11 de julho de 2026
Bairros

DAE culpa seca pela falta de água, mas faltam mais 7 poços

Por Vitor Oshiro | Colaborou Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto

Olavo Severino, do DAE, mostra que o rio Batalha está 39 centímetros abaixo do normal pela falta de chuva.

Não é raro encontrar previsões pessimistas de que a próxima Guerra Mundial se dará em torno de um bem que, por muitos anos, pareceu infinito: a água. Em Bauru, um conflito bélico ainda está longe de acontecer, porém, a falta de abastecimento sentida nos últimos anos e agravada recentemente é preocupante. O problema atinge toda a cidade, desde a área sul abastecida pela captação do rio Batalha até o restante do município, que sofre com a falta de, no mínimo, sete poços.

Nos últimos dias, inúmeros bairros da cidade têm sofrido com falta de água. Até mesmo pessoas que moram a poucos metros do prédio do Departamento de Água e Esgoto (DAE). As reclamações vêm de moradores da Vila Dutra, Vila Cardia, Jardim Higienópolis, Beija-Flor, Altos da Cidade, Vila Souto, Bauru 16, Parque Real, entre outros.

O quadro, que não tem previsão para melhorar tão cedo, é uma miscelânea da falta de estrutura e investimentos do DAE e, parcialmente, da estiagem. A autarquia constantemente aponta que a falta de chuvas é a causa a insuficiência do abastecimento. O fato é concreto, porém, para parte da cidade.

Segundo dados do próprio DAE, a água captada no rio Batalha é responsável por 40% do abastecimento. Desse modo, essas pessoas, que moram na zona sul da cidade, seriam as que sofreriam com a falta das chuvas. O que realmente está ocorrendo.

Entretanto, a explicação não se encaixa para toda a cidade. Na verdade, o que tem causado os problemas no abastecimento desses locais é a insuficiência e problemas nos poços para tirar água do Aquífero Guarani.

A autarquia e o prefeito Rodrigo Agostinho argumentam que um problema influencia no outro. Porém, o fato é que o abastecimento que vem do Batalha, na zona sul, não “conversa” com o que é feito por meio dos poços.

O sistema de abastecimento, desse modo, poderia ser dividido em duas grandes partes. A primeira com a captação do Batalha, responsável pela água de aproximadamente 137,6 mil bauruenses. A outra pelos poços, que suprem 206,4 mil pessoas.

O próprio prefeito confirma que faltam, no mínimo, sete poços em Bauru. De acordo com o DAE, são 29 espalhados pela cidade. Segundo o diretor da Divisão de Produção e Reservação da autarquia, Igor Fournier, dois desses poços, localizados na Vila Cardia e Marabá, provavelmente estarão funcionando até o fim deste ano.

 

Demanda

Ao contrário do argumento utilizado sobre a relação do nível do rio Batalha com o abastecimento de toda a cidade, a estiagem somente influencia em uma área maior do que a zona sul, uma vez que o calor aumenta a utilização da água.

Por isso, a recomendação do DAE é evitar desperdícios (leia mais abaixo). Ontem, não faltaram queixas à autarquia. Por conta da grande insatisfação e reclamação dos bauruenses, Igor Fournier explicou que os técnicos estavam trabalhando no limite máximo para tentar solucionar os problemas.

Preocupado com a questão, o prefeito Rodrigo Agostinho se reuniu em seu gabinete com o presidente da autarquia, André Andreoli, na tarde de ontem. “Em médio prazo, a solução está na instalação desses poços que estão faltando. Agora, em curto prazo, só a chuva pode melhorar a situação”, aponta o prefeito.

 

Em falta, água em caminhão-pipa tem cobrança de taxa pelo DAE

Ontem, uma comerciante, que preferiu não ter o nome revelado, teve que, literalmente, arcar com os prejuízos provocados pela falta de água em Bauru. Após solicitar um caminhão-pipa ao Departamento de Água e Esgoto (DAE) para manter seu estabelecimento, localizado no Jardim Higienópolis, ela precisou pagar R$ 209,01 pelo serviço.

“Eu não posso ficar sem. Dependo da água em tudo. Foi uma surpresa ter que pagar. O desabastecimento não é nossa culpa. Liguei no DAE e disseram que não tem previsão. Se eu for ter que pagar todo dia, estou avaliando se vale a pena abrir mesmo o bar” desabafa.

No sábado, o local já sofreu com o problema. Segundo a proprietária, gerou inclusive uma situação bastante desagradável. “Como o bar estava lotado, o garçom teve que pedir uma bacia de água para o vizinho. Foi nessa bacia que lavamos os copos”.

A reportagem apurou que outros estabelecimentos também tiveram que pagar pelos caminhões-pipas. Na noite de ontem, o diretor da Divisão de Produção e Reservação da autarquia, Igor Fournier, foi procurado pela reportagem para explicar a cobrança. Porém, ele disse que não conversaria naquele horário, por volta das 21h30.

 

Nível do Batalha está abaixo do normal

Apesar de corresponder ao abastecimento de 40% da cidade, a captação do Rio Batalha realmente está prejudicada nos últimos dias. Na normalidade, o nível do rio é de 2,60 metros. Hoje, segundo o Departamento de Água e Esgoto (DAE), esse nível está em 2,21 metros, ou seja, 39 centímetros abaixo do ideal.

O diretor executivo do Fórum Pró-Batalha, Eliel Pacheco Júnior, explica que, em períodos de estiagem, a captação da água realmente diminuiu. Segundo ele, outro problema é que, em vários locais antes da lagoa de captação, há grandes áreas de brejo.

“Com a estiagem, as nascentes acabam minando bem menos água do que o normal. E o problema se agrava pois há muitas áreas degradadas antes de chegar à captação. O leito do rio é um exemplo disso. Existem muitas áreas de taboa que dificultam a água de chegar à captação”, completa Pacheco.

Sabe-se que, com o nível do rio abaixo do normal, a captação de água para o abastecimento diminuiu, entretanto, o DAE não divulgou a estimativa de quanto seria esse volume captado.

 

Mais desabastecimento

Hoje, entre meio-dia até o final da tarde, os bairros Jardim Bela Vista, Vila Seabra e Vila Lemos poderão sofrer ainda mais com problemas no abastecimento de água. Segundo a assessoria de comunicação do DAE, dessa vez, a “causa” é a CPFL.

Como haverá a suspensão da energia elétrica na região do Jardim Bela Vista, o poço denominado Padilha (UP-09), localizado na rua Antonio Padilha, 1-95, deixará de captar água durante o período. Por isso, a recomendação é que se economize ainda mais.

 

Desperdício

O DAE solicita aos consumidores do município que economizem água, evitando, por exemplo, lavagem de calçadas e quintais. A autarquia orienta também para que sejam revistas as caixas d’água dos imóveis de acordo com as suas necessidades, na proporção mínima de 500 litros por dormitório, visando suportar períodos de interrupção no fornecimento de água devido a manobras e manutenções no sistema.