|
|
“O Google é meu pastor e nada me faltará”. Essa paródia da frase bíblica exemplifica exatamente o valor que a chamada geração Z - aqueles nascidos a partir de 1993 - dá à facilidade de conseguir informações pela Internet. Porém, por mais avanços que surjam e quanto maior é o universo informacional disponível na rede, uma figura que comemora seu dia hoje continua sendo o centro de todo o processo educacional: o professor.
Maurício Eduardo Quagliato leciona física e confirma isso. Segundo o professor, há uma grande gama de informações disponível, entretanto, ele faz a ressalva de que informação é diferente de conhecimento. “Depois das tecnologias, realmente ficou mais fácil acessar a informação. Mas, o professor é aquela figura que transforma a informação em conhecimento”, conta.
Mas como fazer para lidar com alunos tão bem informados? Segundo Quagliato, para conseguir fazer as conexões que transformam a informação solta em conhecimento, é fundamental partilhar também dessas novas tecnologias. “Aquele que é tecnofóbico está perdido. É preciso saber usar os avanços em prol da educação. Às vezes, um vídeo do Youtube que eu mostro na aula consegue ilustrar muito mais do que tudo que eu falo”, informa.
O professor de língua portuguesa Sinuhê Daniel Preto confirma essa realidade. Ele, inclusive, dá aulas em uma instituição que distribui um tablet para cada aluno.
Em realidades como essa, os professores precisam se aperfeiçoar ainda mais. Com isso, além dos problemas que a própria profissão carrega ao longo dos anos (leia mais abaixo e ao lado), os profissionais ainda precisam estar cada vez mais preparados para alunos que, em unanimidade, portam um ou mais celulares e possuem acesso fácil à Internet.
“No começo, isso assustou um pouco. Teve uma vez que eu estava declamando um poema em sala de aula e uma aluna acompanhava o mesmo poema pelo tablet. Se eu errasse, ela veria na hora. Mas isso precisa se tornar um incentivo aos professores se prepararem melhor para a aula”, explica.
Além do conhecimento acadêmico, os professores se tornaram protagonistas de um cenário social diferente que, nesta geração, passou a fazer parte do processo educacional. Segundo Maurício Quagliato, a família delegou à escola o papel de educador social também.
“Hoje, vivemos um comportamento social desajustado. Então, acabamos recebendo essa função de educar socialmente. Essa missão, que antes era da família, passou agora para nós”, conta.
Recompensa
Lidar com o desafio das novas tecnologias, transformar a amplitude de informação da geração Z em conhecimento e ainda educar socialmente. Missões bastante difíceis em meio a uma remuneração econômica que, na maioria dos casos, é precária. Então, o que o professor teria a comemorar hoje? Para todos, a própria profissão é a maior recompensa.
“Por mais que o tempo passe, você é sempre professor. No mercado, na rua, em uma festa. Em todo lugar, você é o professor. Acaba perdendo o nome e a identidade. Esse ‘ser’ professor é muito gratificante”, diz Sinuhê Daniel Preto.
Ele explica que sua meta pessoal é conseguir mudar pelo menos um aluno por ano. E, nessa tentativa, muitos acabam até virando amigos. “Já fui convidado por alunos para ser padrinho de casamento e de crianças. Afora o fato que lidar com jovem rejuvenesce. Sabemos que já marcamos a vida de vários, mas com certeza, muitos marcaram a nossa vida também”, relembra, bastante emocionado, Sinuhê Preto.
Luta por salário
Com a missão difícil de ser o cerne do processo educacional, o professor, principalmente da rede pública, não recebe financeiramente o devido valor. Segundo a diretora estadual da Associação dos Professores de Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Susi da Silva, um docente que leciona do primeiro ao quinto ano, com 30 horas semanais, ganha cerca de R$ 900,00. De sexto ao nono ano, a remuneração sobe para, aproximadamente, R$ 1,2 mil.
Com esses baixos valores, a reivindicação da associação é de aumento salarial de 36,5%. “Esse valor seria a reposição dos últimos 10 anos. Por todo esse tempo ficamos sem reajuste. Nem mesmo a inflação foi acertada”, conta.
Entretanto, foi conseguido este ano apenas 13%. “Desse aumento, 5% era de um bônus que já tínhamos direito. Então, foi conseguido somente 8%”, explica a diretora da associação.
Ainda de acordo com ela, o governo acabou cedendo um aumento de 42%, porém, parcelado em quatro anos. “Mesmo com todos esses problemas, ninguém deve parar de lutar. Os professores não devem desistir, pois o papel social que eles exercem é mais do que fundamental”, completa Susi da Silva.
Desvalorização
O professor de língua portuguesa Sinuhê Daniel Preto conta que fez uma pesquisa recente com cerca de mil alunos e somente seis deles disseram que queriam ser professores. “E quatro queriam dar aulas em faculdade”, conta. Para ele, tal desvalorização, que já teria atingido todas as esferas, começa com os próprios professores.
“Eu já vi camisetas escrito ‘Sou professor. Não me sequestre’. Isso desvaloriza a profissão. Se os próprios professores não dão valor, como outros irão dar? O profissional, que sabe da sua missão e da importância, precisa é ressaltar os valores”, destaca Sinuhê Preto.