Há 50 anos, meu Anjo da Guarda me protegeu da agressividade de um homem que adentrou a minúscula casa de meus pais, roubou-lhes o pagamento do mês e, passando sorrateiramente pelo meu quarto, achou-se no direito de satisfazer seus impulsos masculinos. Eu tinha 12 anos. Antes de me agredir, ele tramelou a porta, desparafusou a lâmpada e foi abrir a janela do meu quartinho para facilitar-lhe a fuga. Acordei com o ranger das velhas dobradiças que prendiam as folhas da janela de madeira, e gritei. Gritei muito... tanto que fiquei 20 dias completamente sem fala. Adquiri calos nas cordas vocais e, por mais de 30 anos, perdia a voz toda vez que me sentia tensa ou em perigo.
Inúmeras vezes dei aulas escrevendo no quadro negro as explicações que deveria dizer aos alunos, porque não tinha voz... Muitos de meus colegas e de meus alunos são ainda testemunhos disto, porque se lembram daquelas aulas silenciosas. Nenhum fonoaudiólogo conseguiu curar meus calos vocais. É claro. O problema não estava ali e sim no trauma psicológico que o pavor me causou. Meio século se passou e a falta de educação sexual masculina ainda persiste na sociedade brasileira e mundial. Talvez pelo medo de que os meninos optem, mais ainda pela terceira via, o assunto vira tabu, ou melhor, quanto mais demonstrações de masculinidade, mais satisfeita está a sociedade patriarcal que ainda vivemos. Vê-se a mesma atitude em todas as partes do mundo e o estarrecimento pela barbárie é momentâneo. Depois, tudo se aquieta e continua a mesma violência sem parâmetros cabíveis para quem sofre a agressão. Sem atitudes ou iniciativas positivas no sentido de se garimpar soluções viáveis. Só punição, quando o mal já não tem reparo.
A cada dia que passa, o problema se agrava. Onde está a raiz deste comportamento absurdo? Como deveriam ser educados estes homens para que soubessem controlar seus instintos sexuais e respeitar seus semelhantes? E não me venham com aquele refrão machista de que são as mulheres que provocam e que a culpa da educação ca-nhestra é delas. Há uma imensidão de trabalhos científicos provando o inverso.
A liberdade sexual adquirida nos anos 60, hoje, esbanja variedades e formas de se praticar o sexo com mulheres e gays que gostam e querem praticá-lo. Mas... por incrível que pareça, muitos preferem arrebentar uma vida inteira de crianças e pessoas que não estão disponíveis para tais atos, exclusivamente para satisfazer, por segundos, seu egoístico prazer doentio. Educação sexual poderia talvez minimizar esta questão. Punição só não basta, é urgente educar!
Profª Drª Terezinha Santarosa Zanlochi - doutora em História Social - RG 3 832 085-X)