09 de julho de 2026
Bairros

Aviamentos, tecido e tesoura alinhavam um mundo de possibilidades

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

Tecendo fantasias

Fita métrica, tecidos variados, tesoura, botões, linhas e uma boa costureira. Com a soma destes elementos é possível obter luxuosos vestidos, roupas esportivas ou casuais, pijamas e até toalhas de mesa. Isso, é claro, se a costureira em questão não for Catarina Villagrand, 51 anos, mais conhecida como Catia.

Não que ela seja incapaz de dar forma às peças descritas acima. Pelo contrário: fez cursos e foi treinada para isso. Contudo, optou por se dedicar a um ramo exótico da costura: o da confecção de roupas para cosplayers.

“É isso mesmo. Transformo tecidos em figurinos para pessoas que encarnam personagens de desenhos animados, filmes, mangás e animes, os chamados cosplayers”, explica.

Tudo começou há cinco anos, quando os seis filhos de Catia decidiram participar de um concurso de cosplay e, frente ao alto custo das fantasias, pediram que a mãe confeccionasse os figurinos.

“Achei estranho. Primeiro porque não era época de Carnaval. Depois, porque todas as roupas eram de personagens. Mas, para ajudá-los, acabei fazendo. Com o tempo fui me aperfeiçoando e passei a costurar cosplayers para fora”, conta Catia, que chegou a ter uma loja do ramo em Porto Alegre, onde morava.

Mas Catia não se contentou com os bastidores e logo assumiu o papel de protagonista dos festivais de cosplay. É que depois de tornar-se a costureira oficial das fantasias dos filhos, Catia decidiu participar também.

“Fiz para mim a roupa da senhorita Clotilde, mais conhecida como Bruxa do 71. Foi um sucesso. Tanto é que hoje sou conhecida no meio como Catia Bruxa do 71”, orgulha-se ela, que chegou a representar o estado do Rio Grande do Sul em um concurso nacional de cosplay.

Além disso, Catia e sua máquina de costura já deram vida a personagens como Rita Repulsa, dos Power Rangers; Úrsula, da Pequena Sereia; o Vingador; e até à bondosa vovó protetora do Piu-piu, do desenho animado Piu-piu e Frajola.

 

Alta e rara costura

Costurar é um talento que está no sangue de Luzia Genovez Pini, 61 anos. Filha, sobrinha e neta de costureiras, Luzia cresceu vendo as mulheres da família zigue-zaguearem com a máquina de costura, trocarem retroses e mais retroses de linha e desmanchar uma peça quase pronta se fosse preciso até que a costura saísse perfeita.

Foi aos 12 anos, nas férias de janeiro, que Luzia manejou pela primeira vez uma máquina de costura.  Aproveitou o recesso escolar para frequentar a escola da tia. Ficou lá por apenas dois meses e já era capaz de fazer suas próprias roupas.

Já a perfeição, pré-requisito necessário para a alta costura, Luzia aprendeu com o tempo.

“Sempre que eu estava com um vestido novo, feito por mim, a mãe de uma colega minha fazia questão de elogiar. Mas era engraçado porque ela dizia ‘olha, que vestido lindo’, e corria virar a barra do avesso, para ver se a costura estava bem feita. Só depois da inspeção ela encomendava uma peça igual para a filha”, lembra Luzia, rindo.

Embora fosse apaixonada pela costura, Luzia acabou tornando-se professora, profissão em que se aposentou aos 45 anos. Depois disso, abriu um atelier na Vila Mariana e foi fazer o que realmente gosta: costurar.

O perfeccionismo herdado da família e os comentários da mãe de sua colega tornaram Luzia apta para trabalhar em um dos segmentos mais nobres da profissão: a alta costura, ramo que hoje conta com poucas profissionais e tem grande demanda.

“Começo a trabalhar às 6h e, geralmente, vou até às 23h. Atualmente, 95% das encomendas que recebo são de roupas de festa, incluindo vestidos de noiva. Por conta da demanda, infelizmente, tem época que chego a recusar trabalho”, lamenta.

O motivo para tanto sucesso, Luzia tem na ponta da língua: é o capricho, o olhar crítico e a coragem para enfrentar desafios.

“As clientes buscam uma costureira quando precisam de uma peça exclusiva, de boa qualidade, que lhes caia perfeitamente. Então, essa é minha missão”, resume. “Hoje, sou eu quem vira a barra das roupas em busca de defeitos”, conta, rindo.

 

Nada que um ajuste não resolva

Comprou um terno e achou que sobrou pano nas mangas? Emagreceu alguns quilos e está com medo de perder aquele vestido maravilhoso que está no guarda-roupa desde o verão passado? Vai a uma festa e quer dar uma modernizada no abada? Não se desespere! Maria Oliveira, 62 anos, mais conhecida como Pet, pode dar um jeito em tudo isso.

“Em se tratando de conserto de roupas, sou a famosa faz tudo. Arrumo de terno à abada”, afirma Pet, costureira especializada no conserto de roupas. “E quando o terno é muito chique, reconheço só de olhar. Daí nem quero saber o preço para não ficar com medo de passar a tesoura nele”, brinca, rindo.

Assim, como a maioria das profissionais de sua área, Pet aprendeu a costurar ainda jovem, quando tinha 23 anos. Depois disso, trabalhou em várias empresas e, há cerca de 18 anos, optou por parar de confeccionar roupas e dedicar-se exclusivamente aos consertos.

A escolha tem justificativa. Pet acredita que o trabalho de confecção lhe causa mais mão de obra e menos prazer.

“Primeiro o cliente traz o pano. Depois, tira a medida. Na sequência, vem fazer várias provas. E quando a roupa está pronta, muita gente reclama do preço. Além disso, me adaptei muito bem aos consertos. Faço com tanto amor!”, conta.

Atualmente, Pet tem uma pequena oficina de costura na sala de sua casa, onde atende clientes particulares. Mas, durante a carreira, já trabalhou fazendo consertos para diversas lojas da cidade.

“Parei de atender lojas por conta da demanda. O volume de consertos é muito grande e o tempo para faze-los é pouco. Era muita correria. Como eu tenho uma clientela boa e grande, preferi desacelerar o ritmo”, explica.

 

Jovens que fazem moda

Independentemente da época, jovens sempre foram apaixonadas por roupas. E mais que isso: sempre buscaram nas peças qualidade, exclusividade, conforto e, é claro, bom preço. Por esses e outros motivos, quando o assunto é moda, as costureiras de bairro sempre fizeram sucesso.

O problema é que, por um bom tempo, sempre existiu mais gente interessada em comprar roupas exclusivas do que em produzi-las e, por esse motivo, as costureiras tornaram-se artigo cada vez mais raro no mercado.

Mas se depender da nova geração e das inovações tecnológicas, este cenário em breve vai mudar.

Prova disso são as jovens Grenda Fernanda Aleixo Cabestré, que completa 19 anos hoje, e Alessandra Akemi Hissatomi, 23 anos. Elas são apaixonadas por moda e já mexeram suas agulhas para se aperfeiçoar na profissão. Atualmente, estão matriculadas no curso de moulage do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), que ensina modelar peças em três dimensões, com ajuda de manequins e de um programa de computador.

“Quanto mais completo for o profissional, mais chances ele terá no mercado. Por isso, me formei em moda, tenho curso de corte e costura e estou cursando moulage”, explica Alessandra, que considera a costura uma necessidade da área.

Grenda Fernanda compartilha da mesma opinião da colega. Apaixonada por estilismo, ela sente a necessidade de trabalhar com o tecido para pôr suas criações em prática e, por isso, considera a costura mais que essencial.

“O mercado da moda, no geral, passa por uma exigência de aperfeiçoamento. As inovações tecnológicas estão aí para ajudar, mas não substituem a necessidade de saber costurar. Ainda mais para os profissionais que, como eu, preferem o trabalho manual, minucioso, exclusivo”, explica.