10 de julho de 2026
Geral

?Não me mato por causa dos cachorros?

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Pode até parecer engraçado uma pessoa repetir gestos que parecem estranhos. Mas o cômico pode ser trágico. Segundo especialistas na área de psicanálise, se o transtorno não é controlado a tempo, ele pode desdobrar-se para compulsões complementares e até mesmo em novos distúrbios emocionais. Em estágio avançado, adverte o psiquiatra Borgo, o TOC pode até ser confundido com outra doença.

"As formas variam desde as mais leves até mais graves. Há uma mais grave que se chama ?TOC de Poor Inside?, onde o paciente começa a achar que o TOC faz parte dele, num temperamento parecido com o esquizofrênico", conceitua o médico.

Evaristo (nome fictício, a real identidade do personagem será preservada) tem 70 anos. Ex-funcionário público em Bauru, se diz vítima do transtorno em seu grau mais acentuado, prolongado e, mais do que tudo, doloroso e entristecido.

Obrigatoriamente, por causa da doença, que segundo ele se transformou também em dor orgânica, com enxaquecas agudas e até mesmo náusea e diarreia, nas crises mais acentuadas, ele permanece trancado dentro de casa durante o dia. Somente após as 20h é que o aposentado "acorda para o mundo". "A partir das 8h fico normal".

Recolhido entre os 22 cachorros que cuida - alguns doentes terminais - Evaristo se perde entre as pilhas de revistas, fitas e DVDs de filmes antigos. A mania por coleções, diz ele, também é uma das conseqüências do TOC, também responsável pela obrigação em cuidar dos cães, pelos quais fica até sem comer.

"Eu achava que era amor o sacrifício pelos animais abandonados. Mas os médicos me falaram que é o TOC. Passei 60 anos me sacrificando, fico sem comer por eles, por isso sou um fio de linha de tão magro. Passo o dia limpando a sujeira deles e passando susto, porque não suporto som e movimento (ele entra em fortes crises de pânico com ruídos ou atos ríspidos)", descreve.

O aposentado conta ser vítima do TOC desde a infância. Contudo, na época, o problema era praticamente desconhecido e ele não teve a oportunidade de se tratar no logo no começo. "Fui uma criança sofredora, mas naquela época não se sabia", lamenta.

Gestos simples, como beber água, para o garoto Evaristo, sinalizavam sofrimento. "Para tomar água, usava-se pote na época, eu tinha que, com a mão esquerda, bater seis vezes do lado da torneira. Caso contrário, não bebia, passava sede", recorda. "Simplesmente tinha que bater, senão dava desespero, agonia, dor de cabeça e náusea", detalha.

Ele diz que somente consegue raciocinar e trabalhar com arte plástica ou assistir aos clássicos que coleciona em DVD após o escurecer. Qualquer outro tipo de atividade, conta, está fora de cogitação antes das 20h. "O TOC não me deixa comer antes das 8h da noite. Não dá. O canal do esôfago fecha, sinto dores horríveis, vomito, volta tudo. É um inferno minha vida. Não me mato porque tenho os cachorros para cuidar, apesar de, ao mesmo tempo, eles me estressarem por causa do barulho e movimento", confessa ele, que é membro do grupo "Viver de Verdade", extensão em Bauru da irmandade Neuróticos Anônimos" (N/A). "Não abandono o N/A porque tenho bons amigos lá. Meu caso é grave, talvez o pior da cidade. O grupo me escora muito principalmente pelos amigos", atribui ele, aconselhando quem desconfia ser vítima do TOC, mesmo nas modalidades mais leves. "Corra para o médico enquanto é cedo. Fosse assim quando eu era menino, talvez eu não sofresse tanto", recomenda.


Transtorno inspira a arte

Vilão na vida pessoal de gente famosa, como o cantor e compositor Roberto Carlos, o TOC também serve de inspiração para a arte.

No filme "Melhor Impossível", de 1997, o ator Jack Nicholson interpreta um escritor grosseiro, com personalidade anti-social, que entra em parafuso ao ter que cuidar do cachorrinho do vizinho doente. Pouco a pouco, o personagem, cheio de manias das quais se torna totalmente refém, é obrigado a mudar o comportamento, repleto de neuroses.

Já nos palcos, a peça "Toc Toc" também arranca risos da plateia, mesmo tamanha a delicadeza do assunto. A comédia reúne personagens portadores de TOC na sala de espera de um consultório. Como o médico não aparece nunca, a solução é iniciar uma terapia de grupo. O espetáculo está em cartaz no Teatro Gazeta, em São Paulo.