A morte sempre chega de surpresa até mesmo quando o estado de saúde é delicado. Familiares e amigos nunca perdem a esperança pela possível recuperação. Assim, fui surpreendido na madrugada com a notícia do falecimento do companheiro de muitas jornadas, Marco Aurélio Pinheiro Brisola. No universo racional dos homens, pode-se afirmar que a única certeza da vida é a morte, no entanto a grande maioria dos homens a temem. Esta, uma síntese da mente cartesiana do meu amigo, que morreu aos 81 anos, solapado por um câncer. Para conviver com a idéia de finitude o homem precisa acreditar na complexidade de tudo que o rodeia no universo, ampliando sua capacidade de entendimento. À procura de algumas respostas meu amigo viajou grande parte do mundo, procurando significados ocultos onde não havia nenhum. Certa vez me fez subir com ele as escadarias da torre da Catedral de Notre Dame, para saber se realmente tinha o número de degraus informados no Larousse. E não tinha... Eram muito mais (ufa!), talvez acrescidos durante alguma restauração. Percorri com ele milhares de quilômetros na Europa, de carro, trem e avião. Numa dessas viagens, também na companhia do seu melhor amigo Alfredo Saab. Marco Brisola preparava-se para cada excursão como se fosse prestar exame vestibular. Sabia tudo sobre tudo. Em Burgos, discutiu com o guia espanhol sobre a origem do saiote vermelho de Cristo na cruz. Aquela catedral gótica abriga o túmulo de El Cid e sua esposa Ximena. Quando corrigiu mais uma vez o culto especialista que nos acompanhava sobre uma data qualquer, o homem não se conteve: "Afinal, o senhor é historiador?" Marquinho respondeu que história medieval era ensinada desde o grupo escolar, no Brasil. O cara não entendeu a ironia e desabafou - já desconfiava que "la ensenãnza en España es una mierda". Visitei com ele mais de vinte catedrais. Marco distinguia na mesma construção, as influências românicas, góticas e barrocas, de acordo com a evolução dos estilos ao longo dos séculos. Para quem não é especialista, esse tipo de conhecimento enciclopédico é inútil. Qual o sentido prático desse chamado "lixo cultural" de almanaque? Marco defendia que a cultura ocidental é arrogante, por isso põe o passado para trás, não só nos detalhes, estes necessários, sim, para a compreensão do próprio homem. Os Aymará (indígenas do Lago Titicaca) põem o passado à frente, porque ele é o conhecido, o visto, o vivido. O futuro é que é para trás. O futuro é somente uma expectativa. As pessoas podem morrer tranqüilas quando sabem que aquilo que elas amam está protegido da miséria do esquecimento.
Para Marco Brisola, isto bastava. Formou-se em Direito pela USP-São Francisco, onde foi contemporâneo de Ulisses Guimarães, Almino Afonso, Jânio Quadros e outros pais da pátria. Nunca quis advogar seriamente, porque achava esse negócio de "audiência" uma chateação. Elegeu-se vereador nos anos 1970. Também considerou "tedioso" desancar o pau nas coisas erradas, desde a tribuna, sem ninguém com coragem para contestá-lo, tal a rapidez de raciocínio e as respostas ao pé da letra. Escreveu um livro (Os aprendizes de deuses), novela meio complicada no estilo de A Peste, de Camus, só que ambientada na Europa, que tanto conheceu. Fiz o Prefácio, a seu pedido. No seu refúgio monástico em Piratininga, deveria estar elaborando algo mais belo e consistente, com aqueles toques irônicos que o caracterizavam. Costumava dizer que os bauruenses não toleram duas coisas: o sucesso, e o fracasso. Marco Brisola não teve uma coisa e nem outra para se preocupar. Considerava o pai, Octávio Pinheiro Brisola, este sim, um sábio e vitorioso: duas vezes prefeito de Bauru e deputado federal, conhecido como "advogado dos pobres" por defendê-los gratuitamente. Revolucionário, poeta e ex-asilado. Era um ídolo para Mar-quinho que se considerava apenas um sobrevivente. Foi criado tendo como berço as resmas de papel do jornal do pai. Como aquele personagem de Machado de Assis, Marco não teve filhos (e nem se casou). Não transmitiu a nenhuma criatura o legado da miséria deste mundo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC