08 de julho de 2026
Articulistas

O popular e o lixo

Luis Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Assisti ao show do Legião Urbana com a orquestra sinfônica no Rock in Rio e fiquei emocionado. Confesso que na hora que eu olhei pra televisão e vi o Dinho do Capital Inicial no palco, imaginei: "-Vai ser um saco aguentar o Dinho do Capital de novo!"

Mas as músicas falaram por si. Eu fiz quarenta anos no último dia 17. Minha adolescência, nos anos 80, foi recheada pelo Legião Urbana. A minha e a de todo mundo com quem eu convivi. O Legião Urbana era unânime. Falava mesmo a língua da juventude. Não havia quem não se identificasse com as músicas do Renato Russo. E olha que naquela época eu ouvia um som completamente fora do circuito das rádios. Hojerizah, Picassos Falsos, Cabine C, Violeta de Outono... eram bandas que não tocavam em qualquer lugar. Mas o Legião era o Legião. Não tinha como não gostar. Era como o Titãs dos discos "Cabeça Dinossauro" e "Jesus não tem dentes no país dos banguelas". Eu e meus amigos enxergávamos essas bandas como o alternativo que tinha dado certo, que tinha conseguido alcançar o estrelato. Depois eu descobri o Joy Division (a banda inglesa) e percebi que o Renato Russo se inspirou, inconfundivelmente, no Ian Curtis, o vocalista e poeta do Joy Division. O Legião Urbana é o Joy Division brasileiro.

O mais interessante do show do Rock in Rio foi ouvir o público cantando as músicas, reconhecendo aquilo como uma obra importante para a música nacional. O Legião é como um legado de uma época em que o bom gosto ainda tinha vez, mesmo entre as multidões. O Legião era popular, em um tempo em que o popular não tinha que ser, necessariamente, uma idiotice. Já existia o baixo nível, obviamente. Mas ainda não vivíamos esta ditadura musical  grosseira, esta infância da sexualização, esta banalidade cega que transforma tudo em qualquer coisa. Todas as pessoas que eu conheço que não têm opinião própria e não fazem a mínima ideia de como conduzir uma conversa que não gire em torno de fofoca (ou do seu próprio umbigo) dizem que ouvem de tudo. Mas esse "de tudo" é só o que toca nas piores e maiores rádios, só o que entrou para a liquidação das músicas de fácil penetração nesses programas de games horrorosos. É gente que não gastaria 1 Real com um bom livro, mas assinaria 1 ano de Revista Caras. A típica geração coca-cola. 

Isso soa como um tipo de proteção contra a insegurança, contra a falta de referência do nosso mundo. Se eles lessem Kafka, poderiam começar a questionar o paraíso da alienação. É mais fácil acompanhar as novelas. Afinal, agora são seis novelas diárias, só na Globo. É muita ficção. Não sobra tempo para refletir a realidade. Até o Jornal Nacional parece ter virado ficção. O pessoal entende aquele conteúdo como se fosse algo distante, de outro mundo. O Sarney, por exemplo, virou um personagem. Por algum motivo, as pessoas acham que o que ele faz não tem nada a ver com a vida delas. Mas tem.

Acabei de ver a seguinte notícia, também sobre o "Rock in Rio": "Ke$ha bebe sangue e quebra guitarra". Tudo bem que o Jimmy Hendrix e o Black Sabbath já faziam isso, mas era um artifício para completar a música. Não era só beber sangue e quebrar a guitarra. Isso qualquer um pode fazer. O Jimmy Hendrix é um mito porque tocava com a alma, não porque tacou fogo na guitarra. O Black Sabbath era muito mais do que o Ozzy Osbourne comendo um morcego. Era único, sensacional.

Hoje, tudo o que é rotulado de popular é um lixo. Um lixo passageiro, que não acrescenta nada, mas responde adequadamente às exigências de um mercado em crise, o mercado da música, que tem que se renovar a cada segundo - senão o artista perde a graça.  O popular, como o conhecíamos antes - as manifestações genuínas dos mais distantes lugares onde se encontra o povo brasileiro -, foi desgraçadamente estereotipado pelos jabás das rádios e pelos sotaques carregados das novelas regionalistas. Por isso é que assistir àquele público imenso cantando todas as músicas do Legião Urbana trouxe um fiozinho de esperança, uma impressão boa de que nem tudo está perdido.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de História e colaborador de Opinião