08 de julho de 2026
Articulistas

Queremos o Nobel

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em 110 anos de Prêmio Nobel nunca um brasileiro foi reconhecido por obra de destaque nas ciências, na literatura, na economia ou por seus esforços em favor da paz. Somos a sétima economia do mundo. Entre as maiores empresas do planeta temos várias brasileiras ranqueadas. A Petrobras está no "top ten". Vale, Banco do Brasil, Bradesco e Itau figuram entre os mais endinheirados. Em compensação, a melhor universidade brasileira, a USP, só aparece em 178º lugar e é a única do indexada. Significa que o país enriqueceu, mas o ensino continua precário. Quando se examina a capacidade de alunos de classe elementar de interpretar um parágrafo de quatro linhas, perdemos para os garotos do Paraguai, do Quênia e de outros rincões menos cotados. Temos bancos, soja, carne e outras com-modities, mas não temos uma escola que preste. Nos Estados Unidos, absolutos com 242 Nobel, Steve Jobs criou a empresa de maior valor de mercado no mundo (340 bilhões de dólares) graças à tecnologia. Começou numa garagem com dois mil dólares de capital. Uma excepcionalidade, dirão. Os gênios nem precisam de escola. Também nascem talentos no Brasil. Só que aqui não temos o ambiente voltado à tecnologia que possam inspirá-los. O que há de sobra em Pindorama é futebol, bunda e pandeiro. Se o povo cobrasse dos políticos melhores resultados e posturas éticas, como exige dos atletas da bola, o Brasil seria bem melhor. A marcha contra a corrupção, que deveria arrastar milhões para as ruas, não passou de vinte mil vestidos de palhaços na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Carnaval, este sim, é campeão do mundo.

Nem o IgNobel conseguimos ganhar. O prêmio criado em 1991, em Harvard, primeiro faz as pessoas rir, e depois as fazem pensar. Em setembro foi premiada com o IgNobel a pesquisa de uma universidade canadense sobre a estranha história de amor entre um besouro e uma garrafa de cerveja. O inseto macho tentou, com tanto vigor fazer sexo com a garrafa, que acabou morrendo. Pesquisadores também procuraram uma resposta sobre o fato dos atletas arremessadores de discos ficarem tontos no giro de embalo, o que não acontece com os arremessadores de martelos. Aqui no Brasil poderíamos ganhar o Ig com estudos sobre variações parabólicas de tampas de bueiro e bandejas de restaurantes, sob a ação de explosões de gás. Todos os países do BRICs têm premiados com o Nobel, menos o Brasil. Rússia, Índia, China, mais os emergentes como África do Sul marcam presença. A Argentina ganha da gente de 4 a 0. Os hermanos têm dois de Medicina e dois da Paz. Chile (Gabriella Mistral e Pablo Neruda), México (Octavio Paz), Peru (Vargas Llosa), Colômbia (Gabriel Garcia Marques), Guatemala (Miguel Ángel Asturias e Rigoberta Menchú), Costa Rica (Oscar Arias) completam a lista latina. Para nosso consolo, Peter Brian Medawar, que ganhou Medicina, em 1960, pelos seus estudos sobre transplantes e sistema imunológico, nasceu no Rio de Janeiro. Mas foi só... Estudou desde criança em Londres. Nossa esperança concentra-se em Luiz Ignacio Lula da Silva, o cara que acabou (ou quase) com a fome no Brasil. Nos Estados Unidos uma fundação acaba de lhe outorgar o World Food Prize. Dividiu com o ex-presidente da Gana a bolada de 432 mil reais. O populismo também tem os seus méritos porque persiste na figura do "pai dos pobres" ? agora metamorfoseado em mãe. O populismo atende a um clamor em países onde a população pobre é ainda muito expressiva. À medida que escapa da pobreza espera-se que a classe C seja mais imune aos apelos populista, depois de inseridos na sociedade de consumo. Deram o Nobel da Paz para Ytzhak Rabin, Shimon Perez e Yasser Arafat, em 1994. De que adiantou? Palestinos e israelenses continuam se matando. Nem Mahatma Ghandi, o maior pacifista da história conseguiu chamar a atenção para o Nobel. Em 1948, pouco antes de ser assassinado, o prêmio pela Paz ficou em branco "por falta de candidato adequado". O Nobel também comete suas gafes. Em 1949 laurearam o psiquiatra português Egas Monis, que criou a lobotomia, o selvagem método de cortar o lobo central ao tálamo do doente mental violento, para que ele dê sossego. Os escritores James Joyce, Tolstói, Tchekhov, Proust, Ibsen e Mark Twain também não ganharam. Quem sabe Lula tira o Brasil desta fome de Nobel. Vai ser duro aguentar uns quatrocentos "nunca antes na história deste País". Mas, enfim...


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC