08 de julho de 2026
Esportes

Vôlei: Vírus do bem

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 6 min

O técnico da Seleção Brasileira masculina de vôlei, Bernardinho, esteve em Bauru, ontem, para inaugurar mais uma filial da Escola de Vôlei Bernardinho (EVB), que terá sede na Educação Infantil Cisne Real e atenderá 300 crianças de 7 a 13 anos. A unidade é a primeira no Estado de São Paulo e faz parte de um projeto desenvolvido pelo treinador, que utiliza o método do minivôlei para redimensionar a modalidade às necessidades e condições das crianças.

Bernardinho foi sucinto ao comentar o porquê de Bauru ser a primeira cidade paulista a contar com uma unidade de sua escolinha. "Porque houve pessoas interessadas e que compartilham do nosso sonho, do nosso projeto. Não é o lugar, são as pessoas", resumiu. Na entrevista coletiva que concedeu durante a inauguração, Bernardinho falou sobre o método aplicado na escolinha, Seleção Brasileira e os próximos desafios do vôlei brasileiro. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Imprensa ? Qual a importância e objetivos deste projeto que você inaugura em Bauru?

Bernardinho ? A ideia é inocular as crianças com o bom vírus do esporte. A filosofia da escolinha é criar desde muito cedo disciplina e valores importantes que o esporte traz, agregada a uma boa educação. Nossa metodologia é baseada no minivôlei. Uma criança de sete, oito anos não consegue ter êxito com uma bola pesada, uma quadra grande, uma rede alta. Sem ter êxito nos seus movimentos, ela não ganha autoestima, não gosta da atividade. Se não conseguir fazer uma cesta, não conseguir dar uma cortada, não vai se apaixonar por aquilo. Ele quer replicar o que ele vê na televisão. Então, o minivoleibol é o redimensionamento do tamanho e do peso dos nossos instrumentos. É uma atividade lúdica, bem orientada, que é a base de tudo. Daqui, provavelmente, surgirão atletas, mas isso não é o mais importante. As pessoas que passaram pela escolinha vão estar mordidos pela questão do vôlei, alguns podem virar jogadores, outros podem ser patrocinadores, dirigentes, treinadores, jornalistas. A Escola de Vôlei Bernardinho surgiu com esta ideia. Disciplina, metodologia bem estruturada e trabalho bem orientado.

Imprensa ? O interesse das crianças pelo vôlei aumentou hoje?

Bernardinho ? O que desperta o interesse? O ídolo, a Seleção Brasileira quando conquista títulos. Os resultados das Seleções Brasileiras de voleibol aumentaram substancialmente o número de praticantes. Faltam hoje locais para iniciação em todos os esportes. Precisamos investir nisso.

Imprensa ? O que podemos esperar de uma criança que sairá do projeto como cidadão?

Bernardinho ? Primeiro, que é um esporte de equipe. Ele aprende a dividir, a compartilhar, a socializar, a entender e respeitar os seus parceiros, seus concorrentes naquele momento. Quando está em treinamento, está disputando contra um companheiro seu. O que é disciplina. Tem gente que entende disciplina com rigidez. Disciplina é conseguir dar consciência para as pessoas do que é necessário para chegar lá. Disciplina é a ponte que liga seus sonhos às suas realizações. Se sonho em ser um grande jogador, preciso ser disciplinado para chegar lá. Dia após dia, vou ter que treinar. Se sonho em ser um médico, vou ter que estudar, estudar e estudar. E ninguém obriga ninguém a nada. E o esporte é interessante porque provoca esta consciência. Por exemplo, jamais vou ser um bom arremessador dos três pontos se não ficar aquilo milhares de vezes. Na prática, o atleta vai entender o que é ser disciplinado.

Imprensa ? O Brasil acaba de vencer o Sul-Americano e conseguir vaga na Copa do Mundo, que dá vaga para as Olimpíadas de Londres-2012. Quais são as perspectivas para esta competição e os principais adversários?

Bernardinho ? A Olimpíadas, para nós, começa no Sul-Americano, que classifica para a Copa do Mundo, o primeiro torneio que concede vaga nas Olimpíadas. Na Copa do Mundo, os principais adversários são os europeus. A Sérvia foi campeã europeia ganhando da Rússia na semifinal; a Itália, que foi vice-campeã europeia e, em terceiro lugar, ficou a Polônia. Os dois primeiros (Sérvia e Itália) estão classificados, a Polônia deve ser convidada e é possível que a Rússia seja convidada. Se for, serão quatro forças, mais Brasil e Argentina, que está em excelente patamar, e mais Cuba e Estados Unidos. Estas oito equipes brigarão por três vagas. São equipes de primeira linha do voleibol mundial. Além da Copa do Mundo, tem outros torneio classificatórios e, talvez ao longo do tempo, os oito podem estar na Olimpíada. Mas na Copa do Mundo, provavelmente, desses oito sairão os três classificados para os Jogos de Londres.

Imprensa ? Você citou as divisões de base da Argentina e a base do Brasil não teve boa temporada, não ganhou títulos. Preocupa ou é apenas um acidente de percurso?

Bernardinho ? Há muitos anos, o Brasil vem conseguindo bons resultados. Tenho muito receio quando começa-se a falar em sucesso, sucesso. Só tenho uma convicção na vida: que o sucesso passado não garante nada no futuro. A única coisa que importa é o próximo (campeonato). Se você imaginar que o trabalho que foi feito anteriormente é suficiente para nos dar condição de continuar brigando... A tendência do brasileiro é ter uma certa acomodação, um certo relaxamento e a não se questionar mais. As pessoas dizem que sou um pouco paranóico. Estou sempre buscando o que deu errado. Senão, você fica achando que tudo deu certo, que aquilo é suficiente. Provavelmente, o que nós fazíamos nas divisões de base todo mundo está fazendo e, muitas vezes, com condições melhores. Se você não inovar, criar alguma coisa de melhor, será alcançado e, provavelmente, ultrapassado. Temos que nos questionar e assumir responsabilidades. Se não você não assumir responsabilidades, nunca vai entender as verdadeiras razões pelas quais você perdeu. Sem entender, não vai pode mudar as estratégias seguintes, não vai reverter aquele quadro.


Imprensa ? Como manter a Seleção motivada após vencer tantas competições?

Bernardinho ? O que faço é testar a motivação dos jogadores o tempo todo. O Centro de Treinamento da gente (CBV) em Saquarema é maravilhoso, muito bem feito, mas é isolado. Para um cara que tem uma boa qualidade de vida, ficar isolado pode não ser muito agradável. Mas é o preço que se paga para se continuar vencendo: trabalhar. Você tem que provar com ações. É chegar no domingo à noite, tendo treinado segunda, terça, quarta, quinta e sexta, isolado. Eles demonstram isso no dia a dia. Quem não está comprometido com isso, o próprio grupo expurga, não aceita mais. Os valores que nortearam esta geração de jogadores e já são 11 anos são dois: preparação e trabalho em equipe. Sem isso, não vamos a lugar nenhum. Você tem que ter um time, não adianta achar que um é o cara, o outro é o cara. Morreu. Tem que ter um time. Tudo nosso é voltado para o coletivo. E preparação não é substituída por nada, não adianta palavra lindas, frases. O que vale é o dia a dia.