08 de julho de 2026
Ciências

Animais têm alma? Ciência e histó


| Tempo de leitura: 4 min

Quando a velhice chegava, os cidadãos eram estimulados pela mídia a desistir. Havia um serviço de recepção e morte para os idosos, ou mesmo jovens, que quisessem morrer! Providenciava-se o suporte burocrático, as despedidas, e ao chegar-se até a empresa escolhia o menu das últimas cenas a serem vistas em um telão de imagens perfeitas, quase que tridimensionais. Eram paisagens lindas, animais maravilhosos e cenas urbanas e rurais de muita paz e alegria. À medida que os minutos passavam, automaticamente os sentidos se esvaíam com a morte.

Alguns preferiam a morte mais precoce, pois o mundo poluído e cinza deixava quase todos saudosos e deprimidos. Os curiosos perguntavam do que eram feitas as rações oferecidas, visto que comida natural praticamente não existia, apenas os bilionários tinham condições de adquiri-la. Os biscoitos de ração permitiam a vida, provavelmente pelo forte conteúdo proteico. Depois de muita luta e mortes descobriu-se que as rações era de carne e ossos dos humanos que se entregavam por "opção". Assim terminou o filme.

Você comeria carne de proveta? Poderíamos fazer músculos e tecidos associados em laboratórios como produto de cultura de células. Elas teriam o mesmo teor proteico, calórico e nutritivo da carne natural. Seria esterilizada, livre de doenças e manipulada com o maior rigor. Poderia imitar a carne natural em pedaços, bolachas e salsichas: por que não! Comemos até animais! Da mesma forma comemos vegetais produzidos em laboratório. Temos tecnologia para isto.

Em Barcelona, na Catalunha, nesta semana foi a última tourada, abolida pela crueldade com os animais, mas principalmente por representar fortemente uma tradição espanhola, um sinal de ocupação. Os rodeios em algumas cidades estão proibidos pela tortura que representam aos animais. Poderíamos descrever a pescaria como uma arte de asfixiar os peixes pela falta de ar, depois introduzidos por instrumentos pontiagudos em suas mandíbulas? E a matança de bovinos em fila indiana à espera do momento final: o que pensam nesta hora!? E os cordeiros!

Há séculos o homem, em função de crenças e interesses comerciais, lúdicos, gastronômicos e científicos sente prazer em perseguir, prender, torturar e matar outras espécies. O Professor Laerte Levai, coordenador do Núcleo de Direitos Animais do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP, chama isto de "cultura da violência". Em suas declarações à mídia destaca: Se os animais são suscetíveis à dor e ao sofrimento, como a ciência já demonstrou, por que desconsiderá-los moralmente? Maltratá-los ou torturá-los seria agir com preconceito e reduzir os conceitos de ética e justiça.

Para a pesquisadora Soraya Lysenko os animais foram tratados como fonte de alimento desde a era Paleolítica e domesticados para auxiliar o homem na sobrevivência, mas são mantidos em cativeiro para estudos e entretenimento em zoológicos, reprodução em massa e empalhados para coleções em museus e estudos científicos. Sim podemos dizer que os animais são escravizados e maltratados pelo homem, mas a constituição federal no artigo 225 impede a submissão de animais à crueldade. A lei federal 11.794/09 ou lei Arouca regulamenta o uso de animais em pesquisas, mas ainda se faz muita crueldade e torturas aos animais em nome da ciência.

Nos preparativos do 5º Seminário sobre Ética e Direito Animal realizado em setembro em São Paulo, Bruno Muller afirmou que existe um conflito de direitos entre animais e o homem. Para ele, embora pessoas entendam que tem o direito de comer, explorar e usar animais como cobaias, esse "direito" não é absoluto e se mostra tão "válido" quanto o direito de matar, escravizar ou torturar um ser humano. Para ele os interesses dos homens não podem prevalecer sobre o direito fundamental que os animais detêm de preservação das faculdades que lhes permitam viver e aproveitar sua vida.

As reflexões sobre o que fazemos como espécie com os animais me leva a questionar: será que os animais tem alma? Ao expor esta minha dúvida ao amigo, ele me disse: pare de pensar nisto, claro que não têm alma. A segurança foi tanta que nem retruquei, mas a minha memória resgatou uma situação vivenciada por muitas décadas: o homem branco afirmava com o apoio dos "iluminados" de plantão que os negros e os índios não tinham alma, sendo por isto permitido que os escravizassem e fossem tratados como animais, uma verdadeira afronta à humanidade!

Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC