Se tratado corretamente e encarado como uma doença, não uma mera mania ou superstição, o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) pode deixar de atormentar a vida das pessoas ou, ao menos, ter minimizada a maioria dos sintomas.
"O TOC é tratável e tem boa resposta à serotonina", especifica o médico psiquiatra Evandro Luís Borgo. Contudo, ressalva, o tempo de tratamento pode variar, sendo que o transtorno, eventualmente, pode não desaparecer completamente. "Algumas vezes some e depois de muitos anos volta", acentua o especialista. "Mas há uma boa resposta à medicação", reitera.
Além do tratamento farmacológico, a psicoterapia é fundamental. Uma forma de combate ao TOC complementa a outra, observam médico e psicólogo. "Além da medicação, temos a terapia cognitiva comportamental. É como se a pessoa tivesse que lutar contra o ritual, se acostumando com o tempo. Mas essa exposição tem que ser gradual, não pode ser brusco, senão até piora", adverte o psiquiatra.
Arnaldo Vicente, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC), é um dos psicólogos que lida com pacientes acometidos pelo TOC. Segundo ele, em boa parte dos casos, o mínimo de quatro sessões já resultaria em efeitos positivos.
Contudo, pondera Vicente, isso não significa que o processo seja simples. "O protocolo de tratamento é diferente daquele trabalhado em casos de ansiedade generalizada, síndrome do pânico ou estresse pós-traumático. É um caso bastante especial", diferencia o psicólogo.
O terapeuta reconhece que o medicamento é um importante aliado no tratamento, pois diminui os níveis de ansiedade e hiperatividade mental do paciente, propiciando maior tranquilidade para o decorrer da análise. "Isso contribui para que a pessoa tenha um tempo para refletir, ver a lógica dessa atitude a que se sente impelida a ter", justifica.
Nesse processo, considerado pelo psicólogo como uma reeducação, o paciente é encorajado a analisar os fatos de forma lógica, estimulado a evitar os receios que tem, a fazer (ou deixar de) justamente aquilo que teme. "Mas a gente sempre começa trabalhando com os rituais comportamentais, para depois lidar com aqueles envolvidos com o aspecto obsessivo do pensamento", detalha Vicente.
Um dos aspectos que mais diferenciam o TOC de uma simples mania ou superstições é que o distúrbio surge como se fosse "do nada".
"É como se esses pensamentos intrusivos aparecessem do nada, mas na verdade surgem quando as pessoas estão, de alguma forma, ansiosas e esperando que algo de ruim possa acontecer. Aí abre-se o espaço para algum tipo de ritual para que ela se sinta segura, garantida. São expressões da preocupação que a pessoa tem. É uma das ansiedades mais elevadas que o ser humano apresenta."
Liberdade
Foi por meio da terapia cognitiva que a dona-de-casa Carolina Montenegro Turtelli Lagreca da Silva, de 42 anos, encontrou a serenidade necessária para não perder os melhores momentos do crescimento das filhas Clara e Sofia, respectivamente, de 8 e 6 anos.
Desde a infância, ela lembra que a obrigação auto-imposta de cumprir certos rituais lhe tirava o sossego. "Eu tinha mania de perfeição, meus cadernos eram sempre impecáveis. Não queria nada errado e morria de medo de contaminação", recorda ela.
Contudo, esses sintomas sumiram conforme ela cresceu, mas retornaram na adolescência e adentraram a fase adulta. O medo de que algo acontecesse com familiares prendia Carolina, que não tocava a vida antes de cumprir gestos que, para ela, seriam fundamentais até mesmo para a sobrevivência das pessoas amadas.
Segundo ela, alguns sintomas eram mais "fáceis" de serem controlados, como voltar para a cama imediatamente ao notar que havia colocado primeiro o pé esquerdo no chão. Contudo, outros sinais de TOC traziam cansaço mental e físico, lembra ela, que relacionava o subir e descer a escada de sua casa com algo terrível que poderia acontecer com a mãe. "Cheguei a subir umas 15 vezes, para evitar", descreve.
Outro sinal do transtorno estava no guarda-roupas. Carolina conta que deixou de usar muitas peças em virtude de um suposto "azar" que determinado modelo ou cor traria.
Superado o problema, hoje ela comemora: "Tenho um armário que dobrou a quantidade de roupas novas sem precisar fazer compras", descontrai, ao lembrar do extremo de ter ido a festas com roupas velhas apenas para não "vestir" azar.
A superação veio conforme assimilou que realmente precisava de ajuda terapêutica. "Não existe isso de controlar tudo com o ?poder mágico? de sua mente ou de não querer errar nunca", ensina. "Para mim, a terapia cognitiva foi brilhante", aprova.