São Paulo - Um magistrado do Rio processa o condomínio onde mora para ser chamado de "doutor" pelo porteiro. Outro, de Franca, manda prender um policial de trânsito que lhe repreende por falar ao celular no volante. Um procurador de São Paulo ameaça prender uma aluna que questiona seus métodos em aula.
Comportamentos como esses envolvendo autoridades brasileiras são tão comuns que se tornaram alvo de um trabalho de uma associação dirigida por juízes, promotores e advogados espíritas. "Há um problema comportamental que envolve vaidade e prepotência", afirma o promotor Tiago Essado, presidente da Associação Jurídico-Espírita (AJE) do Estado de SP).
Desde 2009, a associação promove palestras e videoaulas para tentar ensinar aos colegas como lidar com seus cargos tão poderosos sem ser absolvidos por eles.
A tarefa não é simples. Especialistas dizem que a sensação de poder chega a provocar prazer.
Essado estima que cerca de cem juízes e promotores já tiveram a aula "O Exercício da Autoridade com Humildade". A AJE, que também defende o uso de cartas psicografadas em processos judiciais, tem mais de 400 associados. As palestras presenciais são gratuitas. A videoaula é vendida pelo site (www.ajesaopaulo.com.br).
O maior público é de alunos de direito. A associação visita universidades levando a mensagem e calcula ter atingindo cerca de 1.000 estudantes pelo país. Para especialistas, esse é o melhor público para ser abordado.
Um dos principais palestrantes é o juiz Donizete Aparecido Pinheiro da Silveira, 55, de Marília. Na videoaula, o magistrado aconselha que a humildade seja treinada. "Mesmo que em um primeiro momento a humildade pareça falsa, é preciso insistir."
O magistrado pode até resistir em deixar o cargo, explica, mas esse dia vai chegar até porque existe um mecanismo legal para "expelir" os resistentes, chamado "expulsória". "Quando completa 70 anos, ele entrega a toga e coloca pijamas", completa o magistrado. Também argumenta que as autoridades não têm o poder que elas acreditam ter: a força é da lei.
À reportagem, Silveira diz que a intenção do trabalho não é ensinar, mas argumentar que é possível se exercer a autoridade com humildade.