O fim de um mistério e o início de outro. É isso que simboliza a identificação dos dois corpos encontrados na última segunda-feira com as gargantas cortadas em um depósito clandestino de lixo em Bauru. Como não possuíam antecedentes criminais e foram descritos como tranquilos (leia mais abaixo), o duplo homicídio com requintes de crueldade intriga ainda mais as investigações.
Os corpos foram localizados no depósito que fica entre os bairros Jardim Gasparini e Parque Pousada. Ontem, o patrão de ambos os reconheceu no Instituto Médico Legal (IML) de Bauru. Uma das vítimas é Gelson de Oliveira Sales, 46 anos, e o outro é Marcelino Fernandes, 47.
Ambos era amigos e vieram de Promissão (120 quilômetros de Bauru) para trabalhar como ajudante geral na construção de um condomínio residencial no Jardim Terra Branca.
Segundo o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, a identificação representa um grande passo para as apurações. Entretanto, se o mistério das identidades das vítimas fora solucionado, iniciou-se outra grande interrogação. Ao contrário do que a forma cruel como foram mortos indicava, ambos parecem não ter qualquer ligação com o mundo do crime.
“Eles não possuem quaisquer antecedentes criminais. E, pelo que apuramos até agora, pareciam ser duas pessoas bastante tranquilas”, explica o delegado.
Desse modo, o mistério sobre o que motivou o crime continua. Além de marcas de tortura e outras perfurações pelos corpos, os dois tiveram as gargantas cortadas. Eles estavam com camisetas amarradas na cabeça, cobrindo os olhos, e, segundo a polícia, foram lavados antes de serem desovados no depósito.
“Como eu tinha dito desde o início, o crime é muito incomum e bastante preocupante. Descobrir quem são as vítimas é muito importante. Porém, o fato de eles não terem qualquer RDO (Registro Digital de Ocorrência) deixa o caso ainda mais misterioso”, afirma Kleber Granja.
A reportagem apurou que eles não trabalhavam na obra há mais de uma semana. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Bauru e Região, as duas vítimas, juntamente com cerca de 25 outros operários haviam sido demitidos da obra. “Eles estavam esperando o acerto, que acabou saindo hoje (ontem)”, conta a advogada do sindicato, Wiliana Oja, completando ainda que “notou a falta dos dois nas reuniões sobre o acerto”.
Por conta disso, na obra em que estavam trabalhando, ninguém se lembra - ou quer se lembrar - dos dois. Segundo vários operários questionados pelo JC, a rotatividade é muito grande e, desse modo, não é possível memorizar todos.
Alojamento
Quando saíam do trabalho, Gelson Sales e Marcelino Fernandes ficavam com os outros operários da obra em uma residência alugada na quadra 8 da avenida Aureliano Cardia, no bairro Vila Monlevade.
Ontem, como havia saído o acerto, muitos já tinham ido embora do local. Um dos trabalhadores - que pediu para ter a identidade preservada -, porém, permitiu que a reportagem entrasse no imóvel. Ele, inclusive, mostrou o cômodo em que as duas vítimas do crime dormiam.
“Eles ficavam nesse quarto aqui fora. Acabavam ficando separados porque fumavam”, conta o homem, mostrando um pequeno quarto com prateleiras improvisadas e muitas garrafas.
Em relação ao temperamento de ambos, o homem conta que eles eram bastante tranquilos. “Eles eram um pouco fechados, mas eram gente boa. Ficavam na deles. Eu não via eles há alguns dias já. Mas não dá sequer para imaginar o que tenha motivado isso (o crime)”, relembra o colega de trabalho.
No imóvel, havia ainda muitos objetos dos trabalhadores. Segundo a DIG, será realizada hoje uma perícia na casa. “Iremos passar o luminol (substância química que reage com a hemoglobina) para ver se encontramos vestígios de sangue”, informa o delegado Kleber Granja.
Vítimas gostavam de cachaça e sinuca
Em um bar nas proximidades de onde estavam alojados, Gelson Sales e Marcelino Fernandes eram rostos conhecidos. Segundo o dono do estabelecimento - que preferiu não se identificar -, ambos gostavam de uma “cachacinha” e de jogar sinuca.
“Quando eles pararam de trabalhar, ficavam o dia inteiro aqui. Adoravam uma cachacinha. Mas parecia ser bem tranquilos. Nunca arrumaram confusão alguma”, conta o proprietário, dizendo que, ao ler as notícias do duplo homicídio, chegou a suspeitar de que se tratava da dupla.
Depois de ouvir a descrição, um outro frequentador do bar se lembrou das vítimas. Segundo ele, “um com a camiseta do Palmeiras (a mesma com a qual ele foi encontrado morto) era muito bom na sinuca”. “Joguei com ele e ele ganhou de mim. Pareciam ser bem gente boa”, lembra o homem.
O proprietário conta que, no domingo - um dia antes de os corpos terem sido localizados -, um dos trabalhadores foi até o bar e pediu um frango. “Eles estavam comendo sempre aqui. No domingo, como não sirvo marmitex, ele veio aqui e pediu um frango. A empreiteira falou que podia servir, que iriam acertar a conta depois”, afirma.
Questionados sobre o que teria culminado em um crime tão brutal, todos que os conheciam foram unânimes em reiterar a tranquilidade aparente das vítimas e, assim, ampliar o mistério.
Desatando ‘nós’
Um nó de cada vez. É essa a metáfora que o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, enxerga nas investigações sobre caso. Segundo ele, o primeiro nó já foi desatado, que era conseguir a identificação das vítimas.
“Agora, iremos fazer todas as diligências possíveis”, explica o delegado, afirmando que as esperanças de desatar os próximos “nós” estão na perícia do local onde eles moravam e em ouvir pessoas ligadas às vítimas, como os empregadores e familiares.
Familiares
Assim que o patrão de Gelson Sales e Marcelino Fernandes fez o reconhecimento no Instituto Médico Legal (IML), a Delegacia de Investigações Gerais foi acionada. Os policiais, então, avisaram por telefone os familiares das vítimas, que estavam em Promissão. Segundo o delegado Kleber Granja, eles ficaram chocados e viriam somente hoje para Bauru. Entretanto, alguns contatos do JC na cidade foram até os respectivos endereços. As casas estavam vazias e, segundo vizinhos, as famílias teriam vindo ontem mesmo reconhecer os corpos. No começo da noite, o delegado não sabia se já estavam em Bauru.
Convite fatal
Apesar de ainda não saber as causas do crime , segundo a polícia, foi a oportunidade de trabalho que começou a desenhar o cenário. Marcelino Fernandes teria chegado há quatro meses para trabalhar. Dois meses depois chamou o amigo Gelson Sales. Agora, ambos foram encontrados mortos juntos.