Olhar sensível inspira contos e histórias
Mulher de semblante calmo, prestes a lançar seu novo livro de contos "Encontros Paralelos", Rosa Leda Accorsi Gabrielli diz que o alinhavo de suas obras é feito, normalmente, por conflitos de relacionamento, idade, casamento... Conflitos do ser humano com o mundo e com a solidão. "Meu primeiro livro, "Contos de Solidão", foi totalmente sobre esse sentimento. Se você conversar com dez pessoas, certamente oito vão deixar escapar a solidão que sentem ou sentiram em algum momento".
Nascida em São Paulo, Rosa veio para Bauru, já casada, no tempo em que a Praça Rui Barbosa ainda abrigava animais. Teve duas filhas e deu continuidade aos projetos sociais que já desenvolvia na Capital: "Ajudar os outros faz parte da natureza do ser humano. A maioria das pessoas é solidária. Isso faz com que você olhe para o lado e estenda a mão para o próximo. Aprendi isso com meus pais", diz.
Sempre inquieta e com os olhos abertos, como ela mesma gosta de dizer, a entrevistada já se aventurou, no passado por uma horta orgânica e montou uma pequena fábrica de brinquedos artesanais: "Eu acho que me precipitei, fui um pouquinho antes do tempo e parei pelo caminho".
Amante do cinema e de viagens, Rosa Gabrielli confessa que seu sonho é conhecer mais e mais lugares e adquirir conhecimento com eles.
Jornal da Cidade ? Quando adotou Bauru com sua cidade?
Rosa Leda Accorsi Gabrielli ? Vim para Bauru quando me casei, no começo da década de 1970. Conheci o Mário em São Paulo. Quando aqui chegamos, moramos perto da Praça Rui Barbosa, na época em que ainda havia bichos por lá. Lembro-me dos patos, jacarés e das barulhentas seriemas. A família de meu marido tinha propriedade rural e tivemos a oportunidade de escolher entre Bauru e Agudos. Ficamos aqui.
JC ? Quando viu despertar o seu dom com as palavras impressas?
Rosa ? Eu escrevo desde criança. Lembro-me que eu escrevia os discursos para minhas amigas que tinham de ser alguma coisa. Também ensinava a Língua Portuguesa para as crianças da minha rua, em São Paulo. Aos 10 anos de idade, eu ganhei um prêmio por ter feito a oração mais bonita no colégio religioso em que estudei. Concorri com os alunos do Ensino Médio e ganhei. Sempre tive jeito, mas não publicava o que escrevia.
JC ? Quando publicou o seu primeiro texto?
Rosa ? Foi em 2008, quando participei da antologia "Livro de Família", onde publiquei dois contos.
JC ? De onde vem sua inspiração?
Rosa ? Minhas inspirações são as mais variadas. Gosto de dizer que basta ter olhos abertos e ouvidos espertos. Se assim for, você vai até a padaria e consegue uma boa história. Então, a inspiração vem de uma coisa que você fala. Eu posso, por exemplo, olhar para você agora, com essa sua carinha e olhos bem redondinhos olhando para mim e, em um determinado momento, a inspiração vem. Às vezes a ideia vem completa, penso em uma história com começo, meio e fim. Outras vezes, a ideia vem pequena e fico pensando em como recheá-la. Recentemente mandei um conto chamado "Os porcos" para um concurso cuja ideia veio de um sonho estranho que meu marido teve e meu contou. Fiquei com aquilo no pensamento e criei um conto sobre o que ele me disse. Isso acontece a todo instante.
JC - "Encontros Paralelos" é sua nova obra.
Rosa ? Isso. O lançamento é nesta quarta-feira, dia 19 de outubro. É um livro composto por 36 contos. Alguns são bem curtinhos feitos por uma ideia que começa e acaba. Outros são mais longos e com diálogos. A estrutura de meus contos normalmente é bem enxuta. Não sei rechear muito, ficar falando do ambiente e dos detalhes das roupas das pessoas. Vou direto ao assunto. O alinhavo entre eles geralmente é feito de conflitos de relacionamento, conflitos de idade, casamento, conflitos com o mundo e a questão da solidão. Meu primeiro livro, "Contos de Solidão", foi totalmente sobre esse sentimento. Se você conversar com 10 pessoas, certamente oito vão deixar escapar a solidão que sentem ou sentiram em algum momento.
JC ? Sei que a prática solidária faz parte de sua vida. Qual é o valor que você atribui a esse trabalho?
Rosa ? Bom, ajudar os outros faz parte da natureza do ser humano. A maioria das pessoas é solidária. Isso faz com que você olhe para o lado e estenda a mão para o próximo. Aprendi isso com meus pais e faço trabalhos voluntários desde a adolescência, quando morava em São Paulo. Já trabalhei em creches e com movimento operário durante a faculdade. Em Bauru, eu trabalhei com as moças da zona do meretrício, as mulheres marginalizadas. Fui do movimento vicentino...O tempo da gente nesses movimentos é limitado porque chega um determinado momento em que você fica exausto porque a ajuda tem de ser constante, você tem de se realimentar constantemente. Assim, eu já me envolvi com uma porção de coisais e também com algumas ações voluntárias que não são de assistência ao próximo. Meu marido e eu fundamos o primeiro cine clube de Bauru, por exemplo.
JC ? Então o cinema é mais do que um hobby?
Rosa ? É uma paixão. O Paulo Neves tinha feito um cine clube durante um tempo, mas desapareceu. Fizemos um curso no Cine Clube Bandeirantes de São Paulo e viemos para Bauru com a ideia. Entre outras pessoas, o Paulo Neves nos ajudou. Eu gosto muito de cinema. Atualmente tenho me apaixonado pelo cinema sul-americano. O cinema argentino é uma delícia, mas também vejo o uruguaio, chileno...Tem um filme argentino chamado "O cachorro" que é maravilhoso.
JC ? Você é formada em direito. Chegou a advogar?
Rosa ? Sim. O engraçado é que hoje eu faço parte da Pastoral da Comunicação da Paróquia São Cristóvão, mas na época em que fui advogada, fui por sete anos, eu não conseguia falar. Na frente do juiz eu conseguia falar apenas: "reitero os termos da inicial" (risos). Com o tempo fui me desembaraçando.
JC ? Tem boas recordações da época em que lecionou?
Rosa ? Eu tenho. Acho que tudo é válido na vida da gente. Nessa época, também montei uma horta orgânica na fazenda da família. Fiz o curso em Botucatu. Primeiro eu virei naturalista e achei que tinha de fazer alguma coisa pelas pessoas, nesse sentido. A solução que encontrei foi produzir alimentos sem agrotóxicos (risos).
JC ? E quanto à fabrica de brinquedos que você montou?
Rosa ? Montei em casa com uma sócia. Eu comprei um pinóquio de madeira e achei que podia fazer aquele tipo de brinquedo. Um marceneiro fazia as peças e eu e minha amiga montávamos, fazíamos as roupas e as expressões do rosto. Começamos com o pinóquio e depois fizemos outros brinquedos educativos. Levávamos para vender nas lojas de brinquedos pedagógicos da Rua Augusta, em São Paulo. Mas não era a época. Era difícil concorrer com as marcas famosas de brinquedos. A mesma coisa aconteceu com a horta orgânica. As pessoas queriam vegetais grandes e bonitos, não entendiam o valor do orgânico. Eu acho que eu me precipitei, fui um pouquinho antes do tempo.
JC ? Hoje gosta de dizer que é escritora e avó?
Rosa ? (Risos) É porque é a isso que eu me dedico atualmente. Atualmente, escrever é um compromisso que tenho comigo mesma. Eu escrevo diariamente. Vou para meu escritório como se fosse um trabalho fora de casa. Quanto aos netos, tenho um e meio (risos). Meio porque o segundo nasce em dezembro. É uma delícia ser avó.
JC ? O que a distrai e a faz feliz?
Rosa ? Uma coisa que eu gosto é de cozinhar para minha família. Eu acho que a cozinha é uma mistura, uma alquimia e você pode deixar uma família alegre ou triste dependendo do que coloca na mesa. Acredito muito que a alimentação cria a harmonia na casa. Meu marido também cozinha muito bem e nos reunimos na cozinha, a família toda junta. Outra coisa de que eu gosto muito é de viajar.
JC ? Já percorreu muitos lugares pelo mundo?
Rosa ? Já, sim, mas não viajei tanto quanto eu gostaria. E não precisa ser viagem de luxo, não. Em 2008, por exemplo, eu fui para as missões jesuíticas. Saí de São Paulo de avião e descemos em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, onde pegamos um ônibus e viajamos não sei por quantas horas. Era um tal de estradas ruins, um entra e sai em lugares sem condições... Foi uma viagem muito simples, mas muito recompensadora. Você já ouviu falar que os judeus na América do Sul eram enterrados em cemitérios indígenas? Como eles eram muito perseguidos, seus túmulos eram violados e eles descobriram que enterrando seus mortos em terras indígenas, territórios que normalmente eram considerados sagrados, as pessoas não desrespeitavam os corpos de seus mortos. Procuro aprender sempre que viajo. Gosto muito dos países da Europa. Já fomos para a Geórgia, Usbequistão... Em 2010, fomos para a Índia e tivemos a oportunidade de ficar uma semana na casa de uma família local. Um rapaz viveu um ano na nossa casa, como intercambista, e nos convidou para o seu casamento. Pudemos conviver com a cultura daquele povo. Foi uma experiência única. Tem tanta coisa para conhecer nesse mundo. Meu sonho é viajar mais, é conhecer o máximo de países possível.