08 de julho de 2026
Polícia

Advogado é acusado de molestar jovens

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 8 min

Neide Carlos

A delegada Priscila Bianchini Alferes pediu a prisão temporária do advogado Sandro Luiz Fernandes

Uma denúncia chocante deixou perplexos bauruenses que tiveram acesso aos seus primeiros detalhes na tarde de ontem. O conhecido advogado Sandro Luiz Fernandes, 45 anos, ligado ao Sindicato dos Servidores Municipais (Sinserm), é acusado de molestar sexualmente duas jovens - hoje ambas com 18 anos - e uma adolescente, que atualmente tem 13 anos. Depois de anos caladas, as duas jovens de 18 anos, familiares próximas ao acusado, resolveram denunciá-lo à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).

Sandro ficou conhecido em Bauru por ter sido candidato a deputado, prefeito e vereador. Ele teve 2.519 votos e não foi eleito em 2008 pelo PSTU como vereador por conta do coeficiente eleitoral. Além disso, era atuante à frente do Sinserm como advogado.

Na tarde de ontem, as duas vítimas de 18 anos resolveram colocar a denúncia à público e falar com a imprensa, na condição de ter as identidades mantidas em sigilo absoluto. Os depoimentos emocionantes e comoventes mostraram o grau de abalo das duas jovens.

Uma delas afirma ter sofrido abusos dos 8 aos 16 anos. A outra, dos 8 aos 10 anos. Já a terceira vítima, que mora no Estado do Paraná, teria sido molestada - não se sabe ao certo se uma ou mais vezes - quando tinha apenas 10 anos.

As duas garotas maiores de idade, que além de familiares são amigas, se abraçaram muitas vezes em meio ao choro incessante. De mãos dadas, assim como estavam ontem, elas resolveram denunciar Sandro no último dia 31. A decisão foi tomada depois de uma delas descobrir o abuso da outra familiar de 13 anos e das duas descobrirem as suas histórias em comum. Leia a seguir alguns trechos da entrevista concedida pelas duas jovens de 18 anos.

 

JC- Quando aconteceu o primeiro abuso?

1ª jovem - Eu tinha uns 8 anos de idade. Percebi que ele me olhava tomando banho quando notei o óculos dele na fechadura da porta. Quando eu saía, ele me dava sustos. Achei estranho. Depois disso, ele começou a me apalpar fazendo massagens.

 

JC- Mas aconteceu a conjunção carnal?

1ª jovem - Não, mas eu acordava de madrugada com ele fazendo sexo oral em mim. Era horrível porque só acontecia às madrugadas, e eu não sabia o que fazer. Fiquei chocada na primeira vez e não conseguia fazer nada. Eu acordava na madrugada sentindo ele me apalpando e fazendo sexo oral em mim. Tinha vontade de gritar, mas não sabia como agir.

 

JC- Você não pensou em contar para sua mãe?

1ª jovem - Eu contei para ela quando eu tinha 11 anos. Mas ela disse que conversaria com ele. Que devíamos dar uma chance a ele. Que ele ia se tratar. Foi o que eu fiz. Mas logo os abusos voltaram. Ele me tocava quando eu dormia. Ficava torcendo para ele ir embora logo.

 


JC- Foram apenas essas situações ou tiveram outras?

1ª jovem - Tiveram outras. Às vezes ele ficava se insinuando quando a gente assistia televisão. Ficava mostrando o pênis, se insinuando. Horrível. Eu tinha nojo. Os abusos pararam quando eu tinha 16 anos. Quero que ele pague por tudo o que me fez.

 

JC- E como foi que aconteceram os abusos com você?

2ª jovem - Começaram quando eu tinha 8 anos também. Como a família era muito unida, costumávamos nos reunir para churrascos. Às vezes eu dormia com (a outra jovem), e ele costumava contar histórias para a gente.

 

JC- Mas eram histórias com conotação sexual?

2ª jovem -  Não. Eram histórias comuns para crianças. A primeira vez que aconteceu, estávamos no escuro. Íamos dormir. Então ele deitou ao meu lado. De conchinha. Aí eu senti ele me abraçar. Começou a passar a mão em mim. Nas minhas partes íntimas. Eu também não via a hora de ele ir embora. Eu tentava me afastar, mas ele ia se aproximando, mandava eu pegar no pênis dele. Isso aconteceu algumas vezes até quando eu tinha 10 anos. Aí decidi me afastar.

 

JC- Você não pensou em contar a alguém?

2ª jovem - Não, porque como depois parou e eu me afastei, não quis contar para ninguém.

 

Cruzando casos

Os três casos de abuso denunciados à DDM só se cruzaram neste mês de agosto. A primeira vítima de 18 anos achava que era única. A segunda vítima, assim como a primeira, também tinha a mesma concepção. Tudo mudou quando esta primeira vítima resolveu desabafar com uma tia tudo o que havia acontecido.

Esta tia já sabia que a filha de 13 anos havia apontado Sandro Luiz Fernandes por ter molestado-a quando ela tinha apenas 10 anos de idade. A mãe da adolescente descobriu por acaso o abuso. Então, o primeiro e o aparente último caso vieram à tona.

“Foi quando ela alertou a filha para um caso de abuso sexual que tinha acontecido com uma empregada doméstica dela. Ela disse: Filha tome cuidado para isso não acontecer com você. Então ela disse: Já aconteceu. E apontou Sandro como o autor do abuso. Ela disse que ele mandava ela sentar no colo dele e a acariciava. Mandava ela acariciar o pênis dele”, contou outra familiar que acompanhou as duas vítimas de 18 anos à DDM na tarde de ontem.

Depois de saber da situação, inconformada, a mãe da adolescente conversou com a esposa de Sandro e esta disse que iria conversar com ele. Foi aí que a primeira e a segunda vítima, as jovens de 18 anos, em um desabafo, descobriram que eram molestadas quase ao mesmo tempo.

Elas relataram ao JC e choraram, mais uma vez. E abraçaram-se. Como Sandro está na Europa, as duas meninas se sentiram mais “livres” para denunciar.

 

Defesa

A equipe de reportagem do Jornal da Cidade tentou contato diversas vezes com Sandro Fernandes através de seu telefone residencial e telefone celular, mas ninguém atendeu. Também foi deixado recado na caixa postal do celular, mas até o fechamento desta edição, Sandro não havia se pronunciado ao JC.

Quem entrou em contato com a equipe de reportagem por telefone após saber da denúncia foi a mãe do acusado, Maria Durcília Fernandes. Ela justifica que o filho não foi encontrado pois está em viagem de volta a Bauru.

“Ele e a mulher dele estão viajando. Ele está voltando a Bauru. Isso é tudo mentira. É complô que fizeram na ausência dele. O Sandro é um ‘menino’ trabalhador e, agora, na ausência dele aprontaram para ele. Isso depois ele vai conversar com vocês. Ele chega a Bauru entre hoje e amanhã. Ele pegou um avião na Itália ontem (anteontem) para chegar em São Paulo e de lá ele vinha para cá. Mas não sei se vai fazer algo em São Paulo, porque ele não me ligou mais”.

Ao ser questionada sobre a veracidade dos fatos, a mãe de Sandro disse que há uma divergência familiar por conta dos bens que o acusado conseguiu com seu trabalho como advogado. “Você conhece inveja? Quando vê que alguém está crescendo ele quer puxar o tapete? Ela (uma das vítimas de 18 anos) arrumou um namorado que os dois se juntaram e querem tirar os bens que ele tem”, justificou Durcília. 

 

Denúncia chegou à Câmara

A notícia chegou à Câmara Municipal e causou muito burburinho entre os vereadores de Bauru durante a sessão ordinária da tarde de ontem. Quem também estava no local é a presidente do Sindicato dos Servidores (Sinserm), Idelma Corral. Ela preferiu não entrar em detalhes sobre o assunto, mas se emocionou ao falar de Sandro Fernandes. “Minha vontade é de que ele entrasse agora pela porta, provando que isso não é verdade. São muitos anos de uma relação de muita ética e profissionalismo”, afirmou, enquanto enxugava algumas lágrimas.

O único vereador a tratar do assunto publicamente foi Marcelo Borges (PSDB). Em razão das discussões em torno do projeto de lei que cria cargos na Prefeitura e garante benefícios a servidores, o tucano tem entrado em atrito com sindicalistas há semanas. Na tarde de ontem, antes de votar favorável à proposta, lançou uma provocação. “Queria saber porquê o porta-voz do sindicato, o advogado Sandro Fernandes, não está presente hoje”, cutucou. Apesar do tom adotado pelo parlamentar, membros do Sinserm não se manifestaram. (Vinicius Lousada)

 

Prisão temporária

 O caso foi registrado pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) como atentado violento ao pudor, já que a nova lei de estupro - que abrange o crime mesmo que não haja conjunção carnal - entrou em vigor apenas em 2009.

“Nós já pedimos a medida protetiva. O juiz decretou, mas o Sandro não recebeu porque estava na Europa. Agora nós pedimos a prisão temporária dele, que já foi representada, e estamos esperando a decisão do juiz. Foram apreendidos três computadores na casa dele que serão encaminhados para perícia. Vamos apurar se também existem outras vítimas”, esclareceu a delegada Priscila Bianchinni de Assunção Alferes, da DDM. 

 

Amigos ficam surpresos ao saber da denúncia 

O JC entrou em contato com alguns amigos de Sandro, que ainda se diziam chocados ao saberem da denúncia. Michel Brandão, advogado e amigo de Sandro há dez anos, definiu a situação como “surreal”. “Ele nunca ouvi nenhum tipo de comentário, nenhuma atitude dele deste tipo. Me causou muito espanto essa notícia. Temos que aguardá-lo. Cheguei a falar com ele hoje à tarde sobre outro assunto, mas ainda não sabia da denúncia. Falei com ele coisas de trabalho.

Caio Augusto Silva dos Santos, presidente da Subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também afirmou estar surpreso e preferiu não se manifestar, já que trata-se de algo pessoal e não profissional. “Eu não tenho nem elementos para me manifestar sobre essa questão porque até o fato é estranho às atividades da OAB”.