilusões amorosas, conflitos familiares e quando usam substâncias que geram problemas sociais e familiares. Já os adultos, acima de 40 anos, sofrem demais com as perdas.
“Claro que vai depender da história de cada um, mas as perdas muito próximas de familiares ou amigos, especialmente do cônjuge, pode fazer com que a pessoa pense em suicídio. Nos casos em que há um quadro psiquiátrico associado, existe um agravamento. A desestruturação familiar é outro item que influencia na decisão do adulto.”