Há um surto inflacionário no mundo inteiro e o Brasil começa a sentir o sopro deste vento contra, antecipando as dificuldades que devemos ter para chegar ao final do ano sem ultrapassar o limite superior da nossa meta de inflação de 6,5%. O Banco Central aceita o risco de uma pequena ultrapassagem, mas em nenhum momento admitiu mudar o núcleo da meta de 4.5% para 2012 ou o abandono da atual política monetária. Alexandre Tombini, presidente do Banco, tem dito que há uma boa probabilidade da taxa de inflação encerrar o ano um pouquinho abaixo do topo da meta. Não é uma situação confortável, mas não é nada dramático, até porque o ritmo do crescimento dos preços está arrefecendo e a taxa deverá cair nesses três últimos meses de 2011 de forma a entrarmos o novo ano com a perspectiva renovada de poder atingir o centro da meta no final de 2012, de acordo com as previsões do governo.
Em outubro, novembro e dezembro do ano passado, as taxas de inflação se mantiveram ao redor de 0.7%, um pouco acima, um pouco abaixo. A média este ano está um pouquinho abaixo disso, de forma que ao substituir as taxas nos três últimos meses de 2010 pelos correspondentes em 2011, provavelmente vamos ter uma queda no ritmo do crescimento da inflação em 12 meses, o que permitirá terminar o ano tangenciando o limite da meta, talvez sem furar o teto. Mesmo que isso aconteça não se trata de nenhuma tragédia, comparado com o que se poderia esperar diante desse aumento das tensões mundiais. No meu entendimento a política está na direção correta, pois se preferiu colocar a ênfase no crescimento da economia, admitindo que as taxas de inflação possam cair com menor velocidade, mas sempre fazendo convergir para a meta de 4,5% em 2012. O trabalho do governo para não deixar o crescimento desacelerar é de fundamental importância para manter baixo o índice de desemprego, dado que a Presidente Dilma está consciente que não há nada mais injusto numa sociedade do que impedir as pessoas de ganharem o seu sustento e o de suas famílias com o fruto do seu trabalho.
Basta olhar o mundo a nossa volta e acompanhar o crescimento da revolta dos desempregados gregos, espanhóis, irlandeses e islandeses, franceses e portugueses e mais recentemente os milhões de homens e mulheres que sempre encontraram nos Estados Unidos ambiente propício ao trabalho e que agora se desesperam com a privação de suas rendas e a destruição de seus sonhos, mesmo podendo recorrer provisoriamente ao seguro-desemprego. Não são poucos os brasileiros nessas condições na América, como as redes sociais e às vezes as TVs têm mostrado. Temos que continuar atentos ao objetivo principal que é manter a atividade econômica sustentada, garantindo a oferta adequada de crédito à produção agrícola e os financiamentos à indústria e ao comercio. É a forma correta de evitar que se concretizem as previsões alarmistas de redução da taxa de crescimento do PIB para menos de 3% e queda consequente dos níveis de emprego nos primeiros meses de 2012. O controle da meta de inflação é sempre uma tarefa difícil. Por isso mesmo é preciso apoiar o grande esforço fiscal que o governo está fazendo, com resultado e, ao mesmo tempo, cobrar as reformas microeconômicas que tornem mais eficiente o serviço público.
O autor, Antônio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC