08 de julho de 2026
Bairros

Costureiras resistem ao tempo

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Uma senhora de meia idade, falante, que anda para lá e para cá com uma fita métrica pendurada no pescoço e passa boa parte do dia tirando medidas, cortando tecidos e se escondendo por trás de uma barulhenta máquina de costura. Esta é a figura que invade o imaginário das pessoas quando se fala em costureiras.

O estereótipo tem justificativa: a costureira, especialmente aquelas que trabalham em oficina própria, nos bairros, e para clientes particulares, é uma das profissões mais antigas ainda em prática. Agulhas primitivas, feitas com ossos e marfim, encontradas por pesquisadores denunciam que há cerca de 30 mil anos o ser humano já exercia o ofício de cozer roupas. Elementos que somados agregaram à profissão um certo ar de antiguidade.

Mas não é preciso voltar tanto assim no tempo para recordar desta cativa figura. Quem nunca acompanhou a mãe ou a avó em uma incursão à oficina destas profissionais?

Contudo, o avanço tecnológico, a busca pela produção em larga escala e em ritmo alucinante, e a facilidade em comprar roupas prontas, por muito tempo colocou as costureiras na lista de profissões em extinção.

“Coisa mais difícil é encontrar uma costureira que seja boa e esteja disponível para fazer o trabalho que você precisa. De um tempo para cá, elas desapareceram. Muitas, inclusive, deixaram de costurar e, atualmente, só fazem conserto”, conta Maristela de Souza Silva, 45 anos, que, sempre que tem a oportunidade, opta por comprar tecidos e levá-los a uma costureira.

O custo da roupa, a exclusividade do modelo e da estampa, além do fato da peça ser feita sob medida, justificam a preferência de Maristela pelo serviço destas profissionais.

“Você vai a qualquer lugar tranquila porque sabe que não vai ter ninguém com a mesma roupa”, explica, rindo.

A boa notícia é que, assim como Maristela, muitos jovens também lamentam a falta que estas profissionais fazem no mercado e mais: enxergaram o quadro como uma oportunidade de sucesso no mercado de trabalho.

No Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Bauru, por exemplo, a procura pelos cursos de costureira e piloteira, modelagem para iniciantes, modelagem malharia, modelista assistente e mulagem, aumenta cada vez mais.

“De uns cinco anos para cá, nota-se que as pessoas estão em busca de peças exclusivas, confortáveis, feitas sob medida e que agreguem conceitos como o de sustentabilidade, por exemplo. Ao mesmo tempo, o mercado está carente de costureiras que façam este papel. Esta soma representa oportunidade de trabalho para muitos jovens”, explica Valéria Pelegrina, professora de modelagem do Senac.

 

Tempos modernos

Sim, os jovens são a promessa de salvar da extinção a boa e velha costureira especializada em fazer roupas personalizadas e sob medida. Mas, como de costume, não espere que eles usem métodos tradicionais para fazer isso. Talvez, nem a fita métrica, tradicionalmente pendurada no pescoço, sobreviva.

Isso porque os futuros costureiros contam com um elemento surpresa para ajudá-los nessa missão: a tecnologia.

“Atualmente, ser costureira é bem mais que saber cortar um tecido e emendar suas partes. Houve a profissionalização do segmento e uma série de elementos colabora com o aperfeiçoamento da profissão”, explica Valéria Pelegrina, professora de modelagem do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).

Um exemplo é a variedade de cursos oferecidos para quem deseja seguir na área. No Senac, por exemplo, existem os cursos de costureira e piloteira, destinado a quem pretende trabalhar com maquinário industrial; de modelagem para iniciantes, que ensina a confeccionar o molde para roupas; de modelagem malharia, também destinado à produção de peças exclusivas; de modelista assistente, voltado para atuação na indústria; e de moulage, que ensina a modelar peças com auxílio de um computador e manequins.

“A costureira autodidata, que herdou a profissão da mãe, está saindo de cena para dar lugar a profissionais mais técnicos e alinhados com a tecnologia”, destaca Valéria.